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Ameaçada, militante muda rotina e vive constante insegurança

Ana Flávia diz que não tem mais como esconder seu rosto. Foto: Arquivo Pessoal

“Não tenho medo da morte, mas da covardia, de que forma isso poderia acontecer”. É com um misto de coragem e medo que a militante Ana Flávia do Nascimento, de 46 anos, conta sobre sua rotina convivendo com ameaças constantes. A pernambucana faz parte do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) de Rondônia e está com sua vida ameaçada.

De acordo com a militante, as ameaças começaram em 2016. O contexto daquele ano era de ampliação do reservatório da usina de Santo Antônio. Segundo ela, esse aumento iria atrapalhar ainda mais a vida das pessoas que moravam na região de Jaci Paraná, distrito de Porto Velho do qual ela faz parte.

No entanto, foi assinado um convênio para que os moradores tivessem compensações sociais que somavam R$ 30 milhões. Porém, as pessoas que vivem na região queriam fazer parte das discussões do que seria feito com esse valor.

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Nesse contexto, audiências começaram a ser feitas e Ana Flávia começou a chamar a atenção ao representar a comunidade. “A cada ano que fazíamos movimentos para garantir esses direitos, aumentavam as ameaças e perseguições”, disse a militante afirmando que sua vida não está fácil.

“Já entraram na minha residência por várias vezes. Algumas vezes, sem subtrair objetos. Deixaram uma faca em cima da minha cama, uma enxada, preservativo masculino… já fui vítima de perseguições por carro, recebi mensagem no WhatsApp, motos e carros ficam rondando minha casa e meu trabalho”, relatou Ana Flávia.

De acordo com a coordenação do movimento, em duas ocasiões, uma caminhonete tentou lançar a moto em que a militante estava para fora da estrada. “Um dia ela foi em uma cidade próxima e, de noite, cercaram a casa dela. Algumas pessoas de moto, outras de carro... eles chamaram a polícia, que chegou lá e o pessoal dispersou. Não identificaram ninguém”, afirmou uma liderança que não quis ter o nome divulgado.

A coordenação do movimento também afirmou que a militante e seus familiares já foram filmados e seguidos pelas ruas. Além disso, Ana Flávia também se sente ameaçada dentro do trabalho. Ela é auxiliar de serviços em saúde e trabalha em uma Unidade Básica de Saúde. 

Como ela e os colegas sabem dos riscos que ela corre, eles passaram a trancar o local durante a noite. No entanto, em julho deste ano, uma das chaves sumiu durante o período da noite. Além disso, o local já foi rondada por um carro cinza do tipo Siena com vidros escuros.

No movimento desde 2013, a militante afirma que, a cada ano, a situação dos moradores do local piora. “Começamos a sentir o impacto inicial após início das obras. Em 2014, a enchente afetou vários moradores dentro da comunidade. Eu sempre estive na luta, buscando que todos fossem reconhecidos e que tivessem seus direitos garantidos”, disse.

“De 2014 a 2015, fizemos lutas para que as pessoas que foram atingidas diretamente recebessem suas indenizações pelos impactos da enchente”, afirmou. Sendo assim, Ana Flávia e o movimento acreditam que ela acabou incomodando pessoas poderosas.

Para tentar se proteger, a militante fez alguns boletins de ocorrência, mudou de casa (local onde foram instaladas câmeras) e entrou para um programa de proteção de defensores dos direitos humanos. 

Segundo Raphael Bevilakua, do MPF (Ministério Público Federal), essa proteção para a militante fez com que ela pudesse mudar seus horários e também possibilitou que rondas militares fossem feitas perto da casa dela. Porém, ele afirma que a situação piorou recentemente.

“Os ameaçadores são cada vez mais ousados e a gente fica cada vez mais preocupado com a segurança dela. Se ela simplesmente se afastar da militância, quem está ameaçando vai alcançar o seu objetivo. Ela não pode se omitir diante de uma ameaça. Eu mantenho contato com ela e ela está tensa”, afirmou.

O mais recente revés enfrentado por Ana Flávia está acontecendo agora. O Governo do Estado de Rondônia decidiu fechar a base da Polícia Militar que ficava no distrito e a comunidade passou a ser atendida pelo policiamento de Nova Mutum.

Além disso, a delegacia de polícia em Nova Mutum está sendo fechada. Assim, o delegado responsável por acompanhar o caso foi transferido para outro município, deixando o inquérito sem delegado responsável.

“A minha localidade tem um alto índice de violência. Com isso, vou ficando mais vulnerável. Eu e todos moradores. Me sinto insegura. Quando solicitada, se a viatura não estiver dentro da localidade, tem um tempo mínimo de 10 a 15 minutos para atender a solicitação”, disse Ana Flávia.

Para o representante do MPF, a militante deveria ter um acompanhamento de proteção durante 24 horas. “Hoje, esse acompanhamento tem bastante deficiência e, com a mudança da base, vai piorar. A gente vai buscar que eles mantenham essa proteção e que isso não prejudique a segurança dela”, disse.

Mesmo com todas as ameaças, a militante afirma que não irá parar com suas atuações. “Dentro de uma luta, os perigos são constantes. Posso até perder lutando e ir adquirindo experiência para as próximas batalhas. Mas desistir? Não. Estou tentando me manter na localidade para que os moradores não desistam de lutar pelos seus direitos”, concluiu.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania de Rondônia para questionar sobre o caso de Ana Flávia e sobre o que está sendo feito para garantir a sua segurança. 

Além disso, o blog também questionou sobre a mudança da base policial que atende a região para outra localidade. Até o fechamento da matéria, a pasta não respondeu aos questionamentos. Caso a secretaria responda, o posicionamento será adicionado no texto.