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ANÁLISE: O brasileiro elogia o Chile porque não recebe o mínimo do governo Bolsonaro

Anita Efraim
·4 minuto de leitura
Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e presidente do Chile, Sebastián Piñera (Foto: AP Photo/Eraldo Peres/Jacquelyn Martin)
Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e presidente do Chile, Sebastián Piñera (Foto: AP Photo/Eraldo Peres/Jacquelyn Martin)

O Chile deve ser o primeiro país da América Latina a começar a vacinar a população contra o coronavírus. Na última quarta-feira, 16, o Instituto de Saúde Pública do Chile confirmou que o país autorizou o uso emergencial do imunizante da Pfizer e da BioNTech.

O primeiro caso de covid-19 no país foi confirmado em 3 de março de 2020 e, ao longo do tempo, foram feitos 5,8 milhões de exames PCR.

Diariamente, o ministro da Saúde faz um pronunciamento para informar o número de contágios nas últimas 24 horas, quantas pessoas morreram em decorrência da Covid-19 e quantos exames foram feitos. São ainda mostrados os leitos disponíveis no país e a quantidade de pacientes internados em estado grave.

Em relação à vacina, em pronunciamento na noite de quarta-feira, Sebastián Piñera, presidente do Chile, declarou que o país tem conversas e acordo não só com a Pfizer, mas também com a SinoVac, que produz a CoronaVac, com a Janssen e também com o consórcio Covax, da Organização Mundial da Saúde.

Ainda em 2020, o país deve receber 20 mil doses da vacina e começara a imunizar os profissionais da Saúde.

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Ao ler tudo isso, para os brasileiros, o Chile pode parecer um país extremamente organizado, com um líder competente e popular. Mas, não é bem assim. O Chile é um país com bases neoliberais, não tem sistema de saúde pública, o que deixa muitas pessoas sem a possibilidade de um tratamento adequado quando contraem a covid-19 ou outras doenças. Além disso, o país vive uma crise política e acaba de passar por um plebiscito, que aprovou a criação de uma nova constituição por ampla maioria.

Piñera é um presidente pouco popular, que cometeu erros importantes durante a pandemia, como tirar selfies na praia com apoiadores, sem máscara. Desde outubro de 2019, quando aconteceu o chamado “estalido social”, o país viveu confrontos e um clima de tensão entre autoridades governamentais e população.

Houve ainda uma troca de ministro da Saúde no país durante a pandemia. Jaime Mañalich ocupava o posto no início da crise sanitária, até descobrir-se que os números enviados à OMS eram diferentes, e superiores, daqueles apresentados para a população. Ele foi substituído por Enrique Paris, que é o ministro da Saúde atualmente.

SANTIAGO, CHILE - NOVEMBER 20: People gather to protest against the Chilean President Sebastian Pinera, demanding his resignation after a video showing the police brutality on vulnerable kids, went viral, in downtown Santiago, Chile on November 20, 2020. (Photo by Cristobal Saavedra Vogel/Anadolu Agency via Getty Images)
Manifestação em Santiago contra o presidente Sebastián Piñera em novembro de 2020 (Foto: Cristobal Saavedra Vogel/Anadolu Agency via Getty Images)

Os números de mortes e contágios no Chile são altos. São cerca de 16 mil vítimas da covid-19 e mais de 575 mil chilenos foram infectados pelo vírus. Atualmente, 10,5 mil casos estão ativos. No site do ministério da Saúde é possível verificar a quantidade de doentes por região.

Nada disso, no entanto, impediu o governo chileno de tomar medidas relevantes. A condução da pandemia está longe de ser perfeita, porque a desigualdade, que já era grande, ficou ainda maior e muitas pessoas passam dificuldades. O que impressiona o brasileiro é o mínimo de planejamento e bom senso.

Ter um médico como ministro da Saúde diariamente passando dados parece incrível, porque no Brasil é um consórcio de veículos de imprensa quem precisa compilar os dados não divulgados pelo governo de Jair Bolsonaro. Ter acordos com empresas produtoras de vacina parece distante porque o presidente do Brasil menosprezou a pandemia desde o início e, durante a segunda onda, diz que a crise sanitária está “no finalzinho”.

Apesar de toda a resistência a Piñera e até manifestações pedindo a renúncia do presidente ao longo da crise sanitária, não houve uma tentativa de politização da pandemia do coronavírus.

A capital, Santiago, viveu meses de restrições de mobilidade. Outras partes do país, onde a segunda onda chegou com força, voltaram a essa situação. A população não podia sair de casa e só tinha autorização para fazê-lo duas vezes por semana. É um país que coloca a economia à frente de tudo, mas parece ter entendido que, quando antes o coronavírus for erradicado, mais cedo o comércio poderá voltar.

Ao aparecer na televisão para comentar a vacinação, Piñera reforçou que, mesmo após o início da vacinação, os chilenos devem continuar seguindo as medidas sanitárias: usando máscara, evitando aglomerações (que são proibidas por lei) e lavando as mãos. A atitude é correta, mas não deveria impressionar. Impressiona a quem tem um líder que menospreza uma crise que já vitimou mais de 182 mil brasileiros.