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A análise do Tour de France-2020 e o que teremos para a última semana

Fernando Moyna
·6 minutos de leitura



Começa nesta terça-feira a terceira e última semana do Tour de France, a mais tradicional e famosa prova do ciclismo mundial. Até aqui tivemos várias etapas duríssimas, algumas montanhas “categoria 1” e “categoria HC”, mas nenhuma etapa com uma montanha “categoria HC” na reta final, como se viu no domingo. E esta etapa 15 foi bem esclarecedora.

Vimos esforços de mais ou menos de 40min depois de algumas montanhas e com chegada ao alto. Nesse tipo de etapa só os escaladores realmente conseguem sobreviver tanto tempo e com a etapa de ontem acho que é seguro tirar algumas conclusões.

1- Equipe Jumbo é muito superior

Já sabíamos que a Jumbo Visma dominaria, mas a escalada do Grand Colombier (os 20km finais da etapa) demonstrou uma superioridade absurda da equipe. Gesink e Bennett, como sempre, começaram o estrago, puxando o pelotão e pulverizando as chances de quem não era escalador do grupo dos favoritos.

Mais tarde, Aert assumiu a responsabilidade de gregário. A lógica seria ele durar 1 ou 2km, mas o belga não só não deixou o ritmo cair como puxou por muito mais do que esperado.

Na metade final, o pelotão da camisa amarela tinha apenas 25 ciclistas. E os colombianos Egan Bernal (campeão de 2019 e da Ineos) e Nairo Quintana (da Arkea) começaram a focar para trás. E o impensável! Aert colocou de lado exatamente onde o Froome fez no mesmo lugar um mês atrás no Tour de l’Ain.
. O único não Jumbo Visma que ainda tentou alguma coisa foi o Adam Yates (britânico da Mitchelton) faltando 7km para o fim. Mas uma ptra fera da Jumbo, o holandês Tom Dumoulin o pegou um quilômetro depois.

O ritmo era tão intenso e por tanto tempo que os escaladores natos simplesmente não tinham como atacar e manter este ataque por muito tempo. Nada mudou até o último km, quando Dumoulin tirou de lado (e sem que a equipe usasse Kiss como gregário). Daí em diante, foi só posicionamento para o sprint pelos bônus de tempo e deixar o esloveno Primoz Roglic, lider da camisa amarela, tentar buscar a vitória, que acabou sendo não de um atleta da Jumbo, mas do também esloveno Tadej Pogacar (da Emirates). Mas o trabalho da JUmbo mostrou toda a sua qualidade.

OBS: Tadej Pogacar apareceu mais uma vez com sua troca de ritmo impressionante após tantos minutos no limite. Mesmo roteiro das outras etapas de montanha e provavelmente será até o final do Tour.

2- Não esperava a implosão do Bernal

Aliás, esperava justamente o contrário. O colombiano é o tipo de escalador de altas e longas montanhas e a etapa de domingo combinava com seu estilo.

Só consigo imaginar algum tipo de doença ou “overtraining”. Não da para acreditar que foi falta de treino ou empenho. Muito menos falta de talento de um ganhador de Tour de France com 22 anos. Ainda vamos escutar sobre essa implosão, principalmente do jeito que ele completou a etapa, oito minutos atrás do vencedor. Como se fosse um sprinter completando uma etapa de montanha, só girando.

Bernal não perdeu tempo em assumir a responsabilidade com classe, sem mimimi antes que pudessem vir com alguma desculpa. Porém, a realidade é que não sobrou nada para a equipe Ineos a não ser ir atrás de alguma etapa com o Kwiatkoski (ele nunca ganhou uma etapa do Tour) ou colocar Castroviejo ou Van Baarle nas fugas para tentarem a sorte. Os únicos que não caíram e estão com as performances de sempre.

3 – Aert e Pogacar são as melhores atuações individuais até agora

Nem sei como a equipe Jumbo liberou o Aert para alguns sprints. Basta imaginar o que poderia ter acontecido no episódio com o Peter Sagan (eles trombaram num sprint final na etapa 12 e poderia ter ocorrido um acidente gravíssimo) e o quanto ele faria falta no “trem” da equipe, em vez de servir de guarda-costas para o Roglic nas etapas com chegadas nervosas. Uma delas foi na vitória de Andersen, no sábado, quando vários ataques saiam a cada km e o pelotão a mais de 60km/h fazendo curva, descendo e subindo.

Já Pogacar com apenas 22 anos e sem equipe para ajudá-lo nas montanhas está demonstrando ser o único que, até agora, não teve medo de se arriscar contra o “trem” da Jumbo. Já ganhou duas etapas e tenho certeza que irá continuar tentando até não aguentar mais. Etapa 18 onde terá “gravel” no topo do “categoria HC” em seguida descida até a chegada parece ser o terreno ideal para que um ataque seja mais efetivo contra a Jumbo. Ele, que é vice-líder da geral, 40s atrás de Roglic, veio do Cyclocross.

4- Sunweb e Bora são as melhores equipes

Claro, qualquer um vai dizer que a Jumbo é a melhor já que está dominando o Tour, mas na minha opinião está claro que a Jumbo foi conservadora e poderia ter ganho pelo menos mais duas etapas. Já a Bora e, principalmente, a Sunweb estão arriscando tudo nas etapas dia sim, dia também. Com isso, transformam as etapas bem mais duras do que foram planejadas ou que as equipes GCs gostariam que fossem. Melhor para quem assiste!

A parte mais dura desse Tour começa nesta terça-feira e esta etapa 16 me parece que teremos muitos na fuga. Uns 30!

Isso porque a Jumbo não terá interesse na etapa e a maioria dos GCs estarão poupando suas energias para a etapa de quarta-feira, que é monstruosa com o combo dos dois montes gigantes la Madeleine e la Loze. Mesmo com pinta de ter o mesmo script, tendo a Jumbo sufocando a ponta do pelotão dos favoritos, deveremos ter ataques, não contra a Jumbo e sim pela disputa pelo último lugar ao pódio. Os últimos 5km dos 18km de escalada tem médias acima de 10% de inclinação. Nesta briga pelo terceiro lugar, coloco o colombiano Rigoberto Uran em destaque. Sua atual posição no Top3 é o resultado dos “sobreviventes”. O ciclista da EF não tirou da roda da Jumbo ou do pelotão dos favoritos nenhuma vez sequer em 15 etapas. Sua experiência conta muito para se livrar de quedas, momentos táticos importantes e cadenciar suas energias corretamente nas montanhas. É o “ninja” do Tour. Se não fosse a camisa rosa da equipe ninguém o teria visto até agora.

5 - Pitacos das etapas finais

Etapa 18 - Tem potencial de emboscada com a parte de “gravel (cascalho). Se tiver um tempo ruim como na etapa de “gravel” da Vuelta a Espanha do ano passado pode vir a ser caótica.

Etapa 19 - Mais uma disputa entre as equipes Bora(Sagan), Deceuninck(Bennett e Alaphippe) e toda equipe da Sunweb.

Etapa 20 - A grande decisão no contrarrelógio de montanha.

Embora a disputa pela camisa amarela esteja polarizada entre o Roglic e Pogacar, poucas vezes nos últimos dez anos a diferença entre o líder e o 15º está só a 9m02s. Isso se viu no Tour de 2000. Já o vigésimo está a mais de 1 hora(!). Acho que isso explica a dificuldade até aqui e ao mesmo tempo como está embolado do 3º ao 8º. Essa diferença é boa para termos várias fugas já que praticamente todo mundo está com muito atraso e não oferecem perigo para as equipes que disputam a camisa amarela e ao mesmo tempo temos seis excelentes GCs disputando o último lugar do pódio.

O entretenimento está garantido!