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Análise: PIB e câmbio pressionado esfriam apostas em juro menor

Josue Leonel

(Bloomberg) -- A melhora na perspectiva de crescimento da economia, combinada a dados efetivos de atividade acima do previsto, esfriou as apostas mais otimistas para o corte da Selic. Além disso, o mercado também fica mais cauteloso com os juros devido à disparada do dólar, que bateu recorde de fechamento acima de R$ 4,20 com a frustração da presença estrangeira no leilão do pré-sal, o receio dos investidores com os protestos no Chile e o menor diferencial entre as taxas internas e externas.

Os cortes adicionais de juros embutidos na curva de juros, que eram de 62,5 pontos base uma semana atrás, diminuíram para 57,3 pontos nesta segunda-feira. Aumentou a probabilidade de um novo corte de 0,50 ponto percentual da taxa básica em dezembro ser o último do atual ciclo de alívio monetário. Embora uma redução adicional para 4,25% no início do próximo ano não seja descartada, sua probabilidade caiu para cerca de 30%. Entre os economistas, previsões de uma Selic menor, de até 4%, ainda são encontradas.

O mercado já começou a reduzir apostas mais otimistas em cortes de juros desde o comunicado do último Copom, quando o Banco Central disse que eventuais ajustes adicionais na política monetária em 2020 seriam feitos com cautela. Na semana passada, as apostas diminuíram ainda mais após números de vendas no varejo e setor de serviços, além do IBC-Br divulgado pelo BC, que superaram as estimativas.

Nesta segunda, foi a vez de a pesquisa Focus mostrar que a projeção mediana de PIB do mercado para 2020 subiu de 2,08% para 2,17%. Analistas veem espaço para novos aumentos nesta projeção.

Se os números da economia continuarem superando as previsões neste último trimestre, o BC poderá interromper o corte dos juros antes do inicialmente previsto, diz Andres Abadia, economista da Pantheon Macroeconomics. Diante de incertezas, como as representadas pela guerra comercial entre EUA e China, Abadia ainda vê um crescimento do PIB limitado a 2% em 2020 e o BC fazendo um último corte de 0,25 pp da Selic em fevereiro, mas reconhece que os dados recentes acima do estimado diminuem as chances de uma redução adicional da Selic no próximo ano.

Mais do que o crescimento, a pressão cambial pode desencorajar cortes mais ambiciosos da Selic, diz Gustavo Rangel, economista-chefe do ING. “A Selic baixa está mudando muito os incentivos de funding no Brasil e isso está afetando o câmbio de maneira negativa”, diz Rangel. Para ele, frustração com a cessão onerosa ajudou a impulsionar o dólar, mas o fator de mais peso é o juro em nível historicamente baixo, que seria a principal explicação para o fluxo cambial negativo.

O BC ainda terá espaço para um último corte de 0,25 pp em fevereiro, diz Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos. Para ela, o mercado já vinha trabalhando com números melhores para a economia em 2019 e 2020 mesmo antes da última pesquisa Focus do BC. “O mercado já antecipou melhora na atividade. Dúvida agora é sobre o quão persistente será essa melhora no ano que vem.”

--Com a colaboração de Igor Sodre, André Romani e Patricia Lara.

Para entrar em contato com o repórter: Josue Leonel em Sao Paulo, jleonel@bloomberg.net

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