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Após críticas, Ministério da Saúde retira do ar aplicativo que indicava remédios sem eficácia contra Covid

NATÁLIA CANCIAN
·3 minuto de leitura
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 07.01.2021 - O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante coletiva de imprensa para falar sobre a chegada da vacina contra a Covid-19 no Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 07.01.2021 - O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante coletiva de imprensa para falar sobre a chegada da vacina contra a Covid-19 no Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Ministério da Saúde retirou do ar nesta quinta-feira (21) um aplicativo indicado a profissionais de saúde e que recomendava remédios sem eficácia contra a Covid, como a cloroquina. A justificativa da pasta para a retirada é que o sistema havia sido ativado "indevidamente".

A partir do preenchimento de um formulário eletrônico com os sintomas do paciente, o aplicativo TrateCOV sugeria a prescrição de medicamentos como hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina e doxiciclina em qualquer idade, inclusive para bebês, e em situações diversas, não só para Covid-19. Estudos, no entanto, já descartaram que o remédio tenha eficácia contra a doença.

A medida gerou reação de entidades médicas, inclusive de algumas que até então vinham adotando posições mais alinhadas ao governo ou evitando manifestações sobre o tema.

Em nota divulgada nesta quarta (21), o Conselho Federal de Medicina disse que alertou ao Ministério da Saúde sobre "inconsistências" na ferramenta e pediu que fosse retirada do ar. A posição ocorreu após análise feita por conselheiros e assessores técnicos e jurídicos.

No último ano, o conselho emitiu um parecer que autorizava a prescrição de cloroquina em alguns casos, embora citasse não haver comprovação de eficácia. Já nesta quarta, o conselho afirma na nota que o TrateCov "assegura a validação científica a drogas que não contam com esse reconhecimento internacional".

Aponta ainda outras inconsistências, como não preservar o sigilo de informações, permitir o preenchimento por profissionais não médicos e induzir à automedicação e à "interferência na autonomia dos médicos".

A plataforma já não podia mais ser acessada nesta quinta (21). No lugar do endereço original, aparece a mensagem de que o formulário já não está mais ativo.

Questionado, o ministério disse, em nota, que a plataforma foi lançada como um projeto-piloto "e não estava funcionando oficialmente, apenas como um simulador".

"No entanto, o sistema foi invadido e ativado indevidamente, o que provocou a retirada do ar, que será momentânea", disse. A pasta, porém, não deu prazo, nem informou quais seriam as possíveis alterações no modelo.

Apesar de dizer que havia sido ativada indevidamente, a ferramenta havia sido lançada pelo próprio ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante evento em Manaus, e citada em informativos da pasta em 13 de janeiro.

Segundo o ministério, a medida tinha como objetivo "auxiliar os profissionais de saúde na coleta de sintomas e sinais de pacientes visando aprimorar e agilizar os diagnósticos da Covid-19".

"Funciona assim: a plataforma traz ao médico cadastrado um ponto a ponto da doença, guiado por rigorosos critérios clínicos, que ajudam a diagnosticar os pacientes com mais rapidez. Depois disso, o TrateCOV sugere algumas opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada, sugerindo a prescrição de medicamentos", dizia informativo divulgado na época.

Embora cite que a missão é "auxiliar", a plataforma, além de indicar remédios sem comprovação, exigia que médicos dessem justificativa caso não indicassem os remédios. Até a data de lançamento, 342 profissionais haviam sido habilitados para uso da ferramenta, segundo o ministério.

Em nota divulgada na terça, a Associação Médica Brasileira e a Sociedade Brasileira de Infectologia alertaram que as evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no tratamento precoce.

"Pesquisas clínicas com medicações antigas indicadas para outras doenças e novos medicamentos estão em andamento. Atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)", disse em nota.