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Após tombo na véspera, Bolsa tem recuperação e sobe 7%

***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 28.06.2018 - Investidores lotaram o saguão da B3 (Bolsa de valores) para participar do leilão de 20 lotes de linhas de transmissão. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Bolsa de Valores brasileira teve um pregão de recuperação nesta terça-feira (10), após tombar 12,17% na véspera, a pior queda desde 1998. Nesta sessão, o Ibovespa subiu 7,14%, a 92.214 pontos, na maior alta diária desde janeiro de 2009. A alta foi liderada por Petrobras e Vale.

O real também voltou a ganhar força. A cotação do dólar comercial caiu 1,69%, a R$ 4,6470. O turismo caiu para R$ 4,8980 na venda. No ano, a moeda norte-americana acumula alta de 15,7% ante o real.

Nesta sessão, o Banco Central vendeu US$ 2 bilhões à vista para dar liquidez ao mercado e reduzir a alta da moeda. A instituição voltará aos leilões de swap cambial, contratos que remuneram o investidor pela variação cambial e ajudam a reduzir o preço do dólar, nesta quarta (11) —serão ofertados, entre 09h20 e 09h30, até 20 mil contratos de swap, que totalizam US$ 1 bilhão.

"Ontem [segunda] foi totalmente atípico, porque muitos fundos são obrigados a seguir a política de risco e se desfazem de ações a qualquer custo, mas hoje já refizeram posição. Agora, a pessoa física também está mais consciente, muitos voltaram a comprar hoje [terça]", afirmou Rodrigo Moliterno, chefe de renda variável da Veedha, corretora ligada à XP. Dentro da política de risco, um fundo é obrigado a vender ações caso a queda do Ibovespa atinja determinado patamar, de modo a proteger seus investidores. Segundo Moliterno, este patamar é em torno de 7% a 10% de desvalorização do índice.

Após as fortes quedas, investidores aproveitaram a sessão para ajustar as carteiras, otimistas com estímulos econômicos nos Estados Unidos. O presidente Donald Trump afirmou na véspera que trabalha com a possibilidade de cortar impostos sobre os salários para apoiar a economia diante do surto de coronavírus.

Nesta terça, Trump se reuniu com senadores republicanos para discutir a medida. Segundo agências de notícias, o presidente norte-americano considera duas opções: reduzir os impostos até novembro, época das eleições presidenciais, ou fazer um corte permanente nas taxas.

Um corte nos impostos sobre a folha de pagamento pode incentivar os gastos dos consumidores e auxiliar as famílias que, de outra forma, poderiam ter dificuldades em quitar, pontualmente, pagamentos de aluguel e hipotecas ou pagar contas médicas caso o horário de trabalho dos membros da família sejam reduzidos durante o surto do coronavírus.

Com a iniciativa de Trump, as Bolsas americanas tiveram fortes altas: Dow Jones, S&P 500, e Nasdaq subiram 4,89%, 4,94% e 4,95% cada uma, respectivamente.

O contrário aconteceu na Europa. Segundo a Reuters, a chanceler alemã, Angela Merkel, não acredita que seu país precise de plano de estímulo econômico no momento para conter os efeitos econômicos do coronavírus, e sim, injeção de liquidez. Ainda segundo a agência de notícias, Merkel afirmou que todos os eventos e atividades que não são essenciais na Alemanha deveriam ser cancelados para conter a doença.

Após a divulgação do parecer da líder da maior economia da Europa, índices acionários inverteram o movimento de recuperação e fecharam em queda. O índice Stoxx 50, que reúne as principais empresas europeias, caiu 1,66%. A Bolsa de Paris caiu 1,51% e a de Frankfurt, 1,41%. Londres fechou com leve queda de 0,09%.

Com o aumento de casos do coronavírus, Espanha e Itália tiveram quedas mais expressivas: 3,2% e 3,3%, respectivamente.

No Brasil, o otimismo americano deu suporte a recuperação do Ibovespa, que apagou mais da metade das quedas da véspera, quando o circuit breaker foi acionado com queda superior a 10% na abertura do pregão.

Também contribuiu a alta no preço do barril de petróleo. O contrato futuro do tipo Brent sobe 10%, a US$ 37,87, após tombar 24% na segunda.

A Petrobras, que teve a maior queda da Bolsa na véspera e sua pior desvalorização diária da história, perdendo R$ 91 bilhões em valor de mercado, apagou parte da queda. As ações preferenciais (mais negociadas) subiram 8,51%, a R$ 18,36. As ordinárias (com direito a voto), 9,41%, a R$ 17,56.

Já a Vale superou o tombo de 15% da véspera, com alta de 18,45% nesta terça, a R$ 44,81, a segunda maior valorização do Ibovespa, atrás apenas de Via Varejo que disparou 21,29% após cair 17% no pregão anterior.

Nesta terça, foram divulgados os dados da indústria brasileira em janeiro. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), após dois meses de queda, a produção industrial brasileira cresceu 0,9% em janeiro, na comparação com o mês anterior. No acumulado de 12 meses, porém, a indústria mantém uma queda de 1%.

"A divulgação, em si, foi positiva, mas ainda não permite maior otimismo com a atividade econômica no trimestre por dois motivos: trata-se praticamente de uma devolução do desempenho ruim de dezembro, e indicadores prévios relativos a fevereiro sinalizam nova retração da produção industrial", diz Felipe Sichel, estrategista do Modalmais, em relatório.

Na comparação com janeiro de 2019, a produção industrial registrou queda de 0,9%, disse o instituto. Foi a terceira perda seguida nesta base de comparação.

De acordo com o IBGE, a alta de 0,9% em janeiro é o melhor desempenho do setor para o mês desde 2017 e teve grande influência da categoria de bens de capital, com alta de 12,6% em relação ao mês anterior.

"Por mais positivo seja o dado, ao observar a média móvel de três meses, verificamos que o setor continua estagnado, não respondendo da forma esperada aos cortes de juros implementados desde 2016. O avanço mais significativo do setor só será atingido com, por exemplo, a reforma tributária, que, ao romper com a estrutura vertical de nosso sistema tributário, desonera o setor e cria uma maior disponibilidade de recursos para investir, contratar e elevar salários", afirma a Guide Investimentos, em relatório.​

DESVALORIZAÇÃO DO REAL

Apesar da recuperação da moeda brasileira nesta terça, o real é a divisa que mais se desvaloriza no mundo em 2020. Ela está empatada com o peso uruguaio, que também perde 15,76% do seu valor ante o dólar no ano. O peso colombiano vem em terceiro lugar, com perda de 15,5%.

A desvalorização de moedas emergentes reflete uma maior aversão a risco dos mercados globais, que monitoram os impactos econômicos do coronavírus, a desaceleração da economia global e a recente disputa pelos preços do petróleo entre Rússia e Arábia Saudita, que derrubou cotações.

No Brasil, a Selic na mínima histórica também contribui para o dólar elevado por meio do carry trade, prática de investimento em que o ganho está na diferença do câmbio e do juros. Nela, o investidor toma dinheiro a uma taxa de juros menor em um país, no caso, os EUA, para aplicá-lo em outro, com outra moeda, onde o juro é maior, o Brasil. Com a Selic a 4,25%, essa operação deixa de ser vantajosa e estrangeiros retiram seus recursos, em dólar, do país, o que eleva a cotação.

O mercado precifica um novo corte de juros na próxima reunião de política monetária do BC, em 18 de março. Segundo os contratos futuros de juros, há mais chances e um corte de 0,25 ponto percentual do que de 0,5 ponto percentual. Muitos analistas apontam que, pelo efeito cambial, seria prudente o BC não cortar juros já que o dólar alto encarece produtos importados, o que pode gerar uma inflação acima da meta prevista pelo BC. Para controlar a elevação de preços, a autarquia teria que, rapidamente, voltar a subir juros, um movimento prejudicial ao mercado.