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ANÁLISE-Presidente do BCE terá dificuldades para cumprir missão climática autoimposta

Por Balazs Koranyi e Francesco Canepa
Ministros das Finanças da zona do euro se reunem em Bruxelas

Por Balazs Koranyi e Francesco Canepa

FRANKFURT (Reuters) - Christine Lagarde chamou a luta contra a mudança climática de "missão crucial" para o Banco Central Europeu, mas ela terá dificuldades para honrar essas palavras com ações durante seus oito anos liderando a instituição financeira mais poderosa da Europa.

Embora o BCE possa usar sua plataforma para destacar os riscos financeiros associados às mudanças climáticas, seu mandato estritamente limitado de combater a inflação limitará o que Lagarde pode realmente fazer.

"É moderno incluir a mudança climática na discussão, mas no momento é muito barulho por nada", disse Angel Talavera, economista do Oxford Economics. "Não há muita coisa que o BCE pode fazer. A mudança climática não é realmente parte do mandato do BCE."

Os bancos centrais estão sob crescente pressão para fazer sua parte no combate às mudanças climáticas, e pioneiros como o chefe do Banco da Inglaterra, Mark Carney - que em breve assumirá um cargo de finanças climáticas da ONU - falam sobre isso há anos.

Eles temem que eventos climáticos extremos possam levar a grandes flutuações no crescimento econômico e resultar em aumentos nos preços dos alimentos à medida que as colheitas são destruídas.

Também poderia representar um risco sistêmico para o sistema financeiro através da exposição dos bancos a setores como o carvão, que podem se tornar menos viáveis pelas políticas necessárias para combater as mudanças climáticas.

Enquanto o chairman do Federal Reserve, Jerome Powell, disse que lidar com as mudanças climáticas não é um trabalho para o banco central dos EUA, Lagarde confirmou ao Parlamento Europeu esta semana que essa preocupação fará parte de uma revisão da política do BCE. Mas ela esfriou as expectativas de grandes mudanças, apresentando uma lista pequena de opções a serem discutidas.


INDEPENDÊNCIA AMEAÇADA

O BCE, já comprando até de 20 bilhões de euros em dívida por mês para reduzir os custos de empréstimos e gerar inflação, poderia usar seu poder de fogo financeiro para comprar mais ativos "verdes", argumentam alguns.

Mas abandonar o princípio da neutralidade de mercado pode ser visto como arriscado demais para os tecnocratas não eleitos do BCE, questionando a independência do banco e abrindo-o a ataques políticos que poderiam minar sua política monetária.

O BCE poderia receber um mandato político explícito para combater as mudanças climáticas, mas isso exigiria uma revisão do Tratado da União Europeia - um processo notoriamente difícil que exigiria o consentimento de todos os 28 países da UE e que parece ser profundamente impopular entre os banqueiros centrais.

"Eu realmente penso que o mandato como está faz um bom trabalho, então eu não iniciaria uma discussão sobre mudar o mandato", disse Isabel Schnabel, próxima representante da Alemanha no Conselho do BCE.

Os presidentes do banco central alemão, Jens Weidmann, e do banco central italiano, Ignazio Visco, normalmente em posições opostas nos debates políticos do BCE, argumentaram publicamente que combater a mudança climática é uma tarefa dos políticos eleitos.

O banco tem alguma margem de manobra para agir de acordo com o Tratado da UE, que o apela a "apoiar" as políticas econômicas gerais do bloco desde que não haja conflito com seu mandato de inflação.

Se as agências de classificação de crédito considerassem o risco climático em sua avaliação, o BCE poderia diferenciar os ativos sem desistir da neutralidade do mercado.

Mas, mesmo assim, o conjunto de ativos verdes é limitado e os critérios de inclusão são mal definidos. Se o BCE comprasse em excesso um setor específico, isso aumentaria o preço dos ativos e levaria a acusações de que está fornecendo um subsídio direto.

O BCE planeja incorporar os riscos climáticos em sua análise econômica, embora sua política monetária "tamanho único" signifique que qualquer decisão com base nisso que possa semear a divisão entre países da zona do euro cuja abordagem ao assunto varia.