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Análise | Mafia 2: Definitive Edition é uma remasterização desleixada

Felipe Demartini

A comemoração por trás do anúncio de uma coletânea da série Mafia já deixa claro que, aqui, estamos falando de nomes de peso. E quando se comenta sobre o segundo game da série, o sentimento, na maioria das vezes, é de adoração, com o game sendo comumente citado como um dos melhores da geração passada e de sua própria série. Aspectos que não foram muito bem transportados nesse salto da marca para as plataformas atuais.

O resultado é quase tão confuso quanto a própria dinâmica do lançamento. A coletânea foi anunciada com pompa e circunstância por meio de um remake do primeiro jogo da série, mas esse, na verdade, só chega em agosto. O que temos em mãos, afinal, é a chamada “versão definitiva” de Mafia II e um pacote de mesmo nome para o terceiro que, na verdade, reúne todos os DLCs do game mais recente. Uma abordagem estranha e, em muitos aspectos, frustrante.

O sentimento de que algo está esquisito aparece logo que se inicia o game. Os gráficos são mais bonitos, é verdade, principalmente por um trabalho de otimização na iluminação, que ganhou contornos e detalhes mais realistas, e pelas texturas em maior resolução. Há mais detalhamento em modelos de personagens, principalmente naqueles que levam a trama para a frente, e também no próprio mundo.

Esse trabalho fica mais evidente nas cutscenes, onde dá para perceber todas as nuances do design de personagens bem característicos da época que a 2K desejou retratar e do tipo de história que está sendo contada. Cicatrizes no rosto, cabelos penteados com brilhantina e expressões faciais saltam aos olhos enquanto a boa história se desenvolve e a visão de uma cidade fictícia dos Estados Unidos no começo dos anos 1950 se apresenta aos olhos do jogador.

Enquanto as marcas da guerra recém-acabada ainda estão fortes para todos — e o game faz questão de pontuar isso em seus momentos iniciais —, temos uma outra batalha acontecendo, mas por poder. O imigrante siciliano Vito Scaletta é o personagem central, que após retornar do front italiano, começa a trabalhar para mafiosos e, com suas ações, vai ascendendo na estrutura do crime organizado.

Efeitos da remasterização são sentidos, principalmente, na iluminação e nível de detalhes dos personagens principais de Mafia II Definitive Edition (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O novato, claro, acaba se envolvendo no combate entre as diferentes facções de criminosos. Aliado à família Falcone, o protagonista se vê em conflito com outras organizações mafiosas e também grupos irlandeses e chineses, bem como gangues de rua que controlam diferentes distritos da cidade. Essa experiência aparece aqui na íntegra, junto com todo o conteúdo adicional, com o pacote completo recebendo o tratamento para propiciar esse relançamento.

E é justamente nesse aspecto que estão todos os problemas de Mafia 2 Definitive Edition, perceptíveis desde a primeira cena, ainda na guerra, e atravessando toda a experiência com o título. São bugs, falhas de performance e evidências de um trabalho que parece feito pela metade e de maneira completamente preguiçosa.

Mundo engasgado

O mundo aberto de Mafia II Definitive Edition não é necessariamente lotado de coisas, o que torna o quão mal ele roda nos consoles ainda pior (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Mafia II: Definitive Edition carrega consigo todos os elementos de um game de mundo aberto de geração passada, com direito à movimentação truncada, fruto de joysticks não necessariamente precisos, e o mundo aberto vasto, mas com poucos elementos. Tudo isso também aparece aqui, e claro, não deve ser usado como argumento para negativar o título — afinal, falamos de uma experiência pensada e lançada há dez anos.

Dentro desse aspecto, aliás, vale a pena citar algumas boas ideias que nem sempre aparecem por aí. A polícia de Mafia II, por exemplo, tem maior consciência do que está acontecendo do que na maioria dos games do gênero e vai perseguir o protagonista por excesso de velocidade ou barbeiragens no trânsito. O mesmo vale para quem anda de arma na mão ou arruma briga na rua.

Os jogadores também tem de tomar cuidado com o nível de gasolina dos carros, principalmente em situações de fuga ou antes de aceitar missões que envolvam veículos. Vito tem menos energia e sofre mais dano do que os personagens da maioria dos games do gênero, o que tona uma ação de trocar de carro não tão simples quanto em GTA, por exemplo — e ainda tem o fato de que quebrar janelas ou arrombar portas não é fácil, nem algo que você deseja estar fazendo enquanto a polícia ou outros mafiosos estão no seu encalço.

Mafia II tem dinâmicas peculiares em seu mundo aberto, o que faz com que ele chame atenção entre outros games do gênero (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Entretanto, ao mesmo tempo, os aspectos de geração passada de Mafia II também nos levam a crer que, em um hardware superior, o game rodaria melhor do que nunca. Mas é exatamente o inverso. Essa chamada “edição definitiva” apresenta, no PlayStation 4 e Xbox One, desempenho bem pior do que em suas contrapartes de geração passada, principalmente no que toca a contagem de quadros por segundo.

O stutter é constante, principalmente nos momentos em que estamos dirigindo pelas ruas vazias da cidade. O tempo todo, a sensação é de que o game está engasgando, enquanto a taxa de frames também cai a níveis perceptíveis durante as cenas de combate e perseguição, principalmente aquelas envolvendo muitos veículos ou personagens.

Tais problemas acontecem tanto nos consoles, não importando se a jogatina acontece nas versões mais potentes ou básicas do Xbox One e PlayStation 4, como também nos PCs. Nos computadores, enquanto as texturas aparecem ainda mais bonitas e detalhadas, as quedas na taxa de quadros por segundo também são constantes em diferentes hardwares, devido aos mesmos problemas de otimização das outras plataformas.

Quedas na taxa de frames, bugs e travamentos de personagens, aliados e inimigos são comuns em Mafia II Definitive Edition (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Falando neles, aliás, há outro problema constante com NPCs, que travam no lugar onde estão, se tornando postes invencíveis, ou simplesmente não se comportando como deveriam. Aliados podem não seguir adiante em um caminho predeterminado, o que impede o andamento das missões, ou podem simplesmente caírem mortos sem motivo algum, levando à falha no objetivo — isso sem contar os momentos em que a fase é simplesmente interrompida por uma tela preta e reiniciada sem motivo algum.

Um bug bizarro, ainda, assola os jogadores de PlayStation 4 que utilizam fones de ouvido para jogar. Durante as cutscenes, o áudio das vozes dos protagonistas sai apenas do lado esquerdo, enquanto todo o som ambiente vem pelo lado direito. Atualizações posteriores não resolveram o problema que, aparentemente, acontece apenas no console da Sony.

Mafia II é um game que vale a pena conhecer, mas a remasterização, por incrível que pareça, não representa sua melhor versão (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Mafia 2 Definitive Edition é o tipo de jogo que passa a impressão de nem mesmo ter sido submetido a testes de qualidade, afinal de contas quem daria o aval para lançamento de um título nesse estado? Para os mafiosos de primeira viagem, a experiência passa longe da aceitável e, inclusive, faz questionar sobre os motivos pelo qual esse título é considerado um dos melhores da geração passada. A resposta é clara: o jogo não é esse.

Os problemas suplantam em inúmeras vezes até mesmo as novidades boas trazidas pela remasterização, como o acesso em plataformas atuais e o fato de ele estar disponível com legendas em português, um elemento inédito. Mafia II é um jogo que vale a pena conhecer sim, mas não nessa Definitive Edition, que está longe de ser a melhor maneira de fazer isso.

Mafia 2 Definitive Edition foi testado no PlayStation 4 e PC com cópias gentilmente cedidas pela 2K Games ao Canaltech


Fonte: Canaltech