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O que pensa o lava-jatista que apoiou Bolsonaro? Pergunte a Janaina Paschoal

Matheus Pichonelli
·5 minutos de leitura
Lawyer Janaina Paschoal stands as Federal deputy Jair Bolsonaro reacts during the national convention of the Party for Socialism and Liberation (PSL) where he is to be formalised as a candidate for the Presidency of the Republic, in Rio de Janeiro, Brazil July 22, 2018. REUTERS/Ricardo Moraes
Janaina Paschoal e o então dancidato a presidente Jair Bolsonaro em evento em 2018. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Janaina Paschoal, jurista que embasou o pedido de impeachment de Dilma Rousseff, está decepcionada com Jair Bolsonaro, presidente com quem quase compôs chapa na disputa pela Presidência em 2018.

Não por causa das queimadas no Pantanal e na Amazônia.

Nem por ter provocado aglomerações e vendido como solução na pandemia um medicamento sem eficácia comprovada.

Ou por ter ampliado o acesso a munição à população como recado a esses “bostas” de prefeitos e governadores preocupados com o isolamento social.

Ou pelo clima de perseguição a ex-auxiliares que hoje relatam ameaças em livros de memórias ou estudam deixar o país.

A gota d’água, para a deputada estadual mais votada de São Paulo, foi a indicação de Kassio Nunes Marques para a vaga de Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal.

A escolha desagrada a antes apoiadora do presidente porque agrada advogados, representantes do centrão e até Renan Calheiros. Todos, segundo ela, simpáticos ao PT e à esquerda.

Ao se associar a eles, Bolsonaro deixa de lado uma intransigência vendida na campanha para mostrar capacidade de diálogo com quem não deveria dialogar. E isso, para a deputada, configura uma traição aos eleitores.

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Na entrevista concedida ao Yahoo Notícias, Janaina Paschoal deu exemplo de como pensa o apoiador clássico da Lava Jato que vê a Lava Jato ser implodida na gestão do presidente que se apoiou na operação para se eleger.

Em sua visão, o grande pecado do futuro ministro do STF é um suposto apoio à legalização do aborto, identificado por ela na leitura de sua dissertação de mestrado. Ela considerou graves também os furos no currículo do juiz federal, algo que mais o aproxima do que distancia dos ministros que habitam na Esplanada.

Bolsonaro, afirma Janaina, está fazendo tudo parecido com o PT para brecar investigações e espalhar o espírito anti-Lava Jato. O temor é que “as forças do mal se unam para que nós não possamos punir quem tem que ser punido”.

Por essa avaliação, nada disso estava sinalizado antes, quando já havia informações correntes sobre supostos funcionários-fantasmas, uso indevido de auxílio-moradia e anseios em proteger os filhos e aliados de qualquer perigo ou investigação. Nem quando o presidente precisou escantear Sergio Moro para tomar de volta a carta-branca prometida em campanha.

Moro, para ela, é só um juiz correto que, digamos, não se adaptou à espontaneidade do ambiente em Brasília e à língua solta do presidente.

Ele e outros ex-aliados que hoje pedem proteção por possíveis ameaças só causam comoção entre os formadores de opinião porque se posicionam contra o governo, diz Janaina. Quando as ameaças partem da esquerda, se calam.

A análise faz o leitor desavisado imaginar que não foi boa parte da mesma imprensa que ofereceu espaço e difusão acrítica de delações e acusações feitas no rol da Lava Jato. Ou que tratou as suspeitas de corrupção envolvendo governos petistas com um certo relativismo editorial. Ou como se Bolsonaro não tivesse sido normalizado até se tornar, ele mesmo, um risco ao livre exercício jornalístico.

Janaina diz que os ataques partem dos dois lados e se queixa por jamais ter sido defendida quando era ameaçada pela militância identificada com a esquerda, segundo ela tão engajada em cancelamentos quanto os radicais bolsonaristas. Mas fica difícil observar medidas de forças iguais quanto uns têm as armas e outros têm o alvo na testa. Quando Marielle Franco foi metralhada por milicianos, figuras já elogiadas pelos governantes de plantão, o atual presidente se negou a dar a opinião porque seria “polêmica demais”.

Aqui as experiências pessoais parecem moldar, como sempre, o posicionamento e o destino das figuras públicas -- consequentemente da História.

Sai Maquiavel e entra Shakespeare. Sai a ciência política e entram as paixões humanas. As de Janaina estão marcadas pela experiência como voz dissidente na USP, onde a professora seria tratada como aberração por pensar diferente.

Não fosse isso, ela talvez achasse estranho votar em um deputado com o currículo de Bolsonaro só porque ele prometia mandar para a ponta da praia, lugar de desova de corpos na ditadura, os militantes que a constrangiam nos corredores da universidade.

Ainda assim, a decepção é uma corda que não parece alcançar o rompimento. Tem sempre uma dobra no porém. Está tudo ruim, mas está melhor assim. Não concordo, mas podemos rever em caso de recuo.

O conjunto da obra para um possível impeachment está criado, mas nada disso -- nem as armas, nem as 150 mil mortes na pandemia, nem a familiocracia, nem as queimadas, nem o estelionato da falsa agenda liberal nem a fascinação por torturadores -- terá importância quando do outro lado estiver quem um dia se aproximou da chamada esquerda, a única que tem as chaves e as portas para tudo de mal que possa acontecer no Brasil.

Até lá, é como se dissesse: estou decepcionada, mas estamos juntos. Janaina é uma multidão.

No caso dela isso não significa apoio incondicional, o que parece provocar curto-circuito na ala disposta a apoiar o presidente ainda que ele peça aos seguidores para pularem do penhasco. Janaina vai só até a borda.

Ela, que diz não acreditar em partidos políticos, tem voto e exposição suficientes para levar a qualquer legenda caso seja expulsa do PSL por dizer que não vota em sua colega de partido, Joice Hasselmann, porque ela não está preparada para administrar São Paulo. Ou para dizer que não pretende deixar o cargo de deputada para disputar algum cargo majoritário porque ganhou votos do estado inteiro e isso configuraria traição.

A postura é música para os ouvidos de quem não quer os mesmos de sempre e já desconfia que Bolsonaro não é assim tão diferente deles. Tem alguma coisa ali no meio que não cabe em modelos matemáticos e não foi suficientemente compreendido.

Janaina pode ser criticada por tudo, menos pela incoerência.