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Amado e odiado, Lula divide traders às vésperas da eleição

(Bloomberg) -- Dias depois de Luiz Inácio Lula da Silva deixar o Palácio do Planalto em Brasília, Mohamed El-Erian, então CEO da influente gestora Pimco, publicou algo que, em essência, era uma carta de amor ao ex-presidente. Era janeiro de 2011, o mundo vivia um tórrido boom de commodities, a economia brasileira estava em alta e a Pimco, junto com dezenas de outros investidores, acabara de fazer uma fortuna investindo em títulos do país.

A gestão de Lula provara ser tão bem-sucedida, elogiou El-Erian em uma coluna da Bloomberg Opinion, que poderia influenciar líderes políticos em todos os lugares do planeta, permitindo que “centenas de milhões de pessoas em todo o mundo” se beneficiassem de sua presidência. “Gerações de brasileiros vão se lembrar do popular presidente por superar em muito as expectativas mais otimistas sobre o que o Brasil poderia alcançar”, escreveu ele.

Era o apogeu do culto à figura de Lula. A década seguinte iria desferir golpe após golpe em sua reputação: sua sucessora escolhida a dedo sofreu um impeachment; a economia afundou; a pobreza disparou; e um escândalo de corrupção abalou o país, acabando por colocar Lula na prisão por 580 dias.

Agora, à medida que o líder de esquerda se aproxima cada vez mais de conseguir uma impressionante reviravolta política – quase todas as pesquisas o colocam na frente de Jair Bolsonaro na disputa pela presidência, antes do primeiro turno da votação em 2 de outubro – os investidores estão divididos em dois lados: os traders que vivem no país e detestam Lula e os estrangeiros que dão as boas-vindas ao seu retorno.

É uma dicotomia curiosa. Os estrangeiros, muitos dos quais fizeram como El-Erian e investiram nos mercados brasileiros no início do rali dos anos 2000, escolhem coletivamente lembrar daqueles dias de glória e dos retornos de dois dígitos que eles conseguiram ano após ano em ações e títulos. (Em uma resposta por e-mail recentemente, El-Erian disse que Lula enfrentará desafios para repetir seu sucesso em um momento em que as perspectivas econômicas globais não são tão favoráveis.) Já os investidores que moram no Brasil, forçados a acompanhar de perto os anos de ressaca que se seguiram, escolhem se lembrar de Lula como a figura do presidiário dos “pixulecos” que os manifestantes faziam voar alto em manifestações contra a corrupção no país. Ambos estão certos. Lula foi, de fato, o rosto da ascensão do Brasil – e da América Latina – e também de seu declínio neste século.

“Os estrangeiros, com certeza, gostam mais de Lula do que os locais”, diz Bruno Pandolfi, sócio-fundador da SPX Capital, que tem mais de R$ 80 bilhões em ativos sob gestão. É uma afirmação comum entre traders brasileiros mais conectados ao cenário financeiro em Nova York ou em Londres, onde Pandolfi vive agora. Os dados, embora não sejam tão categóricos, também mostram uma divisão: investidores estrangeiros adicionaram cerca de R$ 70 bilhões à bolsa brasileira neste ano até 12 de setembro, excluindo entradas para ofertas de ações, de acordo com dados da bolsa compilados pela Bloomberg. Isso ajudou a compensar vendas pesadas dos locais. Os fundos de ações brasileiros registraram saídas de R$ 55 bilhões nos primeiros oito meses do ano.

Há uma segunda explicação, igualmente importante, para essa divergência: ESG. À medida que os investimentos que consideram fatores ambientais, sociais e de governança crescem em popularidade, compondo uma parcela cada vez maior das carteiras de gestores de recursos, o Brasil tem ficado um pouco de fora. Isso ocorre em parte porque os comentários inflamados de Bolsonaro sobre assuntos polêmicos dificultam que investidores com este tipo de mandato cheguem perto do país. Nos últimos anos, o ex-capitão do Exército zombou das vítimas da Covid-19 fingindo ter problemas respiratórios, criticou a migração de “certos tipos de pessoas” para o país e exortou os brasileiros a “usar as riquezas que Deus nos deu para o bem-estar de nossa população” em uma tentativa de abrir a floresta amazônica para mineração.

“Bolsonaro assusta os estrangeiros”, diz Bruno Coutinho, cofundador e CEO da Mar Asset Management, com sede no Rio de Janeiro. “Lula é o oposto.”

A estratégia de Coutinho para uma possível presidência Lula: compre ações líquidas e de grande valor de mercado, que capturem grande parte do dinheiro que o estrangeiro despejar no mercado, bem como ações de consumo, que devem se beneficiar do esforço de Lula para aumentar os gastos das famílias. Emy Shayo, estrategista de ações do JPMorgan, vê de maneira similar. Ela coloca varejistas, especialmente supermercados que atendem a brasileiros de baixa renda, no topo de sua lista para um cenário de mais intervenção estatal.

Pedro Jobim, economista-chefe da gestora Legacy Capital, acredita que as perspectivas para crescimento econômico do país no médio prazo iriam se deteriorar significativamente sob a gestão de Lula. O líder petista poderia acelerar a distribuição de crédito via bancos estatais e aumentar o tamanho do BNDES novamente -- penalizando a trajetória fiscal do país, segundo Jobim. A agenda de reformas feitas sob o governo Bolsonaro -- que além da previdência incluem revisões do marco de óleo e gás e saneamento, além de reduções no número de servidores públicos e maior controle sobre reajustes -- também seria interrompida.

“A agenda, as ideias do PT, vão contra a agenda de reformas que vem sendo feita desde o governo Temer”, disse Jobim. “Muita gente acha que foi só na Dilma, mas os desastres das refinarias de Abreu e Lima e do BNDES começaram na gestão Lula.”

Com o Brasil se preparando para a que pode ser sua eleição presidencial mais simbólica em anos -- que vai definir desde o tamanho do estado na economia até, no limite, o destino da Amazônia -- a divisão entre os traders reflete uma polarização mais ampla em todo o país. Lula, que tem uma liderança clara nas pesquisas antes do primeiro turno, tem na sua base de apoio cidadãos mais pobres. Já Bolsonaro é muito mais popular entre as classes mais ricas, incluindo os homens brancos que compõem a maioria da comunidade de investidores do país.

Nem toda Faria Lima e o Leblon amam Bolsonaro, é claro. Muitos estão incomodados com os dois candidatos. Um trader do Rio de Janeiro, que não está autorizado a falar publicamente sobre o tema, disse em uma discussão na mesa de operações: “Toda vez que Lula fala, penso em votar em Bolsonaro. Toda vez que Bolsonaro abre a boca, eu considero votar em Lula.”

Mas mesmo os mais pessimistas com a perspectiva de uma presidência de Lula sabem que pode ser tolice apostar contra ele, pelo menos no curto prazo. Os estrangeiros o veem de forma diferente – e é o dinheiro deles, não o dos locais, que tende a determinar a direção do mercado. Então melhor apenas aproveitar o momento.

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