Mercado abrirá em 4 h 52 min

Análise | Dandara: Trials of Fear é a antropofagia dos games

Wagner Wakka

A produção brasileira de jogos já é bastante antiga. Existem games que falam sobre o nosso país, que buscam exportar aquilo que é típico da nossa terra, como as lendas regionais. Contudo, poucos games fazem uma mistura tão boa da cultura brasileira com as mecânicas universais de jogos quanto Dandara.

Lançado em fevereiro de 2018, o game chamou atenção (inclusive da mídia internacional) por dois fatores. O primeiro foi a mecânica de movimentação. A protagonista, Dandara, não se move livremente, mas saltando pelos cantos da tela. Só essa adição ao gênero metroidvânia já deu ao estúdio brasileiro Long Hat House o olhar de curiosidade do mercado.

Contudo, para quem é do Brasil, Dandara tem uma chamariz a mais. O título adiciona à fórmula dos metroidvânias pitadas de um tempero muito regional. Por exemplo, no lugar das estátuas de Chozo, de Metroid, está Abaporu, dos quadros de Tarsila do Amaral, na mesma posição. A referência é direta.

A Long Hat House fez o que este jornalista que vos escreve apelidou de “antropofagia nos games”. O termo deriva dos livros de literatura, da Semana de Arte Moderna. Explico.

Tal qual a literatura, o desenvolvimento de jogos brasileiros nasceu da vontade de colocar nossa cultura nos games. Aqui, floresceram basicamente duas vertentes de desenvolvedores: os que querem fazer um jogo para o Brasil, com temas do Brasil; e os que querem exportar sua obra, sem nem mesmo tangenciar a cultura brasileira.

O que Dandara faz é absorver os conceitos universais dos jogos, importar mecânicas e referências, mas ruminar sob uma análise de como a cultura brasileira se encaixa nisso. O que Oswald de Andrade chamaria de “antropofagia cultural”.

Voltando ao exemplo de Abaporu, não à toa, Tarsila é referenciada aqui. O artista Victor Leão pegou um elemento clássico dos jogos do gênero metroidvânia, a estátua de Chozo, e o transformou em algo essencialmente brasileiro, na figura do personagem de Tarsila do Amaral. Ele próprio confirmou essa intenção em entrevista ao Canaltech.

Personagem Tarsila, representada como uma estátua de Chozo (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

O que os desenvolvedores fizeram foi inverter a lógica da produção. No lugar de partir da referência para a criação (ou seja, de fazer um jogo sobre a cultura brasileira), eles criaram um metroidvânia e inseriram suas próprias referências.

“Eu acho que a questão da ordem é importante. A gente queria fazer um jogo e colocar nossas referências, e não pegar uma referência e fazer um jogo em cima. Os elementos entram de uma forma orgânica, não como algo que força o jogo em uma direção que, às vezes, não fica interessante comercialmente. O jogo tem que vir antes da referência”, explica Lucas Mattos, programador e cocriador do estúdio.

Foi essa mistura de mecânica inovadora com um toque cultural denso que fez Dandara cair no gosto dos jogadores. O título fez sucesso suficiente para que a Long Hat House lançasse um DLC, Trials of Fear, totalmente gratuito.

Novo conteúdo adiciona inimigos, elementos e golpes (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Novo conteúdo

Segundo os desenvolvedores, uma das questões do Dandara básico é que ele não tinha muito texto. “Nossa regra é de ‘show, don't tell’. A gente não sabia escrever, então optamos por isso”, explica João Brant, programador do game. Ou seja, a proposta era contar a história pelo não-dito, pelas imagens não-verbais.

Contudo, eles receberam dois feedbacks sobre isso. O primeiro era de que os jogadores queriam se aprofundar naquele mundo culturalmente complexo e propunham debates metafóricos a cada novo chefão.

Outra questão apontada pelos jogadores é que os personagens sempre falam a mesma coisa depois que você passa por eles. Isso quer dizer que, se você era alertado sobre um grande inimigo por alguém, mesmo após derrotar esta ameaça, o personagem continua com o alerta. “Os jogadores voltavam para os NPCs [personagens não-jogáveis] e conversavam para saber se tinha algo novo depois de alguns eventos. Eles falavam sempre a mesma coisa, independentemente do que acontecia. Uma coisa simples que a gente mudou para o DLC”, conta Mattos.

Jogador agora pode girar mapa para saber onde é norte (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Com isso, Dandara ganhou mais corpo. Agora, itens trazem um pouco mais da história do mundo, sendo que personagens têm mais diálogos. “O texto do jogo triplicou”, informa Brant. Para isso, o time contou com a participação do escritor Mike Harrington, que ajudou a evoluir o texto do DLC, junto a outros nomes focados em narrativas, como os escritores Anna Bobreková e Rufio of the Void.

Mas o pacote adicional não traz apenas mais diálogos. Para quem já terminou o título-base, há quase o dobro de conteúdo para jogar. “O DLC de Dandara adiciona áreas, conteúdo, tempo de jogo, mais elementos, inimigos”, conta Mattos. “O mapa é tão grande quanto o jogo original. Não significa que é o mesmo tempo de jogo, mas é muito conteúdo. É quase o dobro de área para ser explorada”.

A expectativa é de que, somando as adições, o jogador tome cerca de 20 horas para consumir tudo que Dandara tem a oferecer. No total, são três novas grandes áreas, um novo chefão, uma nova habilidade, além de músicas inéditas. “A gente também tem um final secreto agora”, adiciona Mattos.

De graça? 

O DLC chega gratuitamente para quem já tem Dandara. Trata-se de uma estratégia rara na indústria dos games, mas que tem uma boa justificativa. Para quem comprou o título, recebe mais conteúdo sem precisar pagar a mais por isso. “Uma forma de presentear quem nos apoiou”, diz Mattos.

Ambiente do jogo é tão grande quanto título base (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Por outro lado, isso faz de Dandara ainda mais convidativo para quem ainda não conhece o game, já que é mais conteúdo pelo mesmo preço. “Por uma questão mercadológica, muito mais gente não jogou Dandara do que tem gente que gostou o suficiente para comprar mais dele. Estaríamos limitando muito com um DLC pago, no lugar de trazer mais pessoas. É quase um relançamento para nós, o que vale muito a pena”, confessa Mattos.

Vale a pena? 

Mergulhar em Dandara é um misto de restrição com a história metafórica que nos diz muito sobre o que é nosso tempo. O título critica o militarismo, a mídia manipuladora, o esquecimento cultural e muitos outros temas que se mostram cada vez mais pungentes na atualidade.

Além disso, ao não permitir que a personagem tenha completa movimentação, apenas saltando pelas paredes, isso nos ensina a pensar sobre superação no momento em que a liberdade não é uma escolha. Ou seja, Dandara é olhar sob nós de uma forma divertida e desafiadora.

Para além da subjetividade, os novos ambientes de Trials of Fear também trazem inimigos mais complexos e difíceis, inclusive para quem já está bem ambientado à mecânica do game. Um gostinho a mais para o já suficiente jogo base.

Dandara funciona como uma obra crítica de arte em videogame deve ser: divertida no seu aspecto lúdico e tocante na questão metafórica. Algo concomitantemente prazeroso e difícil de digerir, como uma antropofagia cultural. De quebra, o jogador compra dois produtos (game base + DLC) pelo preço de um, o que em tempos de dólar nas alturas é sempre uma boa pedida.

Elementos de Dandara vão garantir horas de diversão (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Dandara: Trials of Fear Edition, pacote que conta com a expansão, está disponível para PlayStation 4, Xbox One, PC, Switch, Android e iOS. O título foi desenvolvido pela Long Hat House e publicado pela Raw Fury Games. No Canaltech, o jogo foi analisado com uma cópia de PlayStation 4 gentilmente cedida pelo estúdio.


Fonte: Canaltech

Trending no Canaltech: