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Aparente avanço entre China e EUA apoia alta da bolsa e leve recuo do dólar

Ana Carolina Neira

No mercado de juros, IPCA-15 comportado e comentários de Guedes ajudam a reduzir prêmio de risco de taxas futuras O impasse comercial envolvendo China e Estados Unidos continua ditando o ritmo das bolsas e dos demais mercados financeiros ao redor do mundo. O Ibovespa abriu no campo negativo, mas encontrou espaço para virar e seguir em alta após o presidente da China, Xi Jinping, fazer um discurso conciliador sobre o acordo comercial de primeira fase. Além disso, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o acordo com os chineses está “potencialmente muito próximo”.

Com isso, o Ibovespa subia 0,47% por volta de 14h45, aos 108.006 pontos. Entre as mínimas e as máximas, o índice foi dos 107.157 aos 108.325 pontos.

O mercado brasileiro também é capaz de avançar, segundo analistas, com o suporte de importantes instituições financeiras que reforçaram o potencial da bolsa brasileira durante o pregão de ontem (21). O Ibovespa acumula ganhos de apenas 1,31% na semana, ainda bastante penalizado pela guerra comercial e também pelas instabilidades na América Latina.

Entre as maiores altas do Ibovespa nesta sexta-feira estão Ultrapar ON (2,01%), Vale ON (2,87%) e CVC Brasil ON (2,93%).

Mais cedo, o minério de ferro avançava 1,63% na China, na sétima valorização consecutiva, beneficiando as companhias do setor. Papéis ligados a commodities no geral também são beneficiados pelo suposto avanço nas negociações da disputa comercial, como Gerdau PN (1,40%) e CSN ON (0,42%). O bom momento e o aumento das recomendações para o setor siderúrgico também auxiliam essas empresas.

Quanto à CVC, a operadora de turismo anunciou hoje mudanças na diretoria para fortalecer sua estrutura digital, além de ter recebido autorização para que sua controlada Submarino Viagens finalize a aquisição do grupo Almundo, incluindo as operações da Argentina e do Brasil.

A companhia aérea ainda passa, desde a véspera, por uma recomposição de preços esperada para o ativo, que acumula desvalorizações de mais de 30% no ano e mais de 20% no mês. "O mercado percebeu que tinha batido demais nessa ação após a divulgação do balanço. Agora ficou barato e aproveitam a oportunidade", diz Eduardo Prado, sócio da RJ Investimentos.

Entre as maiores quedas hoje estão Yduqs ON (1,43%) e Cyrela ON (2,14%).

Dólar em leve queda

No mercado de câmbio, as declarações de Trump ajudaram o dólar a se firmar em leve queda nesta sexta-feira, após uma manhã volátil. Por volta de 14h45, moeda americana cedia 0,23%, aos R$ 4,1837.

Como em pregões anteriores, a moeda americana oscilou com viradas bruscas pela manhã, mas sem força para deixar uma banda de negociação. Logo no início do pregão, após abrir em alta marginal, rapidamente caiu aos R$ 4,17, antes de voltar a rondar a estabilidade.

"O dólar rompeu as máximas de agosto e se aproximou dos picos vistos em janeiro de 2016, entre R$ 4,2164 e R$ 4,23. Um recuo vem sendo registrado desde então", dizem analistas grafistas do Société Générale em relatório. O banco francês vê suporte em R$ 4,16 e resistência em R$ 4,25 como os próximos objetivos.

As declarações de Trump tiraram do foco a divulgação de dados da indústria e dos serviços e também da confiança do consumidor nos EUA, que vieram todos positivos. Os dados inclusive deram alguma força à moeda americana lá fora, o que levou as divisas emergentes e ligadas a commodities a operar sem sinal único.

No início da tarde, o dólar avançava 0,08% contra o peso mexicano e 0,27% frente à lira turca, mas cedia 0,67% contra o peso colombiano e 0,13% ante o dólar neozelandês.

Para o Commerzbank, o tom usado pelo presidente da China sugere que não há pressa para assinar o acordo. "No fim das contas, o que vemos é pouco progresso nas negociações, como se ambos os lados estivessem contentes em um novo adiamento da fase 1 do acordo."

Juros futuros em baixa

O mercado de juros voltou a observar um movimento de retirada de prêmio de risco da curva a termo nesta sexta-feira, diante do cenário de inflação ainda em níveis mornos atestado pelo IPCA-15 de novembro abaixo do consenso do mercado. As taxas futuras, assim, abriram em queda, mas chegaram a ganhar força, o que não se sustentou.

Os comentários do presidente dos EUA sobre um potencial acordo comercial com os chineses e a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre juros mais baixos voltaram a jogar as taxas dos contratos futuros para baixo, enquanto o dólar furou o nível de R$ 4,18.

Por volta de 14h45, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 cedia de 4,73% no ajuste de ontem para 4,65%; a do DI para janeiro de 2022 caía de 5,41% para 5,33%; a do contrato para janeiro de 2023 recuava de 5,93% para 5,85%; e a do DI para janeiro de 2025 passava de 6,50% para 6,42%.

“Juro de 17%, 18%, 20% ao ano para quê?”, questionou Guedes em evento no Rio de Janeiro. O ministro foi além e disse que, além ter caído a 5%, a taxa de juros poderia ceder ainda mais. Os comentários vêm no momento em que o mercado discute o ciclo de cortes na Selic para além deste ano e, para isso, acompanha com atenção as expectativas de inflação.

A alta do IPCA-15 de 0,14% em novembro veio ligeiramente abaixo do esperado pelo consenso do mercado, de 0,17%. “Esses números refletem o quão lenta é a recuperação em andamento, o que tem apoiado nossa projeção de mais flexibilização monetária à frente”, dizem os economistas do Citi em relatório. O banco é uma das instituições que esperam que o juro básico encerre 2020 em 4%.

Economista sênior da Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia afirma que “a inflação permanece sob controle”, o que reflete a demanda doméstica ainda em níveis modestos. Para ele, com as expectativas de inflação ainda moderadas e o repasse limitado da depreciação do real, o BC pode reduzir os juros em dezembro, enquanto uma flexibilização adicional “dependerá do desempenho do real e das expectativas de inflação”.