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ASMR: por que a Gen Z é obcecada com sons do dia a dia?

Marcela De Mingo
·5 minutos de leitura
Woman hands with perfect manicure and bubble wrap. Making ASMR sounds. Triggers for relaxations, stress relief and good sleep. Copy space for your text.
A tendência do ASMR é curiosa, mas sua motivação não: a Gen Z tem índices de depressão, burnout e suicídio que preocupam pais e médicos (Foto: Getty Creative)

Há muitos meses, quando aglomerações ainda eram normais, saiu na Netflix um documentário que mostrava os bastidores de algumas das grandes reportagens do site de notícias Buzzfeed. No primeiro episódio de “Seguindo os Fatos", a repórter já impressiona ao fazer uma matéria sobre ASMR, visitando, inclusive, um espaço dedicado à prática em Nova York.

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Com certeza você pensou em milhares de coisas quando leu “ASMR", “espaço" e "prática" na mesma frase. E por mais que a conotação sexual seja, mesmo, a primeira coisa que vem à mente, ASMR me lembra sons de chuva e o barulho ambiente de um café. Pois é, o assunto que é a sensação do momento não é tão polêmico assim.

Aliás, essa é uma tendência que define, sim, toda a geração mais nova, que busca, acima de tudo, uma forma de escapar dos problemas e cuidar mais de si. Sons como esses - de chuva, de conversas num café, de alguém mexendo em folhas de papel, até de uma pessoa estourando plástico bolha ou sussurrando no microfone - são sinônimo de "calma" para a Gen Z: uma maneira de lidar com a ansiedade, trabalhar a concentração enquanto estuda e melhorar o sono.

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Por mais que "ASMR" pareça a sigla de uma nova doença ou algum tipo de pornografia, na verdade é a abreviação de algo mais científico: Autonomous Sensory Meridian Response (Resposta Sensorial Meridiana Autônoma, em português). O nome determina sons e imagens que geram estímulos cerebrais decodificados como uma sensação de relaxamento ou bem estar - por isso são variados, de alguém fazendo chá ao farfalhar de folhas secas.

E por mais que esses sons naturalmente façam parte do dia a dia - o "pop" ao tirar um remédio da embalagem, a mão sobre o tecido ao arrumar a cama, o som do vento batendo nas árvores… - a ideia dos vídeos ASMR é gerar esses pequenos prazeres de forma intencional.

E, vamos combinar, a Gen Z bem que precisa desses gatilhos emocionais. Esses jovens, nascidos entre 1996 e 2010, estão nas estatísticas com os maiores índices de transtornos mentais do mundo. De acordo com uma pesquisa feita pela Mind Share Partners, Qualtrics And SAP, 75% desses jovens que já entraram no mercado de trabalho precisaram trocar de empresa ou sair da sua ocupação por conta de questões como a depressão e o burnout.

Quando se fala em suicídio, aliás, os números são ainda mais preocupantes. De acordo com um relatório do Centro de Controle e Prevenção de Doenças norte-americano, o índice de morte auto-induzida aumentou 56% entre os anos de 2007 e 2017 para pessoas entre 10 e 24 anos. Isso torna o suicídio a segunda principal causa de morte desses jovens, comprovando a teoria de que essa geração passa por uma crise de saúde mental muito pior do que a geração anterior, os millennials, jamais enfrentaram.

Os motivos para isso são muitos, mas é fato que a internet e seu uso excessivo tem a sua parcela de efeitos na estabilidade emocional e saúde mental dessas pessoas, que praticamente cresceram com um celular na mão e não conheceram o mundo sem a internet.

O sucesso de vídeos ASMR, então, vem por conta disso: o quanto esses jovens precisam de um respiro, uma maneira de controlar as emoções, diminuir o índice de ansiedade e, porque não, sentirem-se menos sozinhos. Os vídeos study with me, por exemplo, são populares porque mostram alguém estudando em algum canto do mundo, com música ou só fazendo os sons normais de quem estuda mexendo em papéis e no computador, enquanto quem vê pode fazer a mesma coisa ou só aproveitar os sons ambientes.

Os cientistas ainda não comprovaram porque o ASMR funciona como uma forma de relaxamento - e porque alguns sons afetam algumas pessoas, outros afetam outras pessoas e, às vezes, nenhum deles causa efeito algum - mas fato é que a sua popularidade têm sido tão grande que até já foi citada pela WGSN, gigante de previsão de tendências, como uma forma de relacionamento com esse público - criar conteúdo ASMR dá resultado, pelo visto.

A tendência também se confirma pelas pesquisas feitas pelo Pinterest, que mostram que a busca por "comida ASMR", por exemplo, aumentou 84% em tempos recentes, assim como a procura por "check up de saúde mental" (cinco vezes mais buscas) e por "ideias de quarto zen" (também cinco vezes mais buscas).

Relaxar, descansar a mente, é um exercício que depende de muitos fatores, e já falamos várias vezes sobre como o autocuidado tem se tornado essencial, mas o que vemos são pessoas cada vez mais ansiosas com o ritmo do mundo, com o que sentem, e que precisam de reconexão. Se esses vídeos ajudam, no mínimo podemos esperar que surjam cada vez mais deles e que cada um encontre o seu ASMR perfeito para relaxar e desconectar da loucura do mundo.

Importante notar que se você tem tido episódios frequentes de depressão ou burnout, se sente que está sobrecarregado e tem tido dificuldades de lidar com a vida cotidiana: busque ajuda. Existem locais de atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito em cidades como São Paulo e você pode sempre contar com o apoio do CVV - o Centro de Valorização à Vida, discando 188 de qualquer lugar, a qualquer hora do dia, sete dias por semana.