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Anvisa liberou a maconha? Quais as ligações entre cannabis, ciência e Brasil?

Fidel Forato

Cannabis, maconha, erva, marijuana, cânhamo, ganja... todas estas são denominações para a controversa, polêmica — e em muitos lugares, proibida — planta, cultivada há milênios na Ásia e conhecida por seus efeitos psicoativos. Mesmo milenar, do ponto de vista científico, ainda não está claro se a Cannabis possui benefícios para o corpo humano, nem se a maconha pode provocar dependência química ou efeitos negativos em longo prazo. Tudo porque sua pesquisa nunca foi permitida.

No entanto, o mundo tem vivido uma reviravolta nesse sentido, pelo menos nos últimos 10 anos. Vários estados americanos permitem alguma forma de seu consumo, como Massachusetts e Califórnia, o que tem levantado uma onda de cientistas e pesquisas, de olho, principalmente, no seu aspecto medicinal. Essas águas já chegaram ao Brasil que aprovou, hoje (3), a venda de produtos à base de cannabis em farmácias. A polêmica sobre a verdinha já chegou até na NFL — liga esportiva profissional de futebol americano.

Entenda o que está acontecendo com a planta e as condições que passarão por aprovação da Agência!

Onda de novos estudos deve revolucionar como a ciência entende a maconha

Entenda os compostos da Maconha

À medida que mais regiões do mundo legalizam o uso recreativo e/ou medicinal da maconha, ela começa a ser entendida do ponto de vista clínico. Novos estudos conduzidos para a geração de medicamentos com potencial terapêutico para uma infinidade de doenças passam a ser desenvolvidos. Até agora, o grande desafio é entender como funcionam seus compostos e de que forma podem ser combinados para produzir seus efeitos, que vão desde funções anestésicas até psicoativas.

Entre os componentes mais conhecidos da erva, estão o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC), ambos canabinoides, ou seja: eles são exclusivos da planta e se ligam a receptores do corpo humano, especificamente os CB1 e CB2. Com ambos gerando sensações anestésicas e terapêuticas, uma das principais diferenças entre o CBD e o THC é a capacidade de reações psicoativas.

Por isso mesmo, a oferta no mercado de compostos à base de cannabis varia de acordo com a legislação local, mas regula, principalmente, a proporção de THC, que costuma ser mais limitada, por ser um psicotrópico neurodepressor de ação rápida. Em contrapartida, os limites nas proporções de CBD são mais raros.

As proporções desses canabinoides também podem variar e modificar, inclusive, os efeitos da planta pura, por isso mesmo as reações da cannabis mudam em cada rodada de consumo. Outros estudos apontam que a absorção se altera, dependendo do período do dia em que é consumida ou do humor do usuário. Agora, com a cannabis ganhando o status de remédio, os pesquisadores finalmente conseguirão incluir dados concretos e já estão começando a entender como o CBD pode modular os efeitos frequentemente indesejados do THC.

Adie Wilson-Poe, pesquisador da substância para o tratamento de dores na Universidade de Washington, pensa na cannabis (como planta) “como um multivitamínico para a inflamação.” Pesquisas também descobriram que, ao se aplicar THC e CBD a células cancerígenas em laboratório, a combinação inibe o crescimento de tumores, neutralizando sua progressão e levando a lesão à morte.

Mesmo assim, um dos tratamentos mais famosos do THC, por exemplo, é redução da pressão ocular para tratamento de glaucoma. Dessa maneira, o futuro da maconha medicinal depende, em grande parte, da quebra do efeito em conjunto das substâncias, principalmente dos usos do THC e do CBD sozinhos.

"Precisamos entender quais composições são mais adequadas para quais indicações e quais tipos de pacientes", defende Wilson-Poe. "Portanto, entender esses mecanismos é absolutamente crucial para fornecer a esses pacientes remédios personalizados que aliviam seus sintomas sem produzir os efeitos colaterais indesejados."

O CBD no esporte americano

Não psicótico e nem viciante, o CDB é uma poderosa ferramenta que pode controlar a dor, principalmente, quando usado como extrato de canabidiol. Apostando nas capacidades analgésicas e na capacidade de aliviar inflamações crônicas da substância, muitos atletas profissionais dos Estados Unidos confirmam que fazem uso.

É o caso do ex-jogador profissional de hóquei, Riley Cote. Aposentado, Cote sofria com dores crônicas e, desde 2013, utiliza o CBD duas vezes ao dia, que segundo ele "tem sido um divisor de águas, com certeza" na sua vida. E o jogador não está sozinho na área dos esportes: há um número significativo de jogadores aposentados da NFL que usam o óleo — mas aqueles que estão na ativa ainda são silenciados no tema, pelo risco de sanções comerciais.

Esse temor é controverso, mas existe, mesmo que, em 2017, a Agência Mundial Antidopagem (WADA) tenha removido o CBD de sua lista de substâncias proibidas. Neste ano, a Associação Nacional de Jogadores da Liga de Futebol Americano firmou uma parceria com a NFL para estudar maconha e CBD como alternativas a outras terapias para o tratamento de dores. Uma medida surpreendente vinda de uma instituição que, por anos, marginalizou as potencialidades do medicamento.

Atualmente, na NFL, os jogadores pegos nos exames podem perder jogos ou até mesmo serem banidos do esporte. Por enquanto, somente a Liga Nacional de Hóquei parou de penalizar os jogadores que testam positivo para a maconha.

A ciência começa a investigar de maneira efetiva como compostos da cannabis afetam o sistema nervoso

Desafios da regulamentação

Os componentes da maconha são usados em tratamentos para saúde mental, como epilepsia, autismo e crises de ansiedade, mas ainda não existem estudos que confirmem seus resultados. No entanto, cientistas acreditam que o CBD, de fato, pode auxiliar nesses tratamentos, além do alívio de dores e inflamações crônicas, mas como funcionam exatamente e quais são as doses adequadas ou os melhores métodos de administração continuam sendo investigados.

"Um grande número de pessoas está vendo benefícios, então há algo lá", defende Jeffrey Raber, químico e CEO da Werc Shop — um laboratório de cannabis na Califórnia. "Não acho que estamos muito perto de descobrir (os verdadeiros potenciais), ainda", conclui Raber. O problema é que, sem isso, diferentemente dos remédios para dor sem receita, como aspirina e ibuprofeno, não existe um parâmetro que informe ao paciente quantas gramas ele deve utilizar.

Existem apenas algumas pistas. Como é o caso do estudo que descobriu que o uso do extrato de canabidiol (CBD) nas articulações de ratos portadores de artrite poderia ajudar no tratamento da doença, reduzindo a inflamação. Outra pesquisa anunciou que o CBD também poderia reduzir a dor da osteoartrite. Na pesquisa, foi mostrado que ratos foram capazes de suportar mais peso em seus membros afetados e tiveram menos inflamação nas articulações, após o uso do extrato.

No entanto, roedores não são pessoas e seus metabolismos funcionam de maneira diferente, por mais que as semelhanças com seres humanos em níveis sistêmicos existam. Como a dor é algo muito complexo e depende de diversas variáveis do sistema nervoso, além de possuir muitas causas, ela só pode ser melhor estudada em seres humanos. "Nós realmente precisamos de mais ensaios clínicos e mais pesquisas", defende Andrea Hohmann, pesquisadora da Universidade de Indiana.

Por isso mesmo, nada sobre os produtos à base de maconha é padronizado. Alguns deles podem ser inclusive adulterados, especialmente em lugares onde a substância é ilegal. Alguns desses produtos podem ter adicionados em sua composição, por exemplo, outros produtos químicos não relacionados a terapia alguma. “O CBD é provavelmente o que se pode chamar de droga suja”, afirma Hohmann, sobre as possíveis contaminações dessas substâncias, quando não reguladas.

Maconha no Brasil

Esta terça-feira (3) simboliza um marco para os ativistas da maconha no Brasil. A partir desta data, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou num novo regulamento para registro de produtos à base de cannabis para fins medicinais, em todo o país, estabelecendo parâmetros de qualidade.

Com o regulamento, a comercialização dos produtos, no país, ocorrerá exclusivamente em farmácias e drogarias sem manipulação e mediante prescrição médica. Em outras palavras, isso significa que os produtos poderão ser comercializados, mas não plantados. Caso empresas queiram produzir os produtos em território nacional, terão que importar somente o extrato da planta, já que o seu cultivo permanece ilegal. Além disso, o consumo recreativo também continua ilegal e o ato de comprar ou vender fora destes estabelecimentos configura crime.

O novo marco regulatório cria uma nova classe de produtos sujeitos à vigilância sanitária, os produtos à base de cannabis. As normas incluem procedimentos para a concessão de uma Autorização Sanitária para a fabricação e a importação desses produtos, além de estabelecer requisitos para comercialização, prescrição, dispensação, monitoramento e fiscalização de produtos para fins medicinais.

Entre os novos parâmetros, os rótulos não devem conter termos como “medicamento, remédio, fitoterápico, suplemento, natural ou qualquer outro que tenha semelhança com estes.” Outro ponto, é que as regras para a prescrição do produto variam de acordo com a concentração de tetrahidrocanabinol (THC), que é limitada. Segundo o regulamento, compostos com concentrações de THC superiores a 0,2% só "poderão ser prescritos a pacientes terminais ou que tenham esgotado as alternativas terapêuticas de tratamento."

Em comunicado, a Anvisa lembra que “as empresas não devem abandonar as suas estratégias de pesquisa para comprovação de eficácia e segurança das suas formulações, pois pelo atual conhecimento estamos diante de uma situação em transição regulatória."

Até então, os pacientes que utilizam óleos e extratos à base de canabidiol, durante seus tratamentos, precisam de aval da Anvisa para importarem os produtos, que vinham com alto custo. Mesmo assim, a demanda por pedidos era crescente no órgão desde 2015, principalmente no tratamento de epilepsia, autismo, dor crônica, doença de Parkinson e transtornos de ansiedade, o que mostra que a substância age diretamente no sistema nervoso central.

A regulamentação aprovada será publicada no Diário Oficial da União nos próximos dias e passará a viger 90 dias após a publicação.

Fonte: Canaltech

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