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Antes de dizer que ETs existem, é preciso coletar evidências. Quais seriam elas?

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Cientistas da NASA desenvolveram um método para ajudar a comunidade científica e jornalistas a reconhecer quando um estudo está perto ou longe de identificar vida em outro planeta. Trata-se de uma escala que pode ser muito útil para evitar grandes expectativas no público, ou mesmo entre cientistas, com pesquisas que ainda não encontraram evidências da existência de espécies alienígenas.

O artigo, publicado na Nature e disponível para leitura, descreve sete etapas propostas como uma espécie de "guia" para sabermos o quão perto os cientistas estão de descobrir vida em outro planeta. Para citar um exemplo de como essa escala pode ser útil (principalmente para veículos de comunicação, que às vezes correm o risco de publicar manchetes sensacionalistas), podemos nos lembrar do caso da fosfina em Vênus.

Em 2020, uma equipe alegou ter detectado fosfina elemento na atmosfera de Vênus, o que causou um certo espanto e bastante “rebuliço” tanto na comunidade científica, quanto na mídia. Logo, alguns cientistas se apressaram em explicar que a fosfina pode, sim, ser liberada por processos biológicos, mas também pode ter origem abiótica. Em outras palavras, encontrar fosfina não significa nada de imediato, apenas aponta para uma possibilidade de que a substância tenha origem biológica.

No final das contas, após muito debate sobre o assunto, outros cientistas descobriram que aquele sinal de fosfina era muito compatível também com o sinal de dióxido de enxofre — ambos os tipos de moléculas absorvem radiação perto da mesma frequência, 266,94 gigahertz. Como é muito mais provável encontrar dióxido de enxofre na atmosfera de Vênus, por ser um gás bem comum por lá, a hipótese da fosfina acabou praticamente descartada, ou, pelo menos, aguardando um novo estudo para comprová-la.

A detecção de uma molécula que parecia fosfina na atmosfera de Vênus (Imagem: Reprodução/ESO/M. Kornmesser/L. Calçada/NASA JPL/Caltech)
A detecção de uma molécula que parecia fosfina na atmosfera de Vênus (Imagem: Reprodução/ESO/M. Kornmesser/L. Calçada/NASA JPL/Caltech)

Gostemos ou não, o método científico, nosso melhor meio de encontrar explicações para as coisas que observamos na natureza, impede um cientista de insistir em uma pista improvável. No caso da fosfina, a equipe que fez a suposta descoberta calculou que a molécula estava em uma altitude de 50 a 60 km, mas estudos posteriores descobriram que aquela detecção se ajustava melhor em 80 km de altitude, acima das camadas de nuvens. Nessas altitudes, a fosfina não duraria tanto tempo, então prevaleceu a explicação do dióxido de enxofre.

Mesmo assim, a fosfina em Vênus deu o que falar (e você pode encontrar muitas matérias sensacionalistas sobre isso por aí), o que nem sempre é positivo, do ponto de vista científico. É que, se as pessoas se alvoroçam com notícias que não são tão extraordinárias, a ciência perde um pouco de crédito. Afinal, se um cientista afirma ter encontrado fosfina e outro refuta essa informação, ou se dizem que o asteroide interestelar ‘Oumuamua é uma nave alienígena e outros cientistas discordam, em quem acreditar? Como saber em que estágio estão as buscas por vida em outros planetas?

Para responder essas perguntas, pesquisadores da NASA criaram uma nova escala. Eles escolheram usar uma metáfora com uma escada cujos degraus representam as etapas do método científico, ou melhor, os degraus que astrobiólogos (cientistas que estudam as possibilidades de vida alienígena) devem subir antes de afirmar que encontraram algo que finalmente nos garanta que não estamos sozinhos no universo.

Com sete degraus, ou níveis, a escala fornece um meio para cientistas deixarem bem claro a todos, incluindo outras equipes, divulgadores científicos e jornalistas, onde determinada pesquisa se encontra na árdua tarefa de confirmar a existência de vida extraterrestre. “Até agora, colocamos o público a pensar que há apenas duas opções: é vida ou não é vida”, disse Mary Voytek, chefe do Programa de Astrobiologia da NASA. “Precisamos de uma maneira melhor de compartilhar o entusiasmo de nossas descobertas e demonstrar como cada descoberta se baseia na próxima, para podermos trazer o público e outros cientistas ao longo da jornada.”

(Imagem: Reprodução/NASA/Aaron Gronstal)
(Imagem: Reprodução/NASA/Aaron Gronstal)

De acordo com a própria NASA, os jornalistas também podem se referir a esse tipo de escala para ajustar as expectativas que podem (ou não) entregar ao público, “de modo que pequenos passos não pareçam ser saltos gigantescos”. Por outro lado, os cientistas querem compartilhar o entusiasmo de cada pequena descoberta, sem apelar para afirmações extraordinárias quando não possuem evidências extraordinárias.

Na primeira etapa, o “nível 1”, os cientistas poderiam relatar indícios de uma assinatura de vida, como uma molécula relevante para a biologia conhecida aqui na Terra, por exemplo. Seria o caso de uma detecção de moléculas em Marte que sejam potencialmente relacionadas à vida, por exemplo. No “nível 2”, eles devem garantir que a detecção não foi influenciada pelos instrumentos contaminados na Terra, como moléculas da nossa atmosfera interferindo nos telescópios, ou ainda nossos próprios sinais eletromagnéticos sendo confundidos com emissões de outros planetas.

No “nível 3”, eles mostrariam como esse sinal biológico é encontrado em um ambiente análogo aqui na Terra, como um antigo leito de rio com características semelhantes ao local de pouso do rover Perseverance, a cratera de Jezero. Depois, essas detecções seriam complementadas com informações de como aquele ambiente poderia sustentar vida e descartariam as fontes não biológicas.

Com outros estudos de equipes independentes, usando uma variedade de instrumentos e combinação das evidências, a pesquisa poderia atingir o “nível 6”, enquanto o último degrau representa uma evidência definitiva. No caso de Marte ou Vênus, isso exigiria uma missão específica em partes diferentes dos planetas. “Alcançar os mais altos níveis de confiança requer a participação ativa da comunidade científica”, escrevem os autores. Essa escala se aplicaria a descobertas além do Sistema Solar também, embora os métodos para atender os requisitos de cada degrau possam variar, nesses casos.

Conceito artístico de uma superterra, um tipo de exoplaneta com algumas características em comum com o nosso (Imagem: Reprodução/Martin Kornmesser/ESO)
Conceito artístico de uma superterra, um tipo de exoplaneta com algumas características em comum com o nosso (Imagem: Reprodução/Martin Kornmesser/ESO)

Além de evidências extraordinárias, os astrobiólogos também precisarão de instrumentos extraordinários para chegar ao último degrau. Isso porque, embora os telescópios modernos possam detectar elementos como oxigênio nas atmosferas de exoplanetas de nossa galáxia, nem mesmo o poderoso James Webb conseguiria detectar a combinação de moléculas — como oxigênio e metano — que indicariam vida em um mundo distante.

Por isso, as melhores esperanças de encontrarmos algo nas próximas décadas podem ser os mundos do Sistema Solar, pois, aqui, em nosso “quintal cósmico”, podemos enviar sondas “farejadoras” de assinaturas biológicas. Por exemplo, as missões Europa Clipper e Dragonfly, que investigarão as luas Europa e Titã, respectivamente, fornecerão informações vitais sobre os ambientes que talvez abriguem alguma forma de vida. Talvez.

Fonte: Canaltech

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