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Análise | Gods Will Fall transita entre desafio, simplicidade e muitos problemas

Felipe Demartini
·7 minuto de leitura

O combate contra deuses violentos e nem sempre justos não é necessariamente uma novidade no mundo dos games, entre espartanos bons de guerra e humanos poderosos como uma fênix. Gods Will Fall, entretanto, tenta dar um ar um pouco mais dramático e, principalmente, soturno a esse conflito, mostrando, exatamente, o que acontece quando as pessoas decidem se rebelar contra divindades que exigem um culto cego às próprias personalidades.

O ensejo, claro, é de tragédia, com esse grupo de guerreiros sendo o que restou de uma sociedade que se cansou dos sacrifícios, dogmas e fidelidade a qualquer custo. Eles sabem estar diante de uma batalha cujos ventos são contrários, mas também entendem que a escolha é entre morrer ou morrer com uma pequena chance de, talvez, prosperarem. Esse ônus é colocado sobre o jogador logo no início do título da Clever Beans.

A ideia aqui é de um rogue like simples em sua essência e com boas ideias que até soam interessantes quando descritas, mas acabam mal executadas. Entre as belezas de cenários com bastante variação e um progresso que aparenta ser livre, estão também graves problemas de performance e controle que acabam por colocar tudo a perder logo de início, com poucos artifícios para instigar de verdade os jogadores.

Sempre que algo interessante ou diferente do usual surge, a realidade do combate travado de Gods Will Fall aparece para nos derrubar. Após a cutscene inicial e um breve tutorial, somos jogados com tudo no mapa aberto da ilha em que o game se passa, com os soldados remanescentes livres para escolherem o deus pelo qual desejam iniciar a matança. Eles têm diferentes níveis de dificuldade, como o título deixa claro, mas o caminho a seguir depende inteiramente do jogador.

Escolha sua morte

<em>Mapa de Gods Will Fall é aberto e o jogador pode escolher quais dungeons deseja encarar primeiro, mesmo que não tenha muitas informações sobre elas (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)</em>
Mapa de Gods Will Fall é aberto e o jogador pode escolher quais dungeons deseja encarar primeiro, mesmo que não tenha muitas informações sobre elas (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

É um sistema aos moldes dos antigos games de Mega Man, nos quais também podíamos escolher qualquer chefe de fase para enfrentar e, por trás disso, existia uma lógica de confronto. Funcionaria também em Gods Will Fall não fosse o fato de o jogador não ter nenhum tipo de informação nem incentivo à tentativa e erro, com as escolhas mal feitas pesando como uma bigorna sobre a cabeça de guerreiros que, somente após invadir uma masmorra, enfrentando minions antes do chefe final, descobrem não serem páreos para os desafios.

Não é possível voltar atrás e refazer a escolha, com o game tendo um tipo de morte permanente que, também, soa interessante na teoria (e somente nela). Combatentes derrotados em uma dungeon ficam presos nela até que outro herói consiga vencer o deus que ali se esconde, libertando todo mundo de uma vez junto com os upgrades oriundos dessa vitória — itens nem sempre úteis, que fazem pouca ou nenhuma diferença no andamento dos confrontos. Caso o jogador resolva desistir, também perderá o personagem da mesma maneira.

<em>Guerreiros possuem atributos diferentes e, da mesma forma, dungeons de God Will Fall também podem ser mais fáceis com os personagens corretos (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)</em>
Guerreiros possuem atributos diferentes e, da mesma forma, dungeons de God Will Fall também podem ser mais fáceis com os personagens corretos (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

O estilo não conversa bem com outro caráter central da jogabilidade de Gods Will Fall, que reúne personagens com diferentes estilos, habilidades e armas. Alguns são mais rápidos e possuem armas com alcance maior, outros são corpulentos e resistentes, feitos para atacar de perto e partir para a pancadaria franca. Os desafios, também, dialogam com tais características, mas novamente, o jogador não sabe o que está fazendo até, efetivamente, se deparar com um desafio que, muitas vezes, pode se provar intransponível.

É o caso, por exemplo, de um dos estágios mais bonitos de Gods Will Fall, no qual encaramos a criatura Methir-Shirraidh. Estamos em um labirinto de pontes e penhascos ideais para um guerreiro pesado, capaz de lançar os oponentes das beiradas ou acabar com eles rapidamente, já que não há muita margem de manobra. Isso vale até chegarmos ao final, quando somos completamente dilacerados por um deus que dispara flechas à distância e exige uma agilidade que, até então, era desincentivada completamente.

Uma surpresa desagradável, para dizer o mínimo, que também dificulta o progresso de maneira geral. A falta de informação faz com que, muitas vezes, o jogador se veja sem personagens ideais para seguir adiante, contemplando reiniciar a aventura do zero como uma possibilidade. Quando um game torna recomeçar tudo de novo algo plausível, você sabe que muitas coisas estão um bocado erradas.

<em>A dificuldade de Gods Will Fall é alta e insconstante, com surpresas desafiadoras rapidamente transformadas em uma punição frustrante (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)</em>
A dificuldade de Gods Will Fall é alta e insconstante, com surpresas desafiadoras rapidamente transformadas em uma punição frustrante (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Por outro lado, não é como se, quando o jogador acerta sem querer a combinação entre o desafio proposto e o guerreiro escolhido, as coisas funcionem muito melhor. Gods Will Fall apresenta uma jogabilidade altamente travada e pesada, com um atraso perceptível entre o pressionamento de botões e a resposta na tela, um aspecto que não se encaixa nada bem com a alta dificuldade aplicada às fases. Quedas na taxa de quadros por segundo também são constantes, e durante as batalhas, podem dificultar tudo ainda mais.

Existem poucas opções de ataques e, na maioria dos casos, a mudança depende mais do tipo de arma utilizada que do próprio guerreiro. Serão comuns os momentos em que o personagem será espancado enquanto o jogador tenta reagir diante desse lag infernal, assim como as esquivas que não funcionarão como deveriam, causando dano ou, pior ainda, a queda de um abismo. Lá se vai mais um herói e, cada vez mais, aumenta a vontade de desligar o vídeo game.

<em>Gods Will Fall chama a atenção pelo design de deuses e criaturas, bem como pela beleza e inspiração de seus cenários (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)</em>
Gods Will Fall chama a atenção pelo design de deuses e criaturas, bem como pela beleza e inspiração de seus cenários (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Algumas escolhas de design são positivas, como a ideia de que, quanto mais minions derrotados, menor a barra de energia do chefe final. Esse é um aspecto que incentiva a exploração dos belíssimos cenários criados para o game e, também, coloca o jogador em uma posição de escolha, entre ir direto ao ponto e se arriscar, ou enfrentar mais inimigos, tendo a chance de ser cercado ou emboscado, de forma a facilitar o confronto final.

Chama a atenção, também, o desenho das próprias criaturas, altamente inspiradas e, muitas vezes, aterrorizantes, ajudando na construção deste mundo em que os deuses não são nada além de maléficos e opressores. Vale a pena citar, também, a forma criativa como histórias pessoais são contadas, a partir da reação dos guerreiros à morte de um companheiro ou pela preocupação expressada quando um deles decide seguir sozinho para o interior de uma masmorra.

<em>Relações entre os personagens de God Will Fall vai sendo revelada de acordo com as reações deles durante as lutas, em uma forma diferente de contar pequenas histórias (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)</em>
Relações entre os personagens de God Will Fall vai sendo revelada de acordo com as reações deles durante as lutas, em uma forma diferente de contar pequenas histórias (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

São elementos assim que tentam levar o jogador para a frente, enquanto as decisões erradas de praticamente toda a obra depõem fortemente contra ela. Da proposta apresentada na cutscene inicial e todo o potencial que imaginamos quando começamos a explorar esse mundo, Gods Will Fall se transforma rapidamente em uma experiência altamente frustrante.

O desafio pelo desafio, apenas, não é suficiente, sendo preciso entregar informação e subsídios para que seja possível, pelo menos, fazer uma aposta consciente. Caso contrário, o que temos é uma aleatoriedade punitiva que agrada pouco e ainda desperdiça a premissa interessante, em uma batalha vencida na qual existe pouca chance de reação.

Gods Will Fall foi lançado em 29 de janeiro de 2021 para PC, PlayStation 4, Nintendo Switch e Xbox One. No Canaltech, o jogo foi analisado no PS4 em cópia digital gentilmente cedida pela Deep Silver.

Fonte: Canaltech

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