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Após sinais da ata do Copom, juros futuros fecham em alta

Victor Rezende e Lucas Hirata

Segundo o Comitê de Política Monetária do Banco Central, a Selic tem espaço para cair mais um pouco nos próximos meses, mas não deve atravessar a fronteira dos 4% O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central parece ter traçado um limite claro para a extensão do ciclo de corte de juros no Brasil. A taxa básica de juros, a Selic, tem espaço para cair mais um pouco nos próximos meses, mas não deve atravessar a fronteira dos 4%. A cautela sinalizada pelo Copom, tanto no comunicado divulgado após o encontro quanto na ata da reunião, divulgada nesta terça-feira (5), forçou o mercado a corrigir apostas de que a Selic pode cair a níveis muito mais baixos do que os atuais 5%.

Um dos casos mais notáveis, a Itaú Asset Management, gestora de fundos de investimento do Itaú Unibanco, revisou suas projeções para a Selic e já não vê a taxa básica escorregando para a casa dos 3% no fim de 2020. A projeção da asset para o fim de 2019 foi de 4% para 4,50% e passou de 3,75% para 4,25%, no próximo ano.

A percepção sobre o rumo da Selic também se estendeu, ainda, para a curva futura de juros. As taxas sofreram ajustes expressivos na manhã desta terça, mas se acomodaram ao longo do dia. No fim da sessão regular, às 16h, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou estável a 4,49%; a do DI para janeiro de 2023 subiu de 5,42% para 5,45%, após tocar máxima a 5,55%, e a do DI para janeiro de 2025 avançou de 5,99% para 6,01%, após atingir 6,10% no pico do dia.

“O Copom claramente quis delimitar as expectativas do mercado para a taxa de juros, que provavelmente seriam direcionadas para a região de 3%”, afirmou o economista-chefe do UBS Brasil, Tony Volpon. Para ele, a menos que haja uma grande falha nas projeções de inflação do BC, o nível terminal da Selic para essa parte do ciclo parece ser de 4,50% ou, se o desempenho da inflação continuar a ficar abaixo da previsão do BC, de 4,25%.

Esse parece ser o cenário principal, ao menos por enquanto. Cálculos da Renascença apontam que as taxas de inflação implícita, medidas a partir do futuro de cupom de IPCA (DAP), estão em 3,27% neste ano e em 3,67% em 2020. Já a pesquisa Focus desta semana indica que o ponto médio das estimativas do mercado está em 3,29% em 2019 e 3,60% em 2020. Vale lembrar que a meta de inflação do próximo ano será de 4%.

“O BC deixa dúvidas quanto à continuidade do ciclo, mas isso não quer dizer que cortes adicionais não possam acontecer”, pontuou o economista-chefe do Haitong, Flavio Serrano. “A incerteza que compartilho com o Copom é a de ver, depois de tantas reduções na Selic, como a economia irá reagir a níveis de juros sem precedentes”, diz, ressaltando que o cenário de inflação continua “muito favorável”.

Avaliação semelhante têm os economistas do Bradesco, para quem “o cenário de inflação bastante benigno não permite descartar continuidade do ciclo [além de dezembro], ainda que em menor intensidade”. Já os economistas Leonardo Fonseca e Lucas Vilela, do Credit Suisse, afirmam que, se o balanço de riscos para a inflação evoluir mais favoravelmente do que o esperado, “o BC poderá continuar com o ciclo de flexibilização, mas isso provavelmente seria limitado a um ou dois cortes adicionais de 0,25 ponto percentual na Selic em 2020”.

Ao menos por enquanto, Bradesco e Credit Suisse continuam a projetar que a taxa básica cairá para 4,50% no fim deste ano e se manterá nesse nível até o fim de 2020. Já os economistas Cassiana Fernandez e Vinicius Moreira, do J.P.Morgan, notam que as projeções de inflação “continuam deixando as portas abertas para ajustes adicionais de 0,25 ponto não apenas em fevereiro, mas, também, além dessa reunião”.

O J.P., contudo, não deixa de ressaltar que o tom adotado recentemente pelo BC e a possibilidade de uma aceleração mais forte da atividade podem reduzir a possibilidade de novos cortes em 2020.

Sócio da Monte Bravo Investimentos, Rodrigo Franchini lembra que o Copom tende a ser mais conservador, independentemente do governo e de sua composição, e, por isso, buscou frear, já no comunicado, apostas mais ousadas quanto ao ciclo de cortes atual. “Ver o juro a 4% ou abaixo seria algo extremamente arrojado para um comitê conservador como o nosso”, disse. Para Franchini, o BC deixa “bem claro” que espera alguma aceleração da atividade econômica e cita até mesmo a liberação dos saques do FGTS. “Não era o que o mercado queria ouvir, por isso houve uma abertura das curvas de juros hoje. O mercado ficou decepcionado.”