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Argentina pode evitar desvalorização do peso, diz Cavallo

Ignacio Olivera Doll e Patrick Gillespie
·3 minuto de leitura

(Bloomberg) -- À medida que o peso despenca em relação ao dólar no mercado paralelo, crescem as especulações nos círculos financeiros argentinos de que o governo vai desvalorizar a taxa de câmbio oficial já no início do próximo ano. Mas um economista proeminente, o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo, diz que ainda é possível evitar uma desvalorização.

Embora as negociações de futuros do dólar e uma diferença cada vez maior entre a taxa oficial e o mercado paralelo indiquem expectativas de um peso mais fraco, Cavallo, que fixou a taxa de câmbio do país ao dólar em 1 por 1 na década de 1990, diz que muitas transações podem ser impulsionadas por uma taxa paralela conhecida como blue-chip swap para aliviar a demanda reprimida e a pressão no mercado.

Apesar dos rígidos controles de capital e intervenções no câmbio, a taxa oficial se desvalorizou 24% neste ano. As restrições ao acesso a dólares por meio de canais oficiais levam investidores e poupadores de varejo para mercados não oficiais, onde o valor do peso despencou neste ano com a insaciável demanda por dólares para se proteger da inflação e da possível desvalorização.

“Para enfrentar essa situação, uma grande desvalorização não é necessária”, disse Cavallo, de 74 anos, em entrevista por vídeo de Washington. “Isso só pioraria a situação.”

Uma unificação das taxas também não funcionaria, disse, porque isso aumentaria a possibilidade de instabilidade política em meio às tensões provocadas pela pandemia de coronavírus. Em vez disso, o governo deve reservar o mercado oficial para atividades comerciais essenciais e impulsionar outras transações por meio de um mercado de flutuação livre semelhante ao que é a blue-chip swap hoje.

“Dessa forma, haveria mais confiança e a diferença cambial seria reduzida”, disse. “O governo tem se concentrado em restringir a blue-chip, quando deveria fazer o contrário.”

O governo pressiona corretoras a limitarem negociações no mercado e frequentemente ajusta as regras sobre quanto tempo certos ativos devem ser mantidos antes de serem vendidos.

O mercado da blue-chip swap consiste na compra e venda de títulos ou ações que são cotados em pesos e em dólares. A transação cria uma taxa de câmbio implícita que atualmente é de 158,8 pesos contra 78,3 da oficial.

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, tem dito publicamente que seu governo não vai desvalorizar o peso e descreveu o uso da blue-chip swap como especulativo. Ainda assim, analistas e investidores apontam para a diferença entre as taxas oficial e paralela, a maior desde 1989, para apontar para uma desvalorização iminente.

Sem dúvida, a trajetória profissional de Cavallo mostra que ele nunca viu a desvalorização como solução para os problemas do país.

Cavallo, que atualmente trabalha como consultor na Global Source Partners, ganhou fama no início dos anos 1990 como ministro da Economia do presidente Carlos Menem. Para combater a hiperinflação, ele implementou um regime monetário conhecido como “conversibilidade”, em que um peso valia um dólar.

O governo também deve trabalhar mais no lado fiscal, especialmente se espera fechar um acordo com o Fundo Monetário Internacional, disse.

O aumento da impressão de dinheiro devido à falta de opções de financiamento durante a pandemia de coronavírus agrava os problemas econômicos existentes, como uma recessão de três anos e uma das taxas de inflação mais altas do mundo, ao mesmo tempo que reativa as memórias de crises anteriores.

“O melhor seria que o governo ajustasse os preços dos serviços públicos que estão atrasados, pois assim reduziria os subsídios aos produtores desses serviços e isso permitiria um ajuste fiscal que é imprescindível para sair desta situação”, disse Cavallo.

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