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Análise | Need for Speed Heat concentra duas boas experiências em pacote único

Felipe Demartini

É difícil se manter no topo após mais de duas décadas de existência, e essa é uma história que a franquia Need for Speed conhece muito bem. Um dos principais e mais antigos expoentes do mundo dos jogos de corrida arcade, a marca viu sua relevância diminuir na medida que uma sequência de títulos ruins chegavam ao mercado, em um movimento atrapalhado que vem desde a geração passada.

Com Need for Speed Heat, essa história parecia fadada a acontecer mais uma vez, com uma divulgação atrapalhada e que focava nos aspectos “radicais” de um game cheio de luzes de neon e, aparentemente, pouca personalidade. Um erro da Electronic Arts que acabou por esconder o que se prova uma proposta bastante competente, apesar de ainda repetir erros do passado e, principalmente, ainda precisar de muitos ajustes e trabalho para retomar seu lugar no topo do pódio.

Hoje, esse posto é de Forza Horizon, e não é à toa que o novo game toma diversas notas do jogo da Playground Games. Heat é como uma mistura do que deu certo na concorrência e do que funcionou nos últimos episódios do próprio Need for Speed, nas mãos da produtora Ghost Games desde 2013.

O jogo pode até não ser uma grande redenção para a marca, mas prova que a Ghost Games finalmente conseguiu se acertar. No comando da franquia desde 2013 e com mais títulos questionáveis do que interessantes desde então, a produtora mostra que a experiência finalmente está começando a dar seus frutos, assim como a esquisita ideia de um reboot feito na geração atual, que agora não soa mais tão bizarra assim.

Ele foi necessário, acima de tudo, para firmar algumas bases, principalmente depois que o game seguinte, Payback, de 2017, deixou a desejar muito por causa das políticas agressivas da Electronic Arts, mas também pelo que apresentava em si. Aliás, esse é um ponto que é importante ressaltar: Need for Speed Heat se livra do mal que sempre parece acompanhar os títulos da distribuidora e não conta com microtransações ou loot boxes.

Felizmente, Need for Speed Heat não tem microtransações, apostando em um sistema de economia e reputação internos para melhoria de carros e customização (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Temos, sim, um sistema econômico dentro do game, com pontos de reputação e dinheiro virtual acumulado com vitórias nas pistas e servindo para melhorar carros e avançar no enredo. Tudo no jogo gira em torno desses dois fatores e eles também são as motivações para que o jogador expanda seu rol de habilidades e experimente os dois momentos distintos oferecidos pelo título.

Tomada as devidas proporções, é quase como se Need for Speed Heat trouxesse dois jogos em um. Durante o dia, temos corridas que fazem parte de uma competição oficial, o Speedhunters Showdown, que acontece nas ruas de Palm City. A reprodução de Miami serve como cenário para provas que nos levam por toda a cidade e nos presenteia com cenários belíssimos e um grande foco nos visuais, bem como uma variação interessante entre trechos urbanos, estradas e as vias sinuosas das montanhas.

Os efeitos de iluminação chamam a atenção aqui, mas também algumas das falhas gráficas, como os pop-ins de objetos ou as texturas que demoram a carregar nas velocidades mais altas sempre presentes em um jogo de corrida. São elementos feios e que depõem contra o conjunto visual, mas que, felizmente, não atrapalham na jogabilidade, o ponto central de qualquer título desse gênero.

Need for Speed Heat tem duas abordagens bem diferentes, com o festival diruno dando lugar às corridas ilegais durante a noite (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Provas vão surgindo no mapa, enquanto desafios diários aparecem para complementar a renda e também a reputação. O jogador é livre para seguir pela campanha, se preferir ser mais direto, mas em alguns momentos terá de se aventurar nesses eventos paralelos para cumprir exigências. É como se o game quisesse que você experimentasse um pouco de tudo, sem inflar o progresso artificialmente, mas também não permitindo que sigamos direto para os finalmentes e acabemos nos frustrando.

Pilotos de ponta não gostam de se submeter às regras e, como a franquia em questão já demonstrou há mais de uma década, mais do que a necessidade por velocidade, Need for Speed é sobre adrenalina. À noite, quando o festival chega ao fim, as ruas se tornam o playground de provas ilegais, com uma força policial que não gosta nada disso.

Em uma comparação porca, é como se, nos momentos diurnos, Heat se comportasse como Forza Horizon, enquanto à noite se torna um Need for Speed. De um lado, ruas tranquilas e corridas mais limpas, com plateia e indicadores visuais em ritmo de festa; à noite, o cenário cheio de neon e poças de água se mistura à batida forte da trilha sonora (que inclui até algumas músicas brasileiras) e abre alas para uma ação bem mais agressiva.

A chuva, nesses momentos, brilha como o elemento visual mais interessante, apesar de, como em um tradicional game arcade, não apresentar diferenças claras na jogabilidade. Mais do que tudo, as tempestades servem como um fator dramático a mais e um showcase de partículas, que derruba a taxa de frames em momentos específicos, mas apresenta um espetáculo gráfico no restante do tempo.

Need for Speed Heat até tem problemas como popins ou quedas na taxa de quadros, mas o conjunto visual impressiona o tempo todo (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Você não vai ter muito tempo para ficar curtindo o visual, porém, pois Heat traz o que talvez sejam os policiais mais violentos de toda a franquia. Fugir deles é essencial, afinal de contas ninguém quer ir parar na cadeia, mas também para acumular reputação, com multiplicadores de pontos surgindo na medida em que os oficiais são provocados e as perseguições se tornam maiores e mais longas.

Na medida em que a situação escala, carros mais velozes, helicópteros e até blindados começam a surgir, e junto deles uma das questões problemáticas do game. Há certo desbalanceamento em fugas nas quais o jogador sempre estará em desvantagem, enquanto os próprios sistemas do game trabalham de forma artificial para manter a adrenalina e a dificuldade em alta.

O principal ponto frustrante está nas perseguições. Em Need for Speed Heat, o jogador sempre está em desvantagem (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Isso se traduz em carros de polícia que simplesmente surgem nas proximidades do jogador. Para fugir, basta se manter fora da vista dos oficiais por alguns segundos, mas isso é mais fácil dito do que feito, principalmente com a falta de elementos adicionais, nas primeiras horas de jogo, para auxiliar nas escapadas. Mais do que gostaria, o jogador verá seu multiplicador e pontos de REP indo para o espaço ao ser preso ou ter seu carro destruído, junto com o suado dinheiro obtido nas corridas legais sob o Sol.

O cuidado para que o jogador entenda o que está fazendo parece ter ficado durante o dia, com o vale tudo das noites tornando as apostas muito mais altas, mas também mais frustrantes. É um fator que se encaixa com a história simples, de uma força policial que tem os corredores ilegais como grandes rivais, mas que acaba reduzindo a velocidade da diversão e do aproveitamento do título.

Desafio em Palm City

Correr de dia garante dinheiro; à noite, o ganho é em reputação, com Need for Speed Heat tendo uma história que leva o jogador por tudo isso (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Need for Speed Heat apresenta o que provavelmente é a experiência mais customizável dos últimos anos da franquia. Por mais que não traga as opções e interfaces simples do saudoso Underground, o grande expoente do tuning na franquia, o novo game apresenta uma miríade de opções que dá controle total ao jogador, tanto em elementos visuais quanto de performance.

Aqui, vale a pena citar o bom uso do caráter arcade do título. Caso o jogador prefira, pode permanecer o tempo todo com o carro que preferir e trabalhar nele de forma irrealista até que se torne uma máquina de velocidade — tente não sorrir ao ver um Fusca despontando na frente de bólidos esportivos arrojados, por exemplo. Senão, pode experimentar diferentes tipos de dirigibilidade com máquinas de categorias e marcas bem variadas, incluindo modelos clássicos ou figurões recentes.

Novamente, tais aspectos estão intimamente ligados aos sistemas de dinheiro e reputação. A grana, logicamente, serve para comprar peças e veículos, que vão sendo liberados na medida em que o jogador obtém REP. Mais uma vez, entra em jogo a combinação entre os dois momentos de Need for Speed Heat e também mais um fator de personalização, com o jogador podendo focar no que prefere e seguir em frente naquele objetivo, seja tunar uma caminhonete até o limite da performance ou adquirir a tão sonhada Ferrari.

Apesar disso, e mesmo com a existência de customizações que privilegiam um ou outro estilo de corrida, quem manda no jogo é o Drift. São raríssimas as provas sem curvas fechadas ou que exigem um domínio das derrapagens para vencer. Um acerto correto dos veículos em termos de velocidade ou dirigibilidade até ajuda nas retas e outros momentos, mas quem não souber lidar com esse aspecto, no fim das contas, vai ficar para trás.

As customizações em Need for Speed Heat tentam emular os velhos tempos de Underground, sem o mesmo carisma, mas com muito mais liberdade (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Quem quiser também poderá customizar o próprio personagem entre gêneros e roupas diferentes. Ele não é mudo, como normalmente acontece em games desse tipo, e por mais que a história não seja das mais envolventes ou interessantes, e eles também decepcionem do ponto de vista gráfico, você terá voz ativa nela e será um participante em pé de igualdade com qualquer outro protagonista, ao contrário do ser sem voz e refém das circunstâncias que normalmente aparecem por aí.

Ainda, vale a pena citar a ausência de dublagens para o português. Existem legendas disponíveis, mas ler a tradução enquanto pilota não é tarefa das mais confortáveis. Acima de tudo, porém, Need for Speed Heat deixa claro que seu foco está nas pistas, como deveria ser com todo grande jogo de corrida. A trama serve como plano de fundo, sendo previsível e até básica demais, mas há um claro direcionamento sendo feito aqui em prol daquilo que realmente importa. E não há problema nenhum nisso.

A trama de Need for Speed Heat relata a caça de policiais no encalço dos corredores ilegais; dublagem faz falta nos momentos de mais ação (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Mesmo assim, chamam a atenção os momentos em que o game deseja que você foque no enredo, com boa parte das missões da campanha envolvendo uma direção tranquila até um local de prova, enquanto uma conversa se desenrola no rádio. São segmentos de antecipação e que expandem a história dos personagens secundários, e mesmo não sendo necessariamente essenciais para a experiência, adicionam um toque de personalidade a ela.

Essa, aliás, é uma palavra que serviria bem para definir Need for Speed Heat, e um elemento que, mais uma vez, foi deixado de lado pela própria divulgação do jogo. Enquanto tentava atirar para todos os lados, a franquia perdeu o que a tornava única e aos poucos isso começa a voltar com o novo game. A Ghost Games, como dito, volta a ter tração e foco naquilo que funciona para os fãs da velocidade arcade.

Como todo carro com potencial para ser campeão, há um período de ajustes necessário, com o game passando, ainda, bem longe do pódio. Mas dá para dizer, sim, que a série finalmente está de volta nesse caminho, e por mais que ainda existam muitas arestas e serem limadas e gargalos que necessitam de resolução, o prognóstico é bom.

Need for Speed Heat é, sem dúvida, o melhor exemplar da série entregue pela Ghost Games em sua participação na saga. Caso ela resolva os problemas e, principalmente, os cacoetes do passado, a corrida entre ela e Forza Horizon pode ficar bem acirrada no futuro próximo. Os pilotos de mentirinha agora podem sorrir.

Need for Speed Heat foi testado no PlayStation 4 com cópia gentilmente cedida ao Canaltech pela Electronic Arts.


Fonte: Canaltech

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