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Ameaça ao teto e risco de pedalada fazem Bolsa cair mais 1%

JÚLIA MOURA
·3 minutos de leitura
*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 24-01-20109 - Cédulas de dólar. Papel Moeda. Dinheiro. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)
*ARQUIVO* São Paulo, SP, Brasil, 24-01-20109 - Cédulas de dólar. Papel Moeda. Dinheiro. (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS0 - A Bolsa brasileira teve nesta terça-feira (29) o segundo pregão seguido de queda, reforçando a reação adversa do mercado financeiro à proposta do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) para o Renda Cidadã.

O programa social que vai substituir o Bolsa Família tem entre suas fontes de financiamento alternativas consideradas inadequadas pelos analistas: os precatórios -dívidas de ações judiciais a serem pagas depois das sentenças definitivas- e Fundeb (fundo para a educação).

Ainda assim, os aliados do governo insistem em defender a proposta.

"Dá a impressão de que essa maluquice de furar o teto [de gastos] não é tão maluca para a turma de Brasília. Usar precatórios é basicamente dar um calote na ordem judicial de pagar um calote", diz Bruno Arruda, gestor da Gauss Capital, que considera a proposta como uma pedalada fiscal.

Nesta terça, o senador Márcio Bittar (MDB-AC), relator da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do Pacto Federativo, disse que o Renda Cidadã será incluso no seu relatório da forma como o governo o apresentou na segunda (28).

Já o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), tem dito nos bastidores que a proposta foi acordada com os demais líderes do Congresso, com a participação de integrantes da bancada da educação (a que mais se oporia ao uso da verba do Fundeb).

O mercado esperava a apresentação de uma alternativa para o programa, que, segundo o plano do governo, irá usar recursos que não estão sob o teto de gastos em um programa que está abaixo deste limite, o Bolsa Família. A proposta é foi vista por analistas como um drible no teto de gastos, mirando uma possível reeleição de Bolsonaro em 2022.

"São sinais muito ruins de Brasília. É preciso que encontrem outra maneira de bancar o Renda Cidadã ou que o governo sinalize corte de despesas. [A queda da Bolsa de hoje] é um desdobramento do cenário ruim", diz Rafael Cota Maciel, gestor de renda variável da AF Invest.

Nesta terça, o Ibovespa fechou em queda de 1,14%, a 93.580 pontos, menor valor desde 16 de junho.

Segundo o banco suíço Julius Baer, mesmo que os detalhes e a aprovação do programa ainda sejam incertos, o anúncio da proposta foi um golpe na credibilidade fiscal do país.

Em suas redes sociais, Bolsonaro rebateu críticas à proposta e afirmou que a responsabilidade fiscal e o teto são os "trilhos da economia. Estamos abertos a sugestões juntamente com os líderes partidários."

Na segunda, o Renda Cidadã teve uma reação negativa do mercado, com queda de mais de 2% da Bolsa e alta do dólar e dos juros futuros,.

No anúncio do programa, líderes do governo no Congresso também disseram que não há consenso com líderes partidários sobre a reforma tributária, mas que o governo prepara uma proposta de recriação da CPMF com alíquota de 0,2% sobre todas as transações financeiras.

Na tarde desta terça, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), criticou o ministro Paulo Guedes (Economia) por supostamente ter interditado o debate sobre a reforma tributária.

"Por que Paulo Guedes interditou o debate da reforma tributária?", escreveu Maia em sua conta no Twitter.

No after market, negociações após o fechamento do pregão diário, o Ibovespa amplou a queda para 1,5%, mas reduziu a desvalorização para 1,26% após Bolsonaro dizer que obedece o ministro Guedes.

O dólar fechou estável, a R$ 5,64, depois de oscilar entre altas e baixas com a apreensão do mercado com a saúde fiscal do Brasil. O turismo está a R$ 5,787.

No exterior, o pregão foi negativo à espera do primeiro debate presidencial nos Estados Unidos, entre o presidente republicano, Donald Trump, e o rival democrata, Joe Biden, nesta terça, às 22h (horário de Brasília).

Em Nova York, Dow Jones e S&P 500 caíram 0,5% e Nasdaq, 0,3%.

Com a alta no número de novos casos de Covid-19 nos EUA e na Europa, o petróleo caiu 3,3%, a US$ 41,03.