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Astrônomos refutam descoberta de fosfina em Vênus: "sem evidências estatísticas"

Patrícia Gnipper
·4 minuto de leitura

Em setembro, um estudou causou alvoroço na comunidade científica e também no imaginário popular, quando pesquisadores anunciaram a descoberta de fosfina (PH3) na atmosfera de Vênus. É que a fosfina, semelhante à amônia (NH3), pode ser uma bioassinatura, ou seja, pode ser produzida por seres vivos; por isso, a presença de fosfina na atmosfera venusiana poderia ser encarado como indício de que existe algum tipo de vida nas nuvens do "planeta infernal".

Arte imagina as moléculas de fosfina nas camadas intermediárias da atmosfera de Vênus (Imagem: Reprodução/ESO/M. KORNMESSER/L. CALÇADA)
Arte imagina as moléculas de fosfina nas camadas intermediárias da atmosfera de Vênus (Imagem: Reprodução/ESO/M. KORNMESSER/L. CALÇADA)

Agora, um novo estudo surge colocando um enorme balde de água fria nisso tudo, com os pesquisadores afirmando que sua análise do estudo anterior não encontrou evidências estatísticas de que há fosfina em Vênus. O novo artigo foi publicado no arXiv no dia 19 de outubro, e vale dizer que ele ainda não foi revisado por pares, processo necessário para que seja validado e publicado em um periódico científico.

Ainda assim, a polêmica é real — até porque um segundo estudo, este já aceito para publicação na revista Astronomy & Astrophysics, indicou não ter encontrado a quantidade de fosfina anunciada em setembro. Os pesquisadores afirmam, inclusive, que têm confiança superior a 99,7% de que não existiria mais que 5 partes por bilhão de fosfina na atmosfera de Vênus — no anúncio inicial, os cientistas disseram ter encontrado a fosfina em 20 partes por bilhão no ar venusiano.

Qual seria a verdade, então?

O astrofísico Ethan Siegel, que alimenta o blog Starts With a Bang no site da Forbes, levanta algumas explicações para a controvérsia, e ele considera que "houve uma falha na forma como a equipe original lidou com os dados" — os pesquisadores podem ter ficado confiantes demais na análise dos dados, o que teria levado a conclusões incorretas. Ou seja: o que eles observaram ali pode não ser, de fato, a fosfina.

O problema todo poderia estar na etapa do processo observatório que envolve remover os ruídos da observação, mantendo intactos os dados reais. A equipe envolvida com o estudo inicial fez o processo todo, mas, segundo a equipe envolvida na reanálise dos dados, o método de ajuste usado pelo primeiro time leva "a severas superestimações da importância das características espectrais e resultados artificiais". Isso significa que indícios falsos de fosfina teriam sido encarados como reais pela equipe inicial.

Fosfina em Vênus: realidade ou puro engano? (Imagem: Reprodução/ESO/M. Kornmesser/L. Calçada/NASA JPL/Caltech)
Fosfina em Vênus: realidade ou puro engano? (Imagem: Reprodução/ESO/M. Kornmesser/L. Calçada/NASA JPL/Caltech)

"Se eles analisaram seus dados de maneira inadequada, como este novo trabalho afirma, então a assinatura química da fosfina pode não estar presente", diz Siegel. Contudo, é importante frisar que o novo artigo ainda precisa ser revisado por pares, então ainda é cedo para dizer que não há mesmo fosfina em Vênus — assim como também ainda não se pode ter a certeza de que a substância está mesmo por lá. "Suspeito que a equipe original fará uma reanálise por conta própria para chegar a novas conclusões", revela o astrofísico.

O que se pode afirmar no momento é apenas o seguinte: por enquanto, não há evidências concretas de que Vênus tenha atividade biológica — até porque, mesmo se a fosfina existir por lá, ainda será preciso confirmar qual processo está dando origem a ela, se é mesmo biológico ou se pode ser físico ou químico.

Talvez o recente sobrevoo da sonda BepiColombo pelo "planeta infernal" ajude a ciência a confirmar alguma coisa, mas a agência espacial europeia ESA já pediu "muita calma nessa hora". "Teremos que ser pacientes enquanto nossos especialistas em Vênus examinam cuidadosamente os dados", disse Johannes Benkhoff, cientista de projetos da missão. A agência só deverá divulgar resultados dessas análises no ano que vem, pois precisará esperar que o segundo sobrevoo da sonda por Vênus seja feito, o que só vai acontecer no dia 10 de agosto de 2021, quando a nave ficará a apenas 500 km da superfície. No primeiro sobrevoo, a BepiColombo passou a 10.720 km de distância.

Talvez a fosfina exista em Vênus, mas em proporções menores do que as divulgadas pelo estudo original. Talvez a detecção da fosfina venusiana tenha sido um "delírio coletivo", fruto de um erro honesto. Essa história ainda está sendo escrita, e precisamos tomar cuidado com conclusões precipitadas, "segurando a onda" enquanto o desfecho não vem. Afinal, parafraseando Carl Sagan, "alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias" — e as evidências de fosfina em Vênus nitidamente ainda não são extraordinárias o suficiente.

Fonte: Canaltech

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