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Argentina e credores se aproximam de acordo sobre dívida, apesar de diferenças

Por Maria Lorente
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Presidente da Argentina, Alberto Fernández

A Argentina se aproximou de posições com boa parte de seus credores para conseguir uma reestruturação "sustentável" de uma parcela de sua dívida de cerca de 66 bilhões de dólares sob a lei estrangeira, mas as diferenças com alguns detentores de títulos se aprofundaram.

O governo de Alberto Fernández esperava selar um acordo nesta semana, com a apresentação de uma "oferta final" na última terça-feira.

No entanto, as expectativas caíram, embora as negociações continuem.

"Vamos pagar na medida em que pudermos, nem um milímetro a mais. E nisso sou inflexível porque conheço como estão as finanças do mundo. Não podem exigir da Argentia o que não exigem do mundo", advertiu o presidente, em declarações à TV local.

"Estamos fazendo um trabalho para tentar aproximar posições. Se não querem aproximá-las, não depende mais de mim", sentenciou o mandatário.

"Não há oferta, a distância com alguns detentores de títulos ainda é insustentável", disse à AFP uma fonte do governo, a dois dias para o prazo estipulado pelo governo para aderir ao swap.

"É altamente improvável que (um acordo) seja resolvido antes de sexta-feira", disse a fonte.

As negociações foram mantidas até agora sob um acordo de confidencialidade, mas esse compromisso terminou na tarde desta quarta-feira e não foi renovado.

À noite, o Ministério da Economia divulgou um comunicado com a nova proposta aos detentores de bônus, esclarecendo que não é ainda uma oferta formal: a Argentina reduz por mais um ano o período de carência (começando a pagar em 2021), reduz a quitação de capital e os vencimentos são encurtados.

Os credores "responderam à informação fornecida pela Argentina propondo ajustes, descritos em separado, com os quais a Argentina não pode se comprometer de forma razoável, alguns dos quais são amplamente inconsistentes com o marco de sustentabilidade da dívida que a República precisa para restaurar a estabilidade macroeconômica e para avançar com um programa com o FMI", destacou o comunicado.

A Argentina, um dos principais exportadores de alimentos do mundo, está em recessão desde 2018 e estima-se que sua economia sofrerá ainda mais este ano devido à pandemia do novo coronavírus, com uma queda estimada de 6,5% no PIB.

- BlackRock -

O fundo BlackRock, um dos principais detentores de dívida argentina, é apontado como o mais intransigente.

"Há muitos grupos de detentores de títulos que começam a indicar que a BlackRock está mais ansiosa por litigar (perante a justiça de Nova York) do que por concordar", disse uma fonte oficial.

Em inadimplência desde 22 de maio, a Argentina busca melhorar sua oferta inicial, rejeitada em 8 de maio e que contemplava três anos de carência e uma redução de 62% nos juros e 5,4% no principal.

O governo propõe uma taxa de recuperação de títulos não superior a 50 dólares por valor nominal de 100 dólares e inclui um "detalhe": um cupom vinculado às exportações agrícolas, segundo fontes próximas às negociações.

"A BlackRock mostrou vontade de negociar, negocia há dois meses, o que não quer é aceitar uma proposta para 50 com cupom de exportação", disse Matías Rajnerman, economista-chefe da Ecolatina.

A ideia do cupom atrelado às exportações também não foi bem recebida pelo setor agrícola do país, já alarmado com o anúncio do governo de expropriar o exportador agrícola Vicentín.

Uma declaração da Mesa de Ligação que reúne a Sociedade Rural Argentina (SRA), Confederações Rurais Argentinas (CRA), Coninagro e a Federação Agrária Argentina (FAA), alertou que a medida geraria um sinal "anti-exportação" e um impacto nas retenções (impostos de exportação para produtos agrícolas).

Em sua negociação, a Argentina conta com o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), com o qual possui uma dívida de 44 bilhões de dólares.

A dívida pública da Argentina totaliza cerca de 324 bilhões de dólares, o equivalente a quase 90% de seu Produto Interno Bruto.

Nesta negociação, existem títulos de 2005 e 2010, produto de uma reestruturação anterior durante os governos de Néstor e Cristina Kirchner (2003-2015), e também novos títulos emitidos a partir de 2016, durante o mandato de Mauricio Macri (2015-2019).

Se os prazos aumentarem, outros títulos serão padronizados. Existem vencimentos esperados para o final de junho, que, contando o período de carência, podem ser estendidos até o final de julho.

Para ativar reivindicações, 25% dos credores devem concordar em ir a tribunal.

Nesse caso, a incerteza aumentará ainda mais, em um país com pobreza de 35% e inflação que atingiu 53% em 2019, uma das mais altas do mundo.