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ANÁLISE-Descanse em paz, orientação futura: inflação força BCs a abandonar ferramenta de sinalização

Por Sujata Rao e Dhara Ranasinghe

LONDRES (Reuters) - Se o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, acabou com sua orientação futura (ou "forward guidance") no mês passado, o Banco Central Europeu (BCE) pode ter colocado o último prego no caixão da ferramenta que os formuladores de política monetária há muito usam para comunicar suas intenções aos mercados financeiros.

O BCE promoveu alta de 0,50 ponto percentual em sua taxa de depósito nesta quinta-feira, o dobro do que havia sinalizado em junho ao estabelecer seus planos de aperto monetário. O banco só pareceu ter mudado de rumo no início desta semana, quando fontes disseram à Reuters que um aumento maior nos juros tinha passado a ser considerado.

A mudança para o que o próprio BCE descreveu como "abordagem reunião por reunião" é o mais recente alerta para investidores e operadores, que têm visto autoridades de vários bancos centrais --da Austrália à Suíça e à Suécia-- mudando de estratégia de maneira surpreendente em relação a sinais de política monetária emitidos apenas semanas antes.

Talvez o indício mais claro de que o fim de jogo já chegou para a orientação futura tenha vindo em junho, quando o Fed elevou os juros em 0,75 ponto percentual, apenas um mês depois que seu chair, Jerome Powell, descartou ajuste de tal magnitude.

"Está morta e enterrada", disse Peter Kinsella, chefe global de estratégia cambial da gestora de ativos UBP, que há meses leva "zero em conta" a orientação futura de bancos centrais.

"Foi uma ferramenta que os bancos centrais usaram quando a inflação estava muito baixa, basicamente para dizer 'manteremos os juros baixos por muito tempo' para incentivar os consumidores a continuar gastando."

Mas a inflação está de volta com força total, chegando a 8,6% na zona do euro, impulsionada pelos preços de energia e alimentos. Os números tornaram obsoleta a promessa do BCE de iniciar os aumentos de juros com um movimento modesto.

"À medida que dados são divulgados no decorrer do período entre o início da orientação e o momento real de entrega desses aumentos (de juros)... e a especulação começa a aparecer, isso pode aumentar a volatilidade em si", disse Gareth Hill, gestor de portfólio da Royal London Asset Management.

Isso significa que a formulação de estratégias de investimento está prestes a se tornar mais difícil para investidores acostumados a escanear declarações de política monetária em busca dessas palavras mágicas: "período prolongado".

Mesmo nesta nova ordem mundial, os bancos centrais continuarão orientando os mercados até certo ponto, talvez para apertar as condições financeiras e domar as expectativas de inflação.

Nick Kounis, analista da ABN AMRO, está entre os satisfeitos com uma abordagem mais dependente de dados.

"Aqui você está tentando entender os dados e a orientação futura e se isso mudará. Isso cria muita complexidade para qualquer um que tentar entender o que um banco central está tentando fazer", disse Kounis.

O comunicado do BCE "sinalizou a morte bem-vinda de uma orientação futura específica demais", acrescentou.

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