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‘É como um apartheid’, diz ex-defensora pública sobre assassinato de líder quilombola na Bahia

José Izídio Dias, de 89 anos, foi morto com golpes de machado na segunda-feira (25); Em 2017, o número de quilombolas assassinados cresceu 15% e maioria dos casos não são solucionados  (Foto: Luis Henrique Wanderley)

Texto / Nataly Simões | Edição / Pedro Borges 

A violência contra as comunidades quilombolas fez mais uma vítima nesta semana. José Izídio Dias, de 89 anos, foi assassinado com golpes de machado dentro de sua casa na comunidade remanescente do quilombo Rio dos Macacos, em Simões Filho, região metropolitana de Salvador, na Bahia.

Conhecido como “Seu Vermelho”, o idoso era uma das lideranças contra a criminalização e a perseguição sofrida pelos quilombolas da região. A luta em defesa do direito ao território ancestral se intensificou em 2010, quando o governo federal abriu diversas ações judiciais que buscavam a expulsão dos moradores.

A socióloga e ex-ouvidora da Defensoria Pública do Estado da Bahia (DP-BA), Vilma Reis, lembra que o Quilombo Rio dos Macacos convive com o descaso do poder público. Para ela, as circunstâncias que levaram ao assassinato de José Izídio Dias se equiparam ao regime segregacionista ocorrido na África do Sul, conhecido como apartheid.

“O assassinato de ‘Seu Vermelho’ é como uma cena de apartheid em um ambiente onde nenhuma política pública chega. Após a morte dele, as instituições do governo baiano só chegaram a Rio dos Macacos para investigar o crime devido à postura dos militantes que se levantam contra o abandono e chegaram antes”, afirma.

Violência em números

Os dados mais recentes, levantados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), mostram que em 2017 ocorreram 70 assassinatos de quilombolas, 15% a mais do que em 2016. O número é o maior desde 2003, quando 73 pessoas oriundas de comunidades remanescentes de quilombos foram mortas.

Na série histórica de 1985 a 2017, foram contabilizadas 1.904 vítimas. A comissão aponta ainda que somente 113 casos foram julgados, o que corresponde a 8% do total. 

Em comunicado, a Associação do Quilombo de Rio dos Macacos exige que o assassinato do líder quilombola receba a devida atenção do governo. A associação também pede a conclusão do processo de titulação da área de 104,7 hectares.

“Exigimos que o assassinato de ‘Seu Vermelho’ receba todas as respostas institucionais cabíveis, no que se refere ao processo de investigação e de suporte a todos os familiares. Além disso, que o Estado cumpra a sua obrigação, no sentido de finalizar o processo de titulação do nosso território e de garantir as condições mínimas de reparação histórica para que possamos viver com autonomia em nossa terra ancestral”.