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Antes desdenhada, vacina de Putin agora é disputada em pandemia

Henry Meyer
·3 minuto de leitura

(Bloomberg) -- Em agosto do ano passado, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou que o país havia autorizado o uso da primeira vacina contra a Covid-19 do mundo antes mesmo de concluir os ensaios de segurança, o que gerou ceticismo. Agora, Putin pode colher dividendos diplomáticos à medida que a Rússia comemora seu maior avanço científico desde a era soviética.

Países fazem fila para receber a Sputnik V depois que resultados revisados por pares e publicados na revista médica The Lancet mostraram que a vacina russa protege contra o coronavírus tão bem quanto imunizantes dos EUA e da Europa, e com muito mais eficácia do que as rivais chinesas.

Pelo menos 20 países aprovaram a vacina para uso, incluindo a Hungria, membro da União Europeia, enquanto mercados importantes como Brasil e Índia estão perto de autorizar o imunizante. Agora, a Rússia está de olho no premiado mercado da UE, enquanto o bloco enfrenta obstáculos em seu programa de vacinação devido à falta de vacinas.

Na batalha global para derrotar uma pandemia que matou 2,3 milhões de pessoas em pouco mais de um ano, a corrida para obter vacinas assumiu importância geopolítica com governos que tentam superar os enormes danos sociais e econômicos causados pelas restrições impostas para limitar a propagação do vírus. Isso dá vantagem à Rússia como um dos poucos países onde cientistas produziram uma vacina eficaz.

A decisão de chamar a vacina de Sputnik V, nome do primeiro satélite do mundo cujo lançamento em 1957 deu à União Soviética um grande triunfo contra os Estados Unidos para iniciar a corrida espacial, destacou a escala da importância que o governo de Moscou atribuiu ao feito. Os resultados dos ensaios de estágio final com 20 mil participantes revisados na The Lancet mostraram que a vacina tem uma taxa de eficácia de 91,6%.

“Este é um momento decisivo para nós”, disse em entrevista Kirill Dmitriev, CEO do Fundo de Investimento Direto Russo, (RDIF, na sigla em inglês), que apoiou o desenvolvimento da Sputnik V e é responsável pela implementação internacional.

As restrições de produção são o maior desafio enfrentado por todos os fabricantes, uma vez que a demanda global supera em muito a oferta. A Rússia, que prometeu vacinas gratuitas para a população de 146 milhões, iniciou a produção no ano passado e a vacina está sendo fabricada atualmente em países como Índia, Coreia do Sul e Brasil.

Apesar do sucesso da Rússia, a demanda doméstica permanece morna até agora, em parte pela desconfiança da população. Putin, de 68 anos, alimentou o ceticismo em dezembro, quando disse que estava esperando que a vacina fosse liberada para pessoas de sua idade.

Putin ainda não disse se foi vacinado, mas outras nações não querem esperar a resposta. Após anunciar que havia dado positivo para a Covid-19, o presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador disse em 25 de janeiro que havia agradecido Putin por ter prometido 24 milhões de doses da Sputnik V nos próximos dois meses. Três dias depois, o presidente da Bolívia, Luis Arce, recebeu pessoalmente um lote no aeroporto de La Paz.

A aprovação europeia pode levar vários meses devido à necessidade de enviar dados detalhados, disse o editor-chefe da The Lancet, Richard Horton, em entrevista à Bloomberg. “Realmente acho que a vacina russa estará disponível”, mas “não rapidamente”, afirmou.

Embora a Rússia espere que a vacina esteja disponível para 700 milhões de pessoas neste ano, enfrenta gargalos de produção. “Temos que ser realistas. Devido aos nossos outros compromissos, não seremos capazes de fornecer para a Europa antes de maio, exceto para a Hungria”, disse Dmitriev, do RDIF.

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