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Atrás de renda e sem home office, pobres morrem mais de Covid

FERNANDO CANZIAN
·3 minuto de leitura
**Arquivo**SÃO PAULO, SP, 29/03/2021, BRASIL - Movimentação no transporte público na cidade de São Paulo. Geral da saída da estação da CPTM Luz. (Rivaldo Gomes/Folhapress)
**Arquivo**SÃO PAULO, SP, 29/03/2021, BRASIL - Movimentação no transporte público na cidade de São Paulo. Geral da saída da estação da CPTM Luz. (Rivaldo Gomes/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dados do mercado de trabalho durante a pandemia da Covid-19 mostram que os mais ricos e escolarizados no Brasil puderam se proteger bem mais que as pessoas de menor renda e pouca educação.

Não por acaso, estudos apontam que áreas pobres no país e bairros da periferia de São Paulo chegaram a ter três vezes mais mortes causadas pelo coronavírus do que outras regiões.

Segundo dados da Pnad Covid-19 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) elaborados pela FGV Social, 28% dos membros da classe A/B (renda domiciliar superior a R$ 8.303) puderam alterar o local de trabalho durante a pandemia.

Na classe D/E (até R$ 1.926), apenas cerca de 7,5% tiveram essa opção. Na classe C (onde está mais da metade da população -renda entre R$ 1.926 e R$ 8.303), somente 10,3% fizeram isso.

Entre as profissões que menos puderam alterar o local e a forma de trabalho, indo para home office, por exemplo, estão principalmente os ocupados no setor de serviços, como funcionários de supermercados, vendedores e frentistas de postos. Quase 95% deles continuaram trabalhando no mesmo local na pandemia.

Entre as profissões mais intelectualizadas, 44% alteram o local de trabalho.

"Os trabalhadores mais pobres são os que mais precisam sair de casa para conseguir renda. Trabalhar em 'home office' é um privilégio das classes A e B, onde estão os empregadores, trabalhadores da ciência ou intelectuais, dirigentes e funcionários públicos", diz Marcelo Neri, diretor da FGV Social.

Em 2020, grande parte dos trabalhadores de menor renda e os informais ficaram relativamente protegidos pelo pagamento do auxílio emergencial. Agora, no pior momento da pandemia no Brasil, não só o total de beneficiários será muito menor como os valores foram reduzidos drasticamente.

No ano passado, o benefício foi pago entre abril e dezembro (R$ 600 ao mês a 66 milhões de pessoas), com R$ 293 bilhões empregados. A nova rodada (de R$ 250 a 45,6 milhões) tem duração prevista de apenas quatro meses e somar R$ 44 bilhões -15% do total de 2020.

A diferença entre os que puderam ficar mais ou menos protegidos é a mesma quando a comparação é feita levando em conta a escolaridade: 34% dos que têm ensino superior alteraram o local de trabalho. A taxa cai para 8% entre os com ensino médio completo e a 6,6% entre os que têm apenas o fundamental.

Em fevereiro, o estudo "Desigualdade Social e a mortalidade pela Covid-19 na cidade de São Paulo", elaborado por quatro pesquisadoras com base em 19,5 mil óbitos, identificou que, nos distritos em que mais de 10% da população tem renda per capita menor que R$ 275, morreram 70% mais pessoas de Covid-19 que nas regiões mais ricas.

As áreas com maior percentual de moradias precárias tiveram 53% mais óbitos. Em casas com mais de três pessoas por cômodo, a taxa de mortalidade foi mais que o dobro na comparação com domicílios menos densos.

Outro trabalho do ano passado, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), revelou que 79,6% dos óbitos registrados na cidade do Rio de Janeiro ocorreram nas áreas mais pobres --tanto pela saúde deficiente nessas regiões quanto pelas condições socioeconômicas precárias dos infectados.

Os dados da FGV Social a partir da Pnad Covid-19 mostram ainda que Rio, Ceará, Pernambuco e São Paulo foram os estados mais afetados pela pandemia em termos de queda na ocupação. Na média, a taxa caiu 9,5% no Brasil em 2020, mas ela chegou a ceder 14,3% no Rio e 11,3% em São Paulo.

"A queda na ocupação poderia ter sido o dobro disso não fosse o programa federal de redução de jornada de trabalho e salário implementado na pandemia", afirma Neri.

Novamente os mais pobres foram justamente os principais afetados pela queda na ocupação. Entre os 50% mais pobres em São Paulo, a taxa de ocupação despencou 22%, o dobro da média do estado.