Mercado fechado

Apesar do que disse Guedes, pesquisas indicam falta de alimentos

***FOTO DE ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.09.2022 - O ministro da Economia, Paulo Guedes. (Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.09.2022 - O ministro da Economia, Paulo Guedes. (Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nesta quarta-feira (21), o ministro da Economia, Paulo Guedes, questionou dados relativos a insegurança alimentar no país ao afirmar que é impossível que o Brasil tenha 33 milhões de pessoas passando fome. O discurso também é encampado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), que disse, em agosto, que não existe "fome para valer" no Brasil.

Ao contrário do que disseram o ministro e o presidente, porém, dados de diferentes fontes mostram que houve aumento na porcentagem de pessoas sem acesso a alimentos suficientes.

A falta de comida se tornou um assunto corriqueiro para os brasileiros, e algumas pesquisas recentes ajudam a quantificar o problema.

33 MILHÕES ESTÃO EM INSEGURANÇA ALIMENTAR GRAVE NO BRASIL, APONTA REDE PENSSAN

Em junho, a segunda edição do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, da Rede Penssan, apontou que 15% dos brasileiros, ou 33 milhões de pessoas, estão em insegurança alimentar grave no Brasil —um patamar semelhante ao que havia sido registrado há três décadas.

Os dados têm como base um questionário com oito perguntas sobre se os alimentos na casa terminaram antes que houvesse dinheiro para comprar mais ou se foi preciso pular alguma refeição por falta de alimentos.

Com base nas respostas, as famílias podem estar em insegurança alimentar leve, moderada ou grave —esta última indica que faltou comida na mesa.

Considerando os três graus de insegurança alimentar, a pesquisa indicou que mais da metade (58,7%) convivem com o risco de não ter comida suficiente.

As estatísticas foram coletadas entre novembro de 2021 e abril de 2022, a partir de entrevistas em 12.745 domicílios, em áreas urbanas e rurais de 577 municípios, distribuídos nos 26 estados e no Distrito Federal.

A Segurança Alimentar e a Insegurança Alimentar foram medidas pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), que também é utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

UM EM CADA TRÊS BRASILEIROS NÃO TEM COMIDA SUFICIENTE, SEGUNDO DATAFOLHA

Além do relatório da Rede Penssan, pesquisa Datafolha feita de forma presencial nos dias 27 e 28 de julho apontou que um em cada três brasileiros afirmava que a quantidade de comida em casa nos últimos meses não foi suficiente para a sua família.

Segundo o levantamento, o percentual de lares com uma quantidade insuficiente de comida subiu de 26% em maio para 33% em julho. Outros 12% dizem que foi mais que suficiente, mesmo percentual nas duas pesquisas. Para 55%, a comida foi o suficiente –queda em relação aos 62% de maio.

61 MILHÕES DE BRASILEIROS CONVIVEM COM INSEGURANÇA ALIMENTAR, APONTA ONU

Um relatório das Nações Unidas de julho também se ocupou do tema e concluiu que, no Brasil, 61,3 milhões (cerca de 3 em cada 10 habitantes) convivem com algum tipo de insegurança alimentar, sendo que 15,4 milhões se encontravam em insegurança, passando fome, no período de 2019 e 2021.

Pelos países com dados comparáveis relacionados pela ONU, o Brasil é o que tem mais pessoas em algum grau de insegurança alimentar (moderada ou grave) nas Américas e o quinto no mundo, no período.

O relatório também aponta um aumento significativo na comparação com o período de 2014 a 2016, quando 37,5 milhões passavam por algum nível de insegurança alimentar e 3,9 milhões enfrentavam o nível grave.

POR QUE AS PESQUISAS NÃO SÃO COMPARÁVEIS

Embora essas pesquisas tratem do mesmo tema, as metodologias são diferentes, o que impede a comparação entre elas.

A pesquisa da Rede Penssan é uma amostra de domicílios usando quatro categorias de gravidade da insegurança alimentar: segurança alimentar, insegurança alimentar leve, insegurança alimentar moderada e insegurança alimentar grave.

Já a do Datafolha é uma amostra com a população brasileira adulta (16 anos ou mais). Outro ponto é que, no Datafolha, a resposta se dá pelo que o entrevistado entende por "falta de comida", em uma única pergunta.

A estimativa da ONU, por sua vez, é baseada na Escala de Experiência de Insegurança Alimentar e considera duas categorias: insegurança alimentar moderada ou grave (combinada) e apenas insegurança alimentar grave.

A FOME NAS ELEIÇÕES

Falta de comida, carestia e queda do poder de compra dos brasileiros se tornaram tópicos importantes na eleição deste ano. Enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca fazer o eleitor puxar pela memória as medidas tomadas durante os governos petistas para aplacar a fome, a campanha de Bolsonaro deve mencionar a pandemia e a Guerra da Ucrânia para justificar a piora de indicadores.

O presidente também tem citado o aumento recente para R$ 600 do Auxílio Brasil —que substituiu o Bolsa Família— como um escudo contra o aumento da fome.

Reportagem da Folha de S.Paulo, no entanto, mostra que a inflação tem corroído o 'efeito-Auxílio', e o aumento, que vale até o fim do ano, ainda não se percebe tão claramente, sobretudo em bolsões de pobreza.

Outra reportagem recente mostrou como o incômodo com o aumento da fome tem mobilizado o governo. Um estudo assinado pelo atual presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Erik Alencar de Figueiredo, contestava pesquisas recentes que apontam o aumento no número de brasileiros em situação de insegurança alimentar ou com fome.

O argumento dele era que o aumento da fome deveria ter resultado em um "choque expressivo" no aumento de internações por doenças decorrentes da fome e da desnutrição, além de um número maior de nascimentos de crianças com baixo peso. A conclusão, no entanto, foi criticada por outros especialistas no tema.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o professor do Insper Sergio Firpo apontou falhas técnicas no estudo e afirmou que faltam dados mais recentes sobre pobreza no Brasil:

"Os números são desanimadores: para todas as linhas de pobreza mais utilizadas, o Brasil estava pior em 2021 do que em qualquer outro momento desde o início da série histórica em 2012. Para a linha de referência do Banco Mundial (próxima a R$ 180 mensais por pessoa), os dados do IBGE mostram que a pobreza subiu de cerca de 6% em 2020 para mais de 9% em 2021.

Dado esse patamar tão elevado da pobreza em 2021, é muito provável que a recuperação do mercado de trabalho e a expansão das transferências estejam já provocando a redução da pobreza neste ano. Mas só saberemos disso com segurança quando os dados estiverem disponíveis. É preciso respeitar o tempo próprio da geração de evidências."

Apesar das medidas do governo tomadas às vésperas da eleição, a alta dos preços continua a afetar a população mais pobre, já que mesmo que gasolina e energia elétrica tenham dado alívio, a inflação do grupo de alimentação e bebidas se aproximou novamente de 15% no acumulado de 12 meses até julho, de acordo com o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).

*

ENTENDA O CASO

Piora da fome

O estudo assinado por Figueiredo contesta o aumento do número de brasileiros em situação de insegurança alimentar

Insegurança alimentar

Essa situação ocorre quando a pessoa não tem plano acesso alimentos em quantidade e qualidade adequados

125,2 milhões de brasileiros

Esse é o número de pessoas com algum grau de insegurança alimentar; um aumento de 60% na comparação com 2018

Fome x internações

O presidente do Ipea conclui que as internações decorrentes de má nutrição deveriam ter aumentado nos últimos anos

Falta comida e falta garantia de alimentação

Para especialistas, a premissa é equivocada; o Brasil vive um aumento na fome e na insegurança alimentar, mas não situação de fome crônica

Efeitos de médio e longo prazo

Os efeitos da falta de alimentação adequada não aparecem rapidamente; eles têm efeito mais visível nas crianças até cinco anos, mas debilitam as pessoas no decorrer de meses e anos