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Argentinos se refugiam da inflação em moeda boliviana e 'dólar cabeção'

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O apresentador de TV boliviano mostra de modo didático. Numa mão, tem 100 pesos argentinos, na outra, 230 bolivianos. "Isso era o que custavam 100 pesos argentinos em 2009". Depois, mostra como seria essa equivalência nos dias de hoje. Para isso, nem precisa mais de notas, abre seu porta-moedas e diz: "Para comprar 100 pesos argentinos hoje eu preciso de 1 boliviano e 50 centavos".

O vídeo viralizou nas redes e nas TVs locais nas últimas semanas, quando a moeda argentina vem se desvalorizando ante a inflação de 70% dos últimos 12 meses --com projeção de 90% para dezembro.

Historicamente, os argentinos cultivaram a tradição de guardar dólares em casa, devido às hiperinflações e ao trauma causado pelo "corralito", na crise de 2001-02, que fez com que a desconfiança nos bancos se implementasse na sociedade. Instalou-se a cultura do "banco colchão", ou seja, guardar dinheiro em casa mesmo, senão dentro do colchão, em cofres, gavetas secretas e outros esconderijos. Desde que seja em moeda norte-americana.

Os dólares, porém, estão mais difíceis de conseguir, desde que, em 2018, o governo de Mauricio Macri limitou as compras da moeda estrangeira a US$ 200 por mês, por pessoa, ao valor oficial. Com isso, fez aumentar a hoje enorme brecha entre o valor do dólar oficial (136 pesos) e o do paralelo (295 pesos).

Como o acesso ao dólar está restrito aos que podem viajar e trazer papel-moeda de fora ou pagar esse alto valor em pesos pela moeda norte-americana no mercado paralelo --cada vez menos gente, num país em que 44% da população está abaixo da linha da pobreza-- passou a ser comum a busca por moedas da região mais estáveis.

O boliviano é uma delas. Afinal, o país andino tem a mais baixa inflação da região, de 1,2% ao ano. Na região fronteiriça entre os dois países, é muito comum que comerciantes argentinos vendam seus produtos, muitas vezes no atacado, aos bolivianos, e guardem a divisa do país vizinho, que não se desvaloriza tão rápido como o peso argentino. Outra prática comum é a de guardar pesos uruguaios. Historicamente menos valioso que o peso argentino, o uruguaio já ultrapassou seu valor com relação ao dólar. A inflação uruguaia está alta, em 9,37%, mas não chega perto da Argentina.

O Uruguai também se transformou no local onde a maioria dos argentinos que recebem dinheiro do exterior têm contas. Afinal, receber qualquer transferência estrangeira na Argentina, na moeda que for, é perder mais da metade de seu valor, uma vez que as transações bancárias se fazem convertendo as moedas ao dólar oficial. Assim, o dinheiro chega a pesos convertidos pelo valor oficial, e pagando as taxas bancárias.

Daí a prática comum de abrir conta em dólares no Uruguai, país que permite esse recurso por parte de estrangeiros a custo baixo. O único inconveniente é que, cada vez que se precisa retirar dinheiro, é necessário tomar um barco até Colônia, cidade mais próxima, e voltar a Buenos Aires. É muito comum esse "turismo bancário", que ocorre diariamente entre as estações fluviais dos dois países.

Para usar essas moedas no dia a dia, o câmbio é feito nas "cuevas" clandestinas, lojas que operam ilegalmente, embora seus endereços sejam conhecidos, ou pelos chamados "arbolitos" (assim conhecidos porque costumam andar com dólares, ou seja, notas "verdinhas"). Estes podem estar parados nas ruas comerciais ou perto de hotéis, onde oferecem um câmbio menos favorável e com o risco de entregar notas falsas de pesos. Há os que fazem o serviço em casa, os "arbolitos delivery". Nas "cuevas", o câmbio é melhor, mas, mesmo assim, os argentinos têm trocado pouco no dia a dia.

"O ideal para a classe média é acumular o máximo possível de moeda estrangeira e só trocar para pesos na hora de gastar mesmo, porque você troca na segunda-feira, e na sexta essa moeda já vale menos", diz Giovani (não quis dar sobrenome) que opera uma "cueva" em Palermo.

O peso valendo menos também se reflete, paradoxalmente, num aumento de consumo, mesmo com a inflação alta. "Se sobra algo e não chega para comprar dólares para guardar, gastamos, é comer fora, é viagem de fim de semana, é um presente para as crianças. Tudo menos ficar com papel-moeda em pesos na mão", diz Angelina Suárez, 45, que fazia compras num mercado em Núñez, no começo da semana. É por isso que a noite portenha anda badalada e com restaurantes cheios, principalmente depois de os casos de Covid terem baixado e as restrições terem caído.

Os comerciantes preferem não receber por meio de cartão de crédito. Em geral, há tabelas com os dois diferentes valores já na porta do estabelecimento. Se o cliente pagar em cash, tem desconto. "Entre o dia da compra e o dia em que me pagam de verdade, perco dinheiro, por isso cobro com desconto no ato se pagarem em dinheiro", diz Pablo Almeyda, dono de uma livraria em Villa Crespo.

A compra de pesos em papel-moeda também se dificulta, é preciso marcar horário nos bancos ou casas de câmbio. A razão é que está cada vez mais difícil entregar em dinheiro a quantidade de cédulas equivalente a US$ 50 ou US$ 100. As moedas de peso desaparecem rápido da carteira com o custo alto de alimentos, remédio ou transporte.

Há, ainda, restrições com relação à antiguidade e o valor das notas de dólar. Em cambistas ilegais, ou mesmo em transações que na Argentina se fazem em dólar, como a compra de apartamentos, não se aceitam os dólares chamados de "cabecinha", ou seja, as cédulas antigas, em que a imagem de Benjamin Franklin aparece menor que nas novas, o chamado "dólar cabeção". Por notas menos valiosas, como de US$ 50 e US$ 20, paga-se também menos que seu valor. Todos preferem as de US$ 100, de preferência, com "cabeção".

Há, ainda, um problema com a denominação das notas. Hoje, a de valor mais alto em circulação é a de 1.000 pesos argentinos, que equivale a US$ 8. Isso dificulta a manutenção dos caixas eletrônicos com dinheiro. O máximo que se pode retirar por dia são 10 mil pesos (US$ 72), pouco para gastos maiores, como uma consulta médica, um gasto de emergência. A quantidade de notas de pouco valor faz com que caixas eletrônicos travem a todo momento.

Se o uso de cartões de crédito não é popular, os de débito passaram a ser mais usados, principalmente durante a pandemia. Mesmo assim, são cartões operados com pouco dinheiro. As pessoas, em geral, carregam as contas em pesos a cada semana ou a cada 20 dias, apenas para os gastos diários, e continuam, em geral, mantendo o grosso de seus investimentos em casa.

Mesmo com a introdução desses modos de pagamento virtuais, há uns 40% do PIB que funcionam de modo clandestino ("en negro").

A entrada dos aplicativos de carona no país ainda é ilegal, mas tolerada. É muito comum, porém, que o cliente tenha a viagem cancelada quando se dá conta que o modo de pagamento será por cartão de crédito.

A chegada de Sergio Massa no novo "superministério" da economia significou, entre outras coisas, o fim dos chamados "planos platita", ou "planos dinheirinho", que se distribuíram à população que não podia trabalhar devido às restrições da pandemia, mas que significaram uma impressão inédita de dinheiro. Como esta é vista por Massa como um dos motores da inflação, a emissão de mais papel-moeda, por ora, está suspensa.