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Ameaça à oferta de petróleo favorece Brasil e dólar cai a R$ 5,03

*ARQUIVO* SAO PAULO - SP - 05.09.2013 - Bolsa de Valores na  Rua XV de Novembro em Sao Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
*ARQUIVO* SAO PAULO - SP - 05.09.2013 - Bolsa de Valores na Rua XV de Novembro em Sao Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar comercial caiu nesta segunda-feira (29) à menor cotação desde 15 de junho no mercado de câmbio brasileiro. A moeda americana fechou a sessão valendo R$ 5,033, o que significou um recuo de 0,88% em relação ao fechamento da semana passada.

Na comparação com as principais divisas mundiais, o real foi a que mais ganhou força neste dia.

A valorização de matérias-primas exportadas pelo Brasil, principalmente o petróleo, está atraindo investidores estrangeiros para o país, enquanto mercados internacionais apresentam perdas com a perspectiva de um período prolongado de aperto monetário.

Ameaças ao abastecimento de energia provocadas pela Guerra na Ucrânia, além de outras crises em regiões produtoras de petróleo, voltaram a provocar preocupações sobre a oferta nos próximos meses.

Na Líbia, confrontos entre milícias ameaçam interromper os embarques de petróleo em um momento em que a crise energética da Europa está piorando. O Irã, outro importante produtor, apontou dificuldades na conclusão do acordo nuclear com o Ocidente, do qual também depende o aumento do fluxo de óleo.

"A única negociação com a qual todos podem concordar é que o mercado de petróleo provavelmente permanecerá apertado", disse Ed Moya, analista de mercado sênior da Oanda, em entrevista à Bloomberg.

No encerramento desta segunda, o barril do petróleo Brent subia 3,75%, aos US$ 104,78 (R$ 528,33). Esse é o maior valor de fechamento desde 29 de julho.

Analistas ouvidos pela agência Reuters ainda destacaram que produtores de matérias-primas em geral estão trazendo recursos para dentro do país, em parte devido aos elevados juros pagos pela renda fixa local.

"Temos visto movimento de exportadores que vinham mantendo divisas em moedas globais internalizando recursos", disse Rodolfo Margato, economista da XP. "A recuperação das commodities explica esse desempenho superior do real."

Pelos dados mais recentes do Banco Central, na semana entre 15 e 19 de agosto, o fluxo de câmbio contratado para operações comerciais foi superavitário em US$ 1,1 bilhão. É o melhor resultado desde a semana finalizada em 1º de julho.

PETROBRAS SEGURA BOLSA EM DIA NEGATIVO NO EXTERIOR

Ações de empresas petrolíferas brasileiras refletiram o crescimento das apostas de investidores na elevação dos preços da commodity.

Na B3, a Bolsa de Valores Brasileira, o índice de ações Ibovespa sustentou uma leve alta de 0,02%, fechando com 112.323 pontos.

Ganhos dos papéis da Petrobras, que subiram mais de 2%, e de outras companhias do ramo contribuíram para evitar que o mercado local fosse completamente puxado para o fundo pelo desempenho ruim das principais Bolsas mundiais.

"Nosso principal índice acionário é composto em até 30% por empresas ligadas ao setor de commodities. Assim, a alta no preço de insumos básicos tende a nos beneficiar", comentou Alvaro Feris, especialista da Rico Investimentos.

Bolsas dos Estados Unidos e da Europa recuaram diante da expectativa de um longo período de aperto monetário pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano).

Em Nova York, o índice de referência S&P 500 caiu 0,67%. Londres e Frankfurt perderam 0,70% e 0,61%, respectivamente.

Na sexta-feira (26), o mercado passou a considerar a perspectiva de juros mais altos nos Estados Unidos após a fala do presidente do Fed, Jerome Powell, em Jackson Hole.

No simpósio de bancos centrais, Powell deixou claro que os juros nos Estados Unidos vão continuar subindo até que a inflação caia a um nível considerado seguro, mesmo que isso provoque forte desaceleração da economia.

"Uma falha em restaurar a estabilidade de preços significaria uma dor muito maior", afirmou Powell na sexta.

Mercados de ações das principais economias globais afundaram após o discurso de Powell.

Considerando uma visão de curto prazo, o mercado olhou para o simpósio em Jackson Hole para buscar pistas sobre o tamanho da alta da taxa de juros que o Fed irá aprovar em sua reunião de 20 e 21 de setembro.

Em um cenário em que o Fed considere a necessidade de continuar subindo a taxa de forma agressiva, analistas estimam uma elevação de 0,75 ponto percentual na taxa, atualmente na casa de 2,5% ao ano.

Esse foi o aumento aplicado nas duas últimas reuniões da autoridade monetária.

Para aqueles que esperam uma postura mais branda, a expectativa é de que a taxa suba em 0,50 ponto percentual. Após a fala de Powell, porém, é possível que as apostas em 0,75% ganhem um pouco mais de força.

Em seu discurso desta sexta em Jackson Hole, o presidente do Fed enfatizou que o aperto à taxa de crédito vai "continuar até que o trabalho seja feito", enderençando a fala justamente à parcela do mercado mais otimista quanto a uma eventual proximidade do fim do ciclo de alta dos juros nos EUA.

POR QUE OS JUROS NOS EUA AFETAM O BRASIL

Juros e inflação da principal economia do planeta têm impacto na flutuação do câmbio e nos preços das ações negociadas nas Bolsas de Valores de todo o mundo. Também afetam investimentos públicos e privados e a geração de empregos no mundo.

O grupo responsável por discutir esses temas nos Estados Unidos é chamado de Fomc, sigla em inglês para Comitê Federal de Mercado Aberto.

Esses conselheiros debatem a meta de juros dos fundos federais em oito reuniões ao longo do ano. A tarefa é semelhante à do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central do Brasil.

A taxa das operações de mercado do Fed influencia os juros cobrados nos empréstimos que os bancos privados realizam entre si, um instrumento importante para o ajuste de caixa realizado todos os dias pelas instituições financeiras.

Os juros das operações entre os bancos são refletidos no custo do crédito em geral, como nos empréstimos pessoais, financiamentos imobiliários e outros.

Controlar o crédito é uma forma de regular a quantidade de dinheiro em circulação e, consequentemente, de manter a inflação em níveis aceitáveis. É o que os economistas chamam de política monetária. Essa é a missão básica dos bancos centrais.

Quando os juros estão baixos, o crédito fica mais acessível. O baixo custo do empréstimo estimula pessoas a comprar bens e a consumir. Empresas colocam projetos em curso e geram mais empregos.

Por isso o Fomc rebaixou a sua meta de juros para zero quando a pandemia de Covid paralisou atividades econômicas globais em março de 2020. A ideia era colocar mais dinheiro em circulação através do crédito frouxo e, assim, evitar uma explosão de demissões.

Em tempos de dinheiro abundante e barato, grandes investidores ficam mais dispostos a comprar ações de empresas de países de economia emergente, como é o caso do Brasil, um tipo de aplicação considerada arriscada devido à instabilidade desses mercados. Os recursos permitem o crescimento de negócios e a geração de trabalho e renda.

Em situação oposta à oferta generosa de crédito barato, o aperto da política monetária (elevação dos juros) nos Estados Unidos prejudica o Brasil e outros emergentes porque, simplesmente, há menos capital disponível para investimentos.

Ao aumentar os juros, o Fed eleva a recompensa para quem aplica no Tesouro americano, cujo risco de perdas devido a um calote é considerado inexistente.

Com uma opção segura pagando mais, os investidores ficam mais seletivos. Muitos desistem das ações de empresas, principalmente as mais arriscadas.

Outros bancos centrais são forçados a elevar juros para convencer investidores de que o retorno oferecido por seus títulos soberanos compensa o risco que eles correm ao não levarem seus dólares para os EUA.

Se os dólares voltam para a renda fixa americana em larga escala, a taxa de câmbio dispara e os custos de importação sobem. Matérias-primas, cujos preços são dolarizados, também ficam mais caras no mercado interno. Isso faz a inflação subir por aqui.