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Após apagão no Amapá, moradores investem em sistemas de geração de energia solar com baterias

Stephanie Tondo
·6 minuto de leitura
Foto: Fotoarena / Agência O Globo

O apagão que deixou o estado do Amapá, na Região Norte do país, no escuro durante 22 dias fez com que muitos brasileiros descobrissem uma alternativa ao sistema elétrico nacional: o poder de gerar e armazenar a própria energia. São os chamados sistemas off-grid, que funcionam por meio de baterias ligadas a sistemas fotovoltaicos residenciais, por exemplo. Nos últimos dez anos, o preço da bateria de lítio, que é uma das mais utilizadas, ficou em média 88% mais baixo, e poderá cair mais 50% nos próximos anos, segundo projeções divulgadas pela consultoria Greener na última semana. Com isso, o mercado espera que essa alternativa se torne cada vez mais comum nos lares brasileiros, principalmente em locais onde as redes elétricas não costumam chegar.

Gerente da Cristal Energia Solar, em Macapá, no Amapá, Carlito Saraiva do Monte conta que a procura pelos kits de painéis solares com baterias praticamente triplicou nas últimas semanas.

— Muitos dos nossos clientes já tinham até os painéis, mas não sabiam que havia a possibilidade de armazenar a energia com a bateria. Durante o apagão, ligamos para eles e oferecemos a instalação. Agora, passamos a vender o kit completo dos painéis com as baterias — afirma.

A empresa montou dois kits: um com três painéis solares e uma bateria, que sai por R$ 11.900, e um com quatro painéis e quatro baterias, que custa R$ 17.900.

Durante os dias em que a região ficou sem luz, a casa de Carlito era a única do bairro com energia elétrica.

— Toda noite iam 12, 15 pessoas lá para a casa ver televisão, assistir a jogos de futebol — ri.

Moradora de Macapá, Mônica Melo se considera uma “sortuda”. Ela havia instalado o kit fotovoltaico com baterias dois meses antes do apagão.

— O investimento vale muito a pena. As concessionárias cobram um preço altíssimo pela luz, e poder gerar a própria energia, controlar o seu consumo e saber que não está sendo roubado, para mim é muito bom. Além disso, as baterias são silenciosas, não são como um gerador, que faz muito barulho. Meus vizinhos ficaram tentados a investir também, e alguns já estão até fazendo orçamentos.

Diretor-executivo da consultoria NewCharge Energy, Markus Vlasits afirmou em evento promovido pela Greener na última segunda-feira que o papel do consumidor no mercado de energia elétrica está mudando:

— Nos últimos anos, graças ao crescimento da geração distribuída, o consumidor passou de figura passiva a um papel muito mais ativo. E o armazenamento entra como tecnologia âncora para proporcionar a autonomia que o fotovoltaico não entrega na totalidade.

Vlasits acrescenta ainda que o Brasil tem em média 14 horas por ano de interrupção de energia, sendo que na Alemanha são apenas 7 minutos por ano.

Marcos Aurélio Madureira, presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), alega que, em média, o Brasil tem 8 a 12 horas por ano sem luz.

— Isso significa que em 99,85% das horas os consumidores tiveram fornecimento de energia — diz.

No entanto, em alguns lugares do país, a situação é bem diferente. Carlito conta que no interior do Amapá é comum que comunidades fiquem semanas sem luz com frequência. Do outro lado do Rio Amazonas, próximo de onde Carlito mora, fica a Ilha de Marajó, onde o único sistema elétrico é o off-grid.

— Aqui a gente é esquecido pelo resto do Brasil. A energia é muito ruim, é comum a gente ficar 12 horas sem luz, 6 horas sem luz. Quando o pessoal instala os painéis solares, a primeira coisa que fazem é conectar à internet. As pessoas mais pobres compram o kit de três placas com duas baterias, porque dá para bomba d’água, despolpadeira de açaí, freezer, televisão, internet, e quatro bicos de luz. Isso é o principal — conta Carlito.

Presidente-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia afirma que, apesar dos avanços no mercado de baterias e da redução significativa no custo desses equipamentos no mundo, o Brasil ainda está “bastante atrasado” no uso dessa tecnologia:

— A Absolar está estruturando um estudo estratégico para mapear as oportunidades de aprimoramento regulatório, tributário, legal e normativo, para melhorar as bases no Brasil, o ambiente de negócios e mercado, para que consiga ter um papel mais protagonista no armazenamento de energia elétrica, como se observa hoje em países como Estados Unidos, além de Alemanha, Austrália, Japão.

Segundo ele, entre os aspectos que dificultam o crescimento desse mercado estão a carga tributária, que chega a quase 80% do custo das baterias.

— Os consumidores que buscam a energia solar querem reduzir custos e ter mais autonomia, opção de escolha e liberdade energética. A questão é que hoje essa escolha tem um preço, por conta dos impostos — diz.

Ainda assim, muitas empresas, prédios públicos e produtores rurais têm substituído os geradores a diesel pelas baterias integradas aos painéis solares:

— Esse tipo de aplicação só está se tornando possível por causa da redução de preços das baterias.

Como as baterias ainda são uma opção mais cara, a forma mais utilizada de energia solar no país é através da geração distribuída, isto é, o cidadão usa a energia gerada durante o dia e lança o excedente no Sistema Interligado Nacional (SIN), que é utilizado pelas concessionárias de energia. Para usar a rede elétrica, esses consurmidores pagam a tarifa mínima da conta de luz mais a taxa de iluminação pública.

A Absolar tem observado um volume crescente de reclamações sobre o descumprimento de diretrizes regulatórias de prazos e etapas de conexão às redes de energia elétrica por parte das distribuidoras.

— Pela nossa perspectiva, a energia solar é uma solução democrática, e uma oportunidade de mercado também democrática. Empresas tradicionais e novas são muito bem vindas. Mas as regras precisam ser seguidas. E o cumprimento dos prazos é fundamental para uma operação saudável dentro do mercado, por critérios de competitividade. Não se pode deixar com que essas irregularidades persistam no mercado e no setor — afirma Rodrigo Sauaia.

Para Marcos Aurélio Madureira, presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), os problemas são pontuais.

— A geração distribuída é algo novo dentro do sistema elétrico, e isso traz problemas técnicos. Em 2018, a gente tinha cerca de 600 GW de energia solar instalada em geração distribuída. Estamos em 2020 com mais de 4.100 GW . Não faz sentido dizer que as distribuidoras estão dificultando — diz Madureira, acrescentando que o valor pago hoje pelo uso da rede não compensa os gastos da distribuidora: — O que mais encarece a conta de luz hoje são os subsídios, incluindo para a geração distribuída, mas também produtores rurais, empresas de saneamento e iluminação pública, além dos furtos de energia.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) chegou a propor em 2019 a revisão da Resolução Normativa 482 de 2012, que cria estímulos à geração distribuída no país. A medida gerou polêmica e, na ocasião, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que não iria "taxar o sol".

Madureira argumenta que o custo da desoneração para os consumidores com geração distribuída recai hoje sobre os demais, principalmente os mais pobres, que não podem pagar pela instalação de painéis fotovoltaicos.

A Aneel foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou.