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Apple Watch: mesmo que o relógio seja inteligente, ele não substitui um médico

Fidel Forato

Não só a Apple, mas é tendência entre os fabricantes de relógios inteligentes e wearables anunciar as supostas aplicações médicas destes equipamentos. Mesmo que auxiliem no acompanhamento da saúde de seus pacientes, não são de fato dispositivos médicos — pelo menos, quando o assunto são as tecnologias atuais.

É o que os resultados do Apple Heart Study, publicados no New England Journal of Medicine, mostram. Ainda há um longo caminho para essas tecnologias percorrerem até se tronarem, efetivamente, dispositivos híbridos entre as categorias de lifestyle e saúde.

Por exemplo, é estimado que seis milhões dos norte-americanos (cerca de 2% da população dos EUA) tenham fibrilação atrial (FA), um tipo de batimento cardíaco irregular e, normalmente, muito rápido que aumenta o risco de coágulos, ataques cardíacos e derrames. Do número total, cerca de 700 mil pessoas com essa condição não sabem que a têm. Para a Apple, um dos pontos do seu marketing para os relógios inteligentes é que podem funcionar como um sensor, monitorando o pulso do usuário e, potencialmente, detectando condições como fibrilação atrial e arritmias cardíacas.

Teste de eficiência

Para testar a capacidade de um Apple Watch na ajuda do diagnóstico de FA, um grupo de pesquisadores inscreveu quase 420 mil usuários do relógio em um estudo, patrocinado pela empresa da maçã. E esses participantes tiveram seus resultados e atividades monitorados por cerca de quatro meses. Até o final das avaliações, 2.161 participantes foram notificados com pulso irregular — o que representa um pouco mais de 0,5% da amostra.

Pesquisa questiona capacidade de Apple Watch em detectar AF (Foto: Divulgação/ Apple)

Os identificados com alterações no pulso foram avaliados de forma remota e, se os seus sintomas eram leves, receberam apenas adesivos de eletrocardiograma para usarem por até uma semana. Dessa maneira, os pesquisadores procuravam confirmar o diagnóstico de fibrilação atrial.

Após o uso, os participantes deveriam enviar os adesivos para análise e, se os resultados indicassem algum risco de emergência médica, eles seriam contatados imediatamente. Se os resultados fossem positivos para fibrilação atrial, mas não exigissem atenção médica imediata, os participantes seriam contatados pela segunda vez, de forma remota, e seriam instruídos a consultarem um médico regularmente para acompanharem a condição.

No entanto, apenas 450 das 2.161 pessoas acionadas (que foram notificadas sobre pulso irregular), enviaram seus sensores para avaliação clínica. Em outras palavras, entre os inscritos no estudo que usavam o Apple Watch e receberam um alerta de saúde, só 20% os levou a sério. Quase 80% os ignoraram completamente.

Resultado negativo?

Dos 450 participantes que retornaram seus adesivos de eletrocardiograma, a fibrilação atrial foi confirmada em 34%, o que representa 153 pessoas e abre brechas para um porcentual de falsos positivos. Esse número equivale a cerca de 0,04% do total de voluntários, que era de 420 mil pessoas.

Isso não significa que o dispositivo da Apple falhou. Provavelmente, orientou com sucesso alguns participantes a serem diagnosticados mais cedo do que poderiam — inclusive, antes de um derrame, por exemplo. Mas quanta diferença isso faz na área médica, no entanto, ainda é discutível.

Medidas mais efetivas

Outros métodos para rastreamento e diagnóstico de pessoas com FA estão disponíveis no mercado e podem ser mais efetivos, incluindo medidores de pressão arterial, muito presentes em consultórios médicos, que podem rastrear fibrilação atrial. Por isso, especialistas não têm tanta certeza se a triagem com relógios inteligentes é uma boa ideia para iniciar um tratamento desta condição.

Afinal, se isso fosse, de fato, eficiente, médicos poderiam detectar pessoas assintomáticas, com fibrilação atrial, a partir de eletrocardiogramas. Atualmente, essa medida nem é considerada para adultos com 65 anos ou mais — parcela da população que apresenta maior risco de AVC.

Os cardiologistas destacaram que as evidências eram insuficientes para recomendar sua aplicação, porque não está claro se esse tipo de triagem seria melhor e devesse substituir a medição do pulso em uma clínica.

Também existe a preocupação de que a triagem com eletrocardiogramas possa gerar uma série de falsos positivos, levando a erros de diagnóstico e testes adicionais desnecessários, o que implicaria em mais riscos para os pacientes e até automedicação, em casos extremos.

Questão smartwatch

Na pesquisa da Apple, a maioria dos usuários do Apple Watch, que receberam notificações a partir de seu monitoramento, não apresentavam fibrilação atrial. Além disso, há a questão etária, já que a maior parte destas complicações aparecem em pessoas de idade mais avançada.

Os mais velhos são os pacientes com o maior risco de acidentes vasculares e fibrilação atrial. Para os mais jovens, o maior público desses aparelhos, o risco é bem menor e ainda não está claro, clinicamente, de que forma eles deveriam ser tratados, nem se eles, de fato, precisariam de atenção especial de imediato.

É claro que este estudo foca apenas na FA quando assintomática. Pacientes já diagnosticados e aqueles que manifestam sinais do pulso irregular devem ser tratados pelos médicos, inclusive com medicamentos e até procedimentos específicos, ou seja: a doença diagnosticada e sintomática não deve ser ignorada.

Mesmo assim, há leituras positivas da pesquisa. Ela destaca o potencial para o uso desses dispositivos comerciais no monitoramento e avaliação pessoas fora do ambiente clínico, com quadro já identificado. Além disso, há claramente um desejo dos usuários de que esses relógios inteligentes sejam cada vez melhores e mais capacitados.

Por enquanto, e com base nos resultados, usar um Apple Watch para identificar fibrilação não deve ser sua melhor aplicação, embora haja um número sem fim de razões para colocar no pulso um destes relógios.


Fonte: Canaltech

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