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Apple vs Fornite: Como Steve Jobs fez da empresa uma 'vilã' quase 10 anos após sua morte

Lucas Carvalho
·7 minutos de leitura
Steve Jobs em 2007. Foto: Associated Press / Markus Schreiber
Steve Jobs em 2007. Foto: Associated Press / Markus Schreiber

Quase dez anos após sua morte, Steve Jobs ainda é uma grande influência sobre a Apple. Além do gigantesco campus que a empresa ocupa desde 2017 em Cupertino, Califórnia (EUA), desenhado por ele, e que tem um anfiteatro com seu nome, o visionário cofundador, falecido em 2011, é também responsável pela política interna que colocou a marca no centro de uma polêmica internacional na última semana.

A Epic Games, desenvolvedora do popular jogo online Fornite, declarou guerra à Apple após ter seu jogo barrado na loja de aplicativos do iOS. A decisão, que remonta aos tempos em que Jobs ocupava a cadeira de CEO, também colocou a Maçã em rota de colisão com outros desenvolvedores e transformou a auto-proclamada "salvadora" da indústria em vilã.

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Para entender a novela de 2020, devemos voltar a 2008. Um ano após o lançamento do primeiro iPhone, a Apple criou aquela que seria, para muitos, a chave para o sucesso inquestionável do novo mercado de smartphones: a App Store, uma loja virtual onde usuários poderiam baixar aplicativos feitos por qualquer pessoa para seus celulares.

Foi a criação da App Store – e da sua contraparte no Android, a Play Store, do Google – o que permitiu o desenvolvimento de apps populares que usamos hoje, como o WhatsApp, o iFood, o Uber e toda a economia colaborativa criada a partir desta categoria.

Além de popularizar aplicativos de terceiros, a App Store também se mostrou uma galinha de ovos de ouro para a Apple. A taxa de 30% cobrada em transações virtuais pela loja de apps, como o download de jogos pagos, por exemplo, garantiu, em 2019, US$ 61 bilhões aos cofres da empresa.

Essa taxa que a empresa cobra de desenvolvedores é defendida por Jobs desde os primórdios da App Store. Em uma troca de e-mails interna divulgada por uma investigação do Congresso dos EUA, o ex-CEO explica por que, por exemplo, é impossível comprar ebooks pelo aplicativo do Kindle, da Amazon, no iOS.

Em um e-mail de novembro de 2010, o chefe de marketing da Apple, Phil Schiller, escreveu para Jobs, Eddy Cue (líder de serviços de Internet) e Greg Joswiak (chefe de marketing de produto) sobre como a Amazon estava promovendo o aplicativo do Kindle na época como uma forma de ler livros digitais facilmente em um iPhone.

"É hora de a Amazon decidir se quer usar nosso mecanismo de pagamento ou cair fora [da App Store]", disse Jobs. "Acho que tudo isso é muito simples: o iBooks vai ser a única livraria virtual em dispositivos iOS. Precisamos manter nossas cabeças erguidas. É possível ler livros comprados em outro lugar, mas não comprar/alugar/assinar no iOS sem nos pagar."

A postura irredutível de Jobs permanece até hoje. O que fez a Apple banir Fortnite da App Store foi a decisão da Epic Games de permitir microtransações dentro do jogo sem pagar os 30% que a Apple cobra. O mesmo aconteceu no Android, que levou ao banimento do game também da Google Play Store.

Vale destacar que a Epic fez isso de propósito, como forma de desafiar as gigantes da tecnologia que controlam o ecossistema de aplicativos no mundo mobile. No processo aberto contra a Maçã nos EUA, a empresa de games diz que a marca usa "restrições anticompetitivas e práticas monopolísticas".

Apple é a nova IBM?

Para ilustrar a batalha, a Epic produziu um comercial que, novamente, joga luz sobre a influência de Steve Jobs na Apple de hoje. O vídeo parodia a clássica propaganda de 1984 criada pela Apple para o lançamento do seu primeiro computador pessoal com interface gráfica de uso, o Macintosh.

Desenvolvido pela agência de marketing Chiat\Day e dirigido por Ridley Scott (de Alien e Blade Runner), o comercial original foi exibido no intervalo do Super Bowl de 1984 (final do campeonato de futebol americano, evento assistido por milhões de pessoas no mundo inteiro anualmente).

O vídeo é inspirado no livro "1984", de George Orwell, sobre um futuro distópico em que a sociedade é controlada em todos os seus aspectos por um governo totalitário, forçando os cidadãos a concordar com padrões de vida pré-estabelecidos, despindo a população de qualquer individualismo ou pensamento crítico.

No comercial da Apple, um anúncio do Grande Irmão – o líder simbólico do governo – sobre o dever de conformidade da população é interrompido pela chegada de uma heroína que destrói a tela de transmissão. O texto que corre ao final do vídeo diz que o lançamento do Macintosh seria uma revolução que impediria o ano de 1984 de acabar como o cenário distópico do livro de Orwell.

Steve Jobs, na época do lançamento do comercial, comparou o Grande Irmão à então líder do mercado de computadores pessoais, a IBM, colocando a Apple no papel de heroína que chegava para revolucionar e acabar com o monopólio da gigante. "Parece que a IBM quer tudo. A Apple é vista como a única esperança de oferecer à IBM um desafio", disse o executivo.

Em sua paródia do premiado comercial, a Epic coloca a Apple no papel que um dia foi dado à IBM. "Hoje, comemoramos o aniversário das diretrizes de unificação de plataforma", diz o Grande Irmão da paródia de Fortnite. "Durante anos, eles nos deram suas canções, seu trabalho, seus sonhos. Em troca, recebemos nosso tributo, nossos lucros, nosso controle. Este poder é nosso e somente nosso, e nós devemos prevalecer.”

"A Apple tornou-se o que antes criticava: a gigante que busca controlar os mercados, bloquear a concorrência e reprimir a inovação. A Apple é maior, mais poderosa, mais entrincheirada e mais perniciosa do que os monopolistas de outros tempos", disse a Epic no processo contra a Maçã nos EUA.

Em resposta às provocações da Epic, a Apple disse que a desenvolvedora de Fortnite "concordou com os termos e diretrizes da App Store livremente" durante anos e disse estar feliz "por eles terem construído um negócio tão bem-sucedido na App Store".

"O fato de seus interesses comerciais agora os levarem a pressionar por um acordo especial não muda o fato de que as diretrizes [como a taxa de 30%] criam condições igualitárias para todos os desenvolvedores e tornam a App Store mais segura para todos os usuários", argumenta a Apple.

Seja como for, a Epic – que já provocou outras gigantes, como a Valve, ou não permitir o download de Fortnite pela popular loja de jogos de computador Steam, criando uma loja própria – não está sozinha nas críticas à Apple. Tinder, Facebook e até a Microsoft já acusaram a Maçã publicamente de tentar monopolizar o mercado.

O que Steve Jobs diria de tudo isso? O fundador da Apple sempre teve uma postura protecionista em relação aos negócios da marca, mas certamente se dizia um inimigo de qualquer tipo de monopólio. Em uma entrevista de 1995, quando Jobs comandava a NeXT, anos após ter sido demitido e antes de voltar à Apple, o executivo decretou a "receita do fracasso" para empresas de tecnologia.

Segundo Jobs, a inovação morre em empresas de tecnologia que investem mais em marketing do que em produtos. "Acontece a mesma coisa em empresas de tecnologia que viram monopólios, como a IBM ou a Xerox", disse Jobs. "Quando você detém o monopólio do mercado, a empresa não pode fazer mais sucesso."

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