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Ao aceitar candidatura, Trump ataca 'socialista' Biden e se vangloria de ser outsider que derrotou a velha política

André Duchiade
·5 minutos de leitura

Em um palco montado no gramado da Casa Branca, onde se aglomeraram mais de mil pessoas — quase todas sem máscara —, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez o discurso de encerramento da Convenção Nacional Republicana na noite desta quinta-feira se apresentando como um forasteiro do sistema político, que jogou fora das regras convencionais de Washington e as derrotou.

Na apoteose do evento, no qual Trump aceitou formalmente a candidatura, o centro da mensagem não esteve em torno de promessas de campanha ou de uma agenda para um próximo mandato, mas na exaltação da personalidade do presidente, descrito como o salvador dos Estados Unidos, e em ataques contra os democratas, retratados como extremistas irresponsáveis:

— Não fiz nada além de lutar por vocês. Fiz o que nosso establishment político nunca esperava e nunca poderia perdoar, quebrando a regra cardeal da política de Washington: eu mantive minhas promessas — afirmou Trump, em discurso de mais de uma hora. — Esta é a eleição mais importante da História do nosso país. Nunca antes os eleitores enfrentaram uma escolha mais clara entre dois partidos, duas visões, duas filosofias ou duas agendas. Esta eleição decidirá se salvamos o sonho americano ou se permitimos que uma agenda socialista destrua nosso querido destino.

Trump afirmou que o Partido Democrata está aparelhado por socialistas, contrários à polícia e favoráveis ao crime, à desordem, ao assassinato de bebês e à China. Joe Biden, um político centrista, foi chamado de "o cavalo de Troia do socialismo", e o Partido Democrata foi apresentado como inimigo do modo de vida americano. Mesmo após moldar o Partido Republicano à sua imagem e semelhança, Trump fez um contraste com Biden, que tem uma longa carreira de 47 anos no Congresso:

— O histórico de Biden é uma lista vergonhosa das traições e erros mais catastróficos de nossa vida. Ele passou toda a sua carreira do lado errado da História — disse Trump.

O próprio cenário do evento foi controverso, por se tratar de um prédio público, financiado por dinheiro de contribuintes, sendo usado para um ato de campanha, o que muitos consideram ilegal. Washington D.C. também proibiu reuniões de mais de 50 pessoas, mas, como a Casa Branca é um território federal, a convenção pôde acontecer. Segundo o New York Times, só as pessoas sentadas nas primeiras fileiras fizeram testes para Covid-19. O evento contrastou com o discurso de aceitação de Biden na semana passada, que foi transmitido ao vivo de uma arena praticamente vazia por causa da doença.

A noite deu uma grande atenção para os oradores negros, de modo a tentar aumentar o apelo de Trump neste eleitorado, após receber só 8% do voto negro em 2016. Nos primeiros 30 minutos, duas mulheres negras já tinham discursado. Trump afirmou que foi o presidente americano "que mais fez pelos afro-americanos desde Lincoln" — responsável pela abolição da escravidão.

O tema da lei e da ordem, em extrema evidência depois de meses de protesto, voltou a ter destaque, e Trump mentiu dizendo que o Partido Democrata não condena protestos violentos. Se os democratas vencerem, disse o presidente, " violentos agitadores anárquicos e criminosos que ameaçam nossos cidadãos" terão "rédea solta". Os opositores, ele afirmou, "irão demolir os subúrbios e confiscar suas armas".

— Não se engane, se você der o poder a Joe Biden, a esquerda radical vai acabar com os departamentos de polícia de todos os EUA — disse Trump.

Conforme a noite se desenrolava, Biden revidou no Twitter, escrevendo: "Quando Donald Trump diz que hoje à noite você não estará seguro nos Estados Unidos de Joe Biden, olhe ao redor e pergunte-se: Quão seguro você se sente na América de Donald Trump?"

Trump insistiu muito que os democratas pretendem aumentar impostos, e que, se reeleito, irá reduzi-los. Ele afirmou que o seu governo imporia tarifas a qualquer empresa que deixasse os Estados Unidos para criar empregos em outro lugar. Trump se apresentou como disposto a desafiar a China no comércio.

Sobre o coronavírus, a despeito do recorde mundial de mais de 180 mil mortes nos Estados Unidos e de ter frequentemente minimizado a pandemia, Trump disse que o governo está "se concentrando na ciência, nos fatos e nos dados”. Ele prometeu que uma vacina contra o vírus seria desenvolvida até o final deste ano, e "talvez antes".

— Teremos uma vacina segura e eficaz este ano e, juntos, destruiremos o vírus — disse o presidente, que já disse algumas vezes que o vírus "desapareceria" de uma hora para outra.

Ignorando sua própria história conturbada de má conduta sexual, Trump fez uma insinuação maliciosa contra Biden, e disse que, ao longo de sua carreira, o ex-vice-presidente “recebia as doações de operários, dava-lhes abraços e até beijos”. Neste ponto, ele parou para escutar as risadas dos presentes.

Antes da fala do presidente, boa parte do programa foi dedicada a exaltar Trump como uma figura simpática e solidária, que acredita no americano comum e no valor do trabalho, frente a adversários divisivos — uma apropriação da mensagem de campanha democrata, que faz a mesma acusação contra o presidente.

Logo antes do presidente, discursou sua filha Ivanka, que disse que as mensagens no Twitter do pai são "pouco filtradas", mas também exaltou o fato de ele ter supostamente derrotado o establishment político e "mudado Washington".

Ao longo das quatro noites, nenhum outro candidato presidencial republicano do passado discursou, o que é altamente incomum. Em vez disso, falaram aliados do presidente, como o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, que afirmou que Nova York, que hoje tem um prefeito democrata, está sofrendo com níveis de criminalidade nunca antes vistos — uma informação falsa, pois espera-se que a cidade vá ter 375 homicídios em 2020, em comparação com 649 em 2001, seu último ano como prefeito.

Ao término da convenção, Trump e seus familiares e aliados posaram para uma foto de família, enquanto fogos de artifício explodiam ao fundo da Casa Branca, e manifestantes anti-Trump do lado de fora exibiam uma faixa que lembrava: "180 mil mortos".