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Atos golpistas preocupam investidores estrangeiros, mas menos que agenda econômica de Lula

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os atos golpistas promovidos por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) neste domingo (8) foram interpretados por investidores estrangeiros como um sinal de alerta quanto ao grau de incerteza política que o Brasil enfrenta.

Avessos à instabilidade, eles consideram o episódio preocupante, mas não tanto quanto os rumos que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode tomar na agenda econômica, sobretudo em seu aspecto fiscal.

Na avaliação de investidores internacionais e analistas ouvidos pela reportagem, embora os atos violentos possam pesar na percepção de risco no curto prazo, o foco em um horizonte mais amplo continua sendo o cenário macroeconômico.

Reflexo dessa leitura, os principais indicadores do mercado financeiro praticamente não reagiram aos atos golpistas deste domingo. A Bolsa brasileira fechou estável (alta de 0,15%), enquanto o dólar subiu ligeiramente (alta de 0,38%). Já na última segunda-feira (2) —no primeiro pregão após a posse de Lula— o Ibovespa caiu 3,06% e o dólar subiu 1,47%, num sinal de descontentamento com os sinais dados pelo novo presidente em seu discurso.

Em mensagem enviada a clientes nesta segunda, Nenad Dinic, estrategista de equity da Julius Baer, grupo suíço com cerca de R$ 2,4 trilhões em ativos sob gestão, disse que os tumultos em Brasília causaram incerteza.

Contudo, embora não tenha descartado a possibilidade de que novos protestos violentos possam pesar no mercado no curto prazo, ele afirmou que o foco dos investidores continua nas questões macroeconômicas, especialmente no desenho do novo quadro fiscal do Brasil.

"Aguardamos mais sinais de que o governo conseguirá acalmar as preocupações fiscais do mercado, o que pode levar as ações brasileiras a ganhar impulso positivo", escreveu.

Os atos de extrema-direita ocorridos no domingo também foram mencionados em relatório do Goldman Sachs. Segundo a instituição financeira de Wall Street, o ambiente político instável e profundamente dividido, somado à alta tensão social, mantém os prêmios de risco altos e pode afetar a governabilidade geral.

"Isso implica que o novo governo, a oposição e a classe política em geral terão que trabalhar para curar a profunda crise política e brechas sociais abertas durante a campanha", diz o relatório.

Lucas de Aragão, sócio da Arko Advice, disse ter sido procurado por diversos investidores de domingo para segunda, desde empresas multinacionais com operações no Brasil até bancos e fundos que investem no país.

"A primeira percepção foi de muito susto", diz. "Todos preocupados se [os atos golpistas] tinham alguma repercussão prática na institucionalidade do país."

Segundo ele, com o passar do tempo, essa preocupação foi se dissipando, e um dos motivos foi a conclusão de que se tratava de um ato desorganizado, sem um aparato institucional por trás. A agilidade dos Três Poderes, empresas e associações da sociedade civil em repudiar o movimento também contribuiu, avalia.

"Todos que importam no país criticaram e se distanciaram dos atos. Isso protegeu um pouco a imagem da institucionalidade brasileira", diz.

Por mais perturbador que seja, afirma Aragão, o episódio de domingo não foi visto como surpreendente pelo mercado financeiro em razão da reação forte e unificada das instituições. As dúvidas dos investidores continuam sendo sobre a relação de Lula com o Congresso, as discussões em torno de um novo arcabouço fiscal, a relação do Executivo com o Banco Central e o quadro fiscal do país.

Raymond Zucaro, diretor de investimentos da RVX Asset Management —gestora com sede na Flórida—, diz enxergar os ataques ocorridos em Brasília como um motivo a mais para os investidores fazerem uma pausa.

"Aqueles que pensavam que Lula chegaria mais prudente fiscalmente veem agora que um tigre não muda suas listras. Adicionando esse tipo de incerteza política, os investidores estrangeiros vão pausar ou até mesmo reduzir suas participações no Brasil", afirma.

Segundo ele, o país se saiu bem em 2022, o que facilita a decisão de "tirar lucro e ir para outros países com menos ruído".

"Nos fundos que administro tenho reduzido a exposição ao Brasil desde as eleições e, embora as avaliações [valuations] estejam mais baratas agora, preocupo-me com a derrapagem fiscal que pode enfraquecer o real, causando prejuízos aos portfólios baseados em dólar", diz.

Questionado se pretende reduzir ainda mais seus investimentos no Brasil após os atos golpistas, ele reforçou que já havia diminuído em função da disputa eleitoral. "Os atos de ontem [domingo] me dizem que fiz a coisa certa."

Mario Sergio Lima, analista sênior para a Medley Advisors sobre Brasil, não vê chances de o Brasil sofrer uma fuga de capital estrangeiro.

Segundo ele, as imagens de violência rodaram o mundo, o que contribui para que muitos investidores internacionais adotem um comportamento de aversão ao risco em relação ao Brasil

No entanto, ele lembra que os investidores estrangeiros têm sido mais otimistas em relação ao país do que os investidores nacionais.

"Caso as autoridades consigam reprimir de forma satisfatória os grupos terroristas radicalizados de direita, e passemos a ver culpabilização dos que praticaram os atos, seus financiadores e os influenciadores políticos, o clima de aversão ao risco pode se dissipar de forma relativamente rápida, limitando os impactos maiores ao curto prazo", afirma.

Já para William Jackson, da consultoria Capital Economics, as implicações da invasão do Congresso são principalmente políticas. "Mas os distúrbios podem resultar em um prêmio de risco duradouro sobre os ativos financeiros do país, principalmente se levarem Lula a dobrar a aposta em sua agenda econômica", disse.

Segundo ele, as preocupações na área econômica dependem de alguns pontos. O primeiro é se este é um evento único ou recorrente.

"Se os protestos se tornarem mais frequentes e/ou se espalharem para setores mais críticos, os custos econômicos seriam maiores. Por exemplo, quando os caminhoneiros (uma das principais bases de apoio de Bolsonaro) entraram em greve em 2018, houve uma queda de 10% na produção industrial e a inflação aumentou alguns pontos percentuais."

A segunda questão é como será a reação de Lula. "O risco do ponto de vista econômico é que essa ameaça à sua presidência leve Lula a abraçar as partes mais esquerdistas de sua agenda (mais gastos com a Previdência Social, maior papel do Estado na economia e redução do papel das forças de mercado), em vez de buscar um compromisso com seus oponentes políticos."