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Real volta a liderar perdas no mundo com ruídos sobre contas públicas

José de Castro
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REUTERS/Lee Jae-Won

Por José de Castro

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar teve altos e baixos nesta quinta-feira, mas ganhou tração ao longo do dia e terminou em alta, com o real mais uma vez na lanterna nos mercados de câmbio. Dados fracos endossaram receios quanto ao risco de criação de novas despesas e de impacto sobre a já fragilizada situação fiscal do Brasil, o que estimulou fluxos para a segurança da moeda norte-americana.

O dólar à vista, cujas operações encerram às 17h, subiu 0,31%, a 5,3881 reais na venda. Na jornada, oscilou entre 5,4127 reais (+0,76%) e 5,3343 reais (-0,70%).

Na B3, em que as negociações de futuros de dólar comercial terminam às 18h30, o contrato de primeiro vencimento tinha ligeira queda de 0,06%, a 5,3880 reais, às 17h22.

O real negociado no mercado spot novamente ficou atrás de seus principais pares. O dólar caía 0,3% ante o peso mexicano, 0,8% contra o rand sul-africano e 0,4% na comparação com a lira turca, por exemplo.

O mercado de câmbio tem refletido nos últimos dias expectativa cada vez maior de que o governo retornará com o auxílio emergencial, o que tem pressionado os preços do dólar.

E nesta semana os ruídos aumentaram depois que o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), disse que não se poderia vincular um novo auxílio emergencial a PECs que poderiam compensar aumento de gastos.

Na quarta, dados decepcionantes do varejo em dezembro fortaleceram expectativas de volta do coronavoucher. E nesta quinta o IBGE informou que o setor de serviços fechou 2020 com queda recorde de 7,8% em 2020, com os números de dezembro vindo piores que o esperado.

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), afirmou mais cedo que a situação exige uma solução "imediata" para o auxílio emergencial e chegou a mencionar a possibilidade de criação no futuro de um programa de distribuição de renda permanente. O presidente Jair Bolsonaro disse que o governo estuda renovar o auxílio emergencial por três ou quatro meses a partir de março.

Em evento online também nesta quinta, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que dados recentes parecem indicar que a retirada do auxílio emergencial está tendo um efeito maior sobre a desaceleração da atividade do que o esperado, mas frisou que a autoridade monetária ainda precisa de mais tempo para analisar o cenário.

Para Fabio Ramos, economista do UBS BB, o novo programa será temporário, mas possivelmente o triplo do tamanho do "Bolsa Família".

"Novas transferências desvinculadas de restrições fiscais podem impulsionar a demanda doméstica... no primeiro trimestre, mas também podem levar a prêmios de risco mais elevados, piora das condições financeiras e, por fim, menor crescimento no primeiro trimestre de 2021 e depois", acrescentou.

O câmbio também sentiu a pressão dos dados fracos desde a véspera à medida que eles aumentaram dúvidas sobre a disposição do BC em subir os juros. Uma taxa Selic mais alta aumentaria os retornos atrelados ao real e, assim, dificultaria operações financiadas na moeda brasileira.

Campos Neto afirmou nesta quinta que parte do mercado se equivocou ao interpretar que alguns diretores do BC já teriam defendido alta da Selic para janeiro, e não março.

Uma elevação do diferencial de juros a favor do Brasil --que ocorreria, no quadro atual, via subida da Selic-- é uma das premissas para a expectativa do BTG Pactual de que o dólar fechará 2021 em 4,90 reais.

"Entendemos que existem riscos tanto baixistas quanto altistas para o câmbio, mas o cenário de maior convergência de interesses entre o Legislativo e o Executivo e a perspectiva de um pacote fiscal americano menor que o anunciado no primeiro momento nos levam a crer que a moeda brasileira seguirá uma tendência de valorização ante o dólar até o final do ano", disseram em relatório Álvaro Frasson, Leonardo Paiva e Luiza Paparounis, da área de pesquisa macro do banco.