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'Amamentação opcional?': franceses veem alimentação dos bebês como responsabilidade compartilhada

·5 minuto de leitura

Durante a gravidez da minha primogênita, hoje com 4 anos, ouvi todo tipo de relato sobe amamentação. Alguns me falavam da dor e exaustão, outros da sensação maravilhosa de cumplicidade que somente a ocitocina agindo em plena produção de leite poderia gerar. Quando Lila nasceu, me vi no grupo dos que não tiveram problemas para amamentar. Mesmo com tudo indo bem, dentro de mim havia uma sensação incômoda. Embora eu amasse ter minha pequena nos braços, vivendo intensamente o famoso “olho no olho’’ da amamentação, eu sentia uma certa melancolia. Me via como uma mulher frágil, que se assemelhava a um animal acuado. Não se tratava do efeito do puerpério, que mexe com todas as emoções no período de pós-parto, mas de uma sensação que me acompanhou durante os sete meses que amamentei Lila.

Amamentar para mim foi se tornando algo muito íntimo. Eu me organizava para nunca precisar fazê-lo em público. Dentro de casa, apenas meu marido era testemunha do momento — se houvesse visita, mesmo membros da família próxima, eu me isolava em um cômodo com porta fechada. Nunca compartilhei com ninguém fotos minhas amamentando, muito menos em redes sociais. Era um momento só meu e dela. Lembro de passar quase toda a noite do primeiro Natal da Lila transitando entre a sala de jantar e o quarto. Ela tinha apenas quatro meses e mamava com frequência e, por mais que os outros membros da família tentassem me deixar confortável com a situação e insistissem para eu ficar entre eles, eu simplesmente não me sentia à vontade. Comi a sobremesa da ceia em uma poltrona, sozinha no cômodo dos fundos, com a pequena nos braços.

Ainda assim mantive a amamentação e não me arrependo disso. Tanto que, com o nascimento do meu segundo filho, Louis, em 2019, repeti todo o processo. Durante essa segunda experiência, me senti exatamente igual à primeira vez. Contudo, eu estava mais segura de que poderia parar de amamentar quando quisesse, sem cumprir com a agenda recomendada pelos órgãos de saúde.

Tive meus filhos na França, onde moro há cinco anos. Aqui o aleitamento não é prioridade para as mulheres. Quando chegamos à maternidade no dia do parto, o médico pergunta com naturalidade qual será o método de alimentação do bebê. Eles até dialogam e explicam a importância do leite materno, mas não insistem e não julgam aquelas que optam pela mamadeira. Nenhuma mãe francesa que eu conheço sentiu pressão ou obrigação social para amamentar. Algumas fazem apenas a “mamada de boas vindas’’, ainda na sala de parto, para não perderem o precioso colostro, riquíssimo em anticorpos. Outras até apostam em uma amamentação duradoura e chegam a levar para o dia do parto sutiãs adaptados na mala da maternidade — mas o kit com fórmula infantil também fica a postos no quarto, caso a amamentação se torne árdua demais.

Uma pesquisa do centro epidemiológico e estatísticas da Sorbonne de Paris mostrou que, das 71% das mulheres que optam pelo aleitamento após o parto, apenas metade delas segue amamentado no primeiro mês de vida do filho. Além disso, apenas 25% delas segue amamentando até os seis meses de vida do bebê. Eu faço, portanto, parte desse grupo menor.

Quando questiono minhas amigas francesas sobre o motivo de não optarem pelo aleitamento, a grande maioria afirma que a alimentação do bebê é uma responsabilidade que deve ser compartilhada igualmente entre pais e mães, assim como trocar fralda e dar banho. Elas acreditam que não faz sentido uma mulher se submeter a tantas restrições havendo uma outra opção disponível, na qual o bebê se mantém perfeitamente saudável. Para engrossar o caldo, em julho desse ano, a licença-paternidade remunerada aumentou de 14 dias para 28 dias no país. Com isso, os pais se tornam mais disponíveis para ajudar com as mamadeiras.

Não concordo com as francesas e acho válido tentar amamentar. Mas a cultura do país tirou um peso enorme das minhas costas. Eu amamentei sabendo que poderia parar a qualquer momento, sem precisar ter como justificativa uma história de sofrimento por trás de tudo — e o simples fato de ser livre para escolher aquilo que se adequa melhor à minha realidade. Minha sogra conta que tentou por algumas semanas amamentar na década de 80, mas não foi adiante. Já havia naquela época anúncios em revistas femininas explicando os benefícios da fórmula infantil. Falava-se da praticidade da mamadeira e da independência da mulher, sem que o rebento deixasse de receber os nutrientes necessários para crescer com saúde. Minha cunhada, em contrapartida, nem tentou — sem remorsos. Nas primeiras semanas com recém-nascido em casa, ela conseguia tirar um tempo para ela sem se preocupar com hora da mamada. Lembro de vê-la almoçar com as amigas e deixar o filho com o pai da criança, livre de angústias.

A leveza com a qual ela se comprometia com seu bebê e ao mesmo tempo reservava um momento para fazer o que lhe deixava feliz sem necessariamente estar colada ao rebento me impressionou. Talvez no Brasil ela fosse julgada de outra forma, mas na França ela é apenas uma mãe como qualquer outra. Para uma mulher que amamenta, viver essa mesma situação seria organizar uma operação de guerra — se é que é possível.

Do outro lado da moeda, o fato de amamentar em um país estrangeiro, onde o aleitamento não é tão popular assim, também me causou problemas. Quando tive uma mastite (inflamação da glândula mamária) na amamentação do meu caçula, enfrentei dificuldades para encontrar um profissional que me recomendasse o tratamento adequado. Passei por três médicos diferentes e cada um deles me disse para proceder de formas distintas. Aprendi, na prática, que amamentar é um ato extremamente íntimo e não pode ser obrigatório ou condenado. Escolhi isso sabendo que a mamadeira também era uma opção válida.

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