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"As lives vêm mostrando que o pagode está de volta", diz Belo

Divulgação

Trancafiado em sua mansão na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, Belo viu na quarentena provocada pelo novo coronavírus uma oportunidade de se tornar uma pessoa, digamos, mais digital. Após uma live muito repercutida, o cantor aproveitou o embalo e disparou outros lançamentos na internet: só neste período de isolamento social foram divulgados em suas redes sociais um videoclipe (Oya) e três EPs, dois deles com registros do projeto mais ambicioso da sua carreira, o Belo In Concert. Completando 25 anos de carreira, o artista de 46 sente-se, agora sempre com o celular em mão, tateando um brinquedo novo .

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"Eu realmente não era muito ligado nisso (ambiente digital). Com a pandemia, a internet virou o único canal entre o artista e seu público, uma vez que os shows e eventos serão os últimos a voltarem ao normal. Eu estou adorando tudo. Até na onda do TikTok eu entrei", disse Belo ao Yahoo. Admitindo seguir os conselhos da esposa, a influencer Gracyanne Barbosa, o cantor vê a sua presença cada vez mais forte não só como um simples hábito adquirido, mas como uma real estratégia de retomada de espaço do pagode no mainstream.

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"Na verdade, o pagode vem crescendo de novo, e as lives estão aí para mostrar isso. A minha live é a terceira mais assistida do gênero, com quase 9 milhões de views. Você pode ver que as transmissões são artistas que têm uma história. O público quer assistir para relembrar uma época maravilhosa", fala o artista, citando os anos 90, década de ouro para o gênero, impulsionado pelas gravadoras e programas de auditório.

Cada vez mais comparado ao igualmente romântico Roberto Carlos, Belo, por sinal, não se sente seduzido pelo passado. Apesar de músicas como Mundo de Oz e Farol das Estrelas serem recebidas com júbilo pelos seus fãs, ele não se vê cantando novamente com os antigos companheiros de grupo. "Eu acho que a história Belo e Soweto já foi. Já vivemos e mostramos, juntos, tudo o que tínhamos de bom", afirma.

Leia abaixo a nossa conversa na íntegra:

Yahoo: Belo, muito obrigado por falar com o Yahoo! Você lançou recentemente o Belo In Concert nas plataformas digitais, e a primeira coisa que me passa pela cabeça é uma fala sua sobre o projeto só ter saído do papel por causa de um texto de Chico Barney, aquele que te colocava como sucessor natural de Roberto Carlos. Como você se sente quando ouve as pessoas te apontam como possível substituto do Rei no especial de fim de ano da TV Globo? Você já se imaginou nesse lugar?

Belo: Cara, é engraçado, porque foi uma matéria bem-humorada do Chico que rendeu comentários muito legais. Minha família é fã do Roberto. Uma paixão que passou de geração. Hoje, meus netos sabem quem é Roberto Carlos. Eu, inclusive, canto músicas dele no Belo In Concert. É uma honra ser citado e comparado ao Rei.

Yahoo: Desde a época do Soweto, você faz muito sucesso nas periferias do Brasil - não à toa sendo chamado de "o cantor das multidões". Você acredita que o Belo in Concert, um show com público mais elitizado, ajuda a combater o preconceito contra o pagode?

Belo: O Belo In Concert é um show para o meu público mais antigo, que gosta de sair de casal, curtir uma noite agradável e sentar em uma mesa para cantar os sucessos do Belo. Além disso, também é uma oportunidade para cantar as músicas do meu lado B, além de fazer algumas homenagens aos meus ídolos. Sobre o pagode, é o tal do "pré-conceito". Mas acho que diminuiu bastante. Hoje em dia, quem curte sertanejo também curte um bom pagode, curte pop, curte rap. O Brasil é um país tão abençoado e diversificado musicalmente. Tem espaço para todo mundo.

Yahoo: Você tem prometido ser mais ativo na internet neste ano. Como um artista que despontou no auge das gravadoras, nos anos 1990, como você vê o mercado da música nos dias de hoje? O streaming e o Youtube mudaram muito a vida dos músicos que surgiram naquela época?

Belo: A convivência com a Gracyanne - que, entre outras coisas, vive das redes sociais - e agora a quarentena me fizeram olhar mais para as minhas redes. Eu realmente não era muito ligado nisso. Com a pandemia, a internet virou o único canal entre o artista e seu público, uma vez que os shows e eventos serão os últimos a voltarem ao normal. Eu estou adorando tudo - até na onda do TikTok eu entrei. Adoro essa coisa família, de poder me divertir com as pessoas que eu amo e levar essa diversão para quem assiste.

Yahoo: Por falar em internet, a sua live foi um sucesso, atingindo mais de 800 mil pessoas simultâneas. Alexandre Pires, Sorriso Maroto, Thiaguinho e Raça Negra também fizeram lives de imenso sucesso neste período. Se o gênero tem tanto público, por que as pessoas dizem que o pagode está decadente?

Belo: Na verdade, o pagode vem crescendo de novo, e as lives estão aí para mostrar isso. A minha live é a terceira mais assistida do gênero, com quase 9 milhões de views. Você pode ver que as transmissões são artistas que têm uma história. O público quer assistir para relembrar uma época maravilhosa. Nessa lista, ainda tem o Pericão, de quem sou fã, Pixote, enfim, todos que carregam anos de história na bagagem e fazem parte da vida das pessoas. E ainda tem os novos nomes, como Dilsinho, Ferrugem...

Yahoo: Por falar em gênero, talvez seja correto dizer que você é o cantor de pagode com mais proximidade com a MPB (os seus covers de Milton Nascimento, Moraes Moreira e Roberto Carlos na live mostra bem isso). Em De Alma Aberta, seu último álbum de estúdio, notamos tanto a presença forte dos metais do soul (em "Fases" e “Paradoxal”) quanto os beats do eletrônico alternativo (em "Você e Eu") à lá James Blake. Além disso, você já cantou com os Racionais MC’s, fez dueto com o PK e lançou Contramão, que muita gente disse que é um "trap". A decisão de experimentar novas influências parte de você? Seria essa versatilidade o segredo do seu sucesso?

Belo: Cara, eu ouço de tudo. Sou bem eclético e muito a favor dessa mistura musical. Somos tão ricos musicalmente. Mas as minhas principais influências estão na MPB: sou um fã incondicional das obras do Djavan, Roberto Carlos e Milton Nascimento.

Yahoo: Você vai fazer um Arraiá na sua próxima live marcada para o dia 20 de junho. O que podemos esperar dessa apresentação? A colunista Fábia Oliveira, d’O Dia, disse que a estrutura da sua primeira live foi montada por profissionais sem máscaras. A informação procede?

Belo: Todos os cuidados estão sendo tomados. Antes que falem: na minha casa já moram muitas pessoas, que são meus filhos, mãe, sogra, neta, cunhada. Todo mundo em isolamento junto comigo e com a Gracyanne. Então, vai ser uma festa em família. Cantarei músicas temáticas e vamos fazer um arraiá bem divertido.

Yahoo: Um dos momentos mais celebrados da sua live foi o medley do Soweto. Você ainda tem relação com os outros integrantes do grupo? Bate algum arrependimento por deixado a banda?

Belo: São fases da vida. Eu vivi intensamente os meus anos de Soweto. Quando Deus quis, segui o meu caminho solo. Sou muito grato por tudo o que o Soweto foi e é na minha vida. Foi uma história linda que jamais será esquecida.

Yahoo: Vou compartilhar uma opinião com você: considero o disco Farol das Estrelas, do Soweto, clássico, um dos melhores discos dos anos 1990. Você tem um álbum favorito na carreira?

Belo: Cada álbum lançado vira favorito para mim. É aquela história do filho recém-nascido, né? Tudo que é novidade... Enfim, todos os discos têm um lugar especial no meu coração.

Yahoo: E, para finalizar: sabemos que a marca Soweto não pertence a você. Isso faz com que uma eventual reunião do grupo seja impossível? É melhor os fãs não terem esperança?

R: Eu acho que a história Belo e Soweto já foi. Já vivemos e mostramos, juntos, tudo o que tínhamos de bom.

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