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‘Amor só de mãe’: um retrato sem julgamentos das mulheres encarceradas

Ponte Jornalismo
·4 minuto de leitura

por Fausto Salvadori

“Universitário no prédio, universitário no prédio!” As presas da Cadeia Pública de Franca, no interior de São Paulo, gritavam e batiam nas grades quando viram duas jovens adentrarem os muros da prisão e caminharem em direção ao pátio, em uma tarde de 2016. Só de olhar, as detentas perceberam o que Catharina Scarpellini e Julia Hannud eram: duas estudantes em busca de histórias.

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Alunas de cinema na Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), na capital paulista, as duas sonhavam em produzir, como trabalho de conclusão de curso, um documentário sobre a vida de mulheres aprisionadas. Para isso, contudo, precisavam que as retratadas concordassem. Tinham autorização do delegado responsável pelo estabelecimento, mas ele deixou claro que o aval cabia às encarceradas. As duas universitárias não sabiam nada sobre o sistema prisional e não entenderam por que, das 140 detidas no local, apenas um grupo de dez mulheres foi se encontrar com elas no centro do pátio e ouvi-las sobre sua proposta.

“Aqui quem comanda é o quinze-três-três”, anunciou uma delas, referindo-se às três letras da sigla PCC (Primeiro Comando da Capital). As estudantes disseram que não sabiam do que se tratava. As presas riram e foram até uma cela. Só mais tarde é que as duas aspirantes a cineastas viriam a entender que estavam falando com as “irmãs” da facção que comandavam aquela cadeia e que haviam entrado em uma cela para falar com as lideranças do Partido e saber se autorizariam a gravação do documentário. Dali a pouco as “irmãs” voltaram com a resposta: sim, as duas universitárias estavam autorizadas a fazer seu filme.

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A autorização obtida naquela conversa do pátio permitiu que fizessem o curta Amor só de mãe, que as duas apresentaram como trabalho de conclusão de curso naquele ano. O formato de curta foi uma imposição da universidade, que só aceitava filmes de até 25 minutos. Mas elas tinham material suficiente para um longa-metragem. Longa que foi finalizado com o nome Saudade Mundão e que estreia em 3 de dezembro nas plataformas digitais. Enquanto isso, o curta pode ser visto aqui, no canal da Ponte no YouTube e no site do Yahoo Notícias.

Para a produtora e codiretora Julia Hannud, os quatro anos que separam as filmagens na cadeia e a estreia do longa-metragem só tornaram a obra mais atual. “Nesse momento em que a gente vive um governo racista, autoritário e que acredita na punição como meio de consertar seres humanos, esse filme traz uma grande resposta política: que a gente olhe essas mulheres como seres humanos e que não as julgue”.

Uma das presas de "Amor só de mãe" e "Saudade mundão". (Foto: Divulgação)
Uma das presas de "Amor só de mãe" e "Saudade mundão". (Foto: Divulgação)

Não voltar a julgar essas mulheres, que já foram julgadas e condenadas, é uma orientação que fica clara no olhar que as diretoras lançam sobre elas, tanto no curta como no longa. Julia conta que, quando leram notícias sobre o aumento do encarceramento feminino no Brasil e resolveram falar disso em seu trabalho de faculdade, a ideia inicial era abordar a arquitetura das prisões e como influenciavam na vida das presas. Quando começaram a ouvir as histórias das presas, mudaram de foco. Descobriram que seu filme falaria de gente, não de muros.

À medida que os dias se passavam, os muros entre cineastas e presas foram sendo rompidos. “Eu as escutava e tinha horas em que elas me escutavam, eu desabafava sobre coisas, contava de relacionamentos. Tinha horas em que eu sentava no chão, tomava água com elas, elas cozinhavam para a gente”, relata. A intimidade conquistada se reflete no retrato levado às telas.

A cineasta vê as detentas como “mulheres guerreiras que estão tentando sobreviver neste mundão”, pessoas que desde que nasceram tiveram de lidar com a ausência do Estado em todas as suas necessidades básicas. “Acredito que sejam vítimas, mas têm suas escolhas embutidas dentro de suas vidas e têm consciência disso”, ressalta.

Única mulher numa família de quatro irmãos, Julia conta que sempre quis conhecer melhor o universo da cumplicidade feminina e que o contato com essas mulheres a ajudou nisso.

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“Fazer esse filme mudou minha vida”, define. “Entender e escutar essas mulheres mudou minha concepção de mundo, minha concepção sobre relação, amor, lealdade, crime, uso de drogas, privação de liberdade. Eu devo muito a elas do que sou hoje. Foi uma escola da vida.” Ela se sente empolgada com o lançamento do filme. “Vai fazer as vozes delas ecoarem. Era o que a gente queria.”