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América Latina enfrenta crise 'brutal' e recessão por COVID-19, segundo especialistas

Por Ariela NAVARRO
Imagem de 9 de abril de 2020 de vagão vazio no metrô de Santiago

O coronavírus causará na América Latina "um estrago brutal" e uma crise de "alta magnitude", alertaram especialistas que explicaram que a pandemia chegou na região em um momento de crescimento lento e a levará a uma recessão em 2020.

A epidemia e as restrições para detê-la, que prejudicam a economia, chegaram em um momento em que a região já experimentava um crescimento modesto. Em janeiro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) calculou uma expansão de 0,1% em 2019 e projetou a de 2020 em 1,6%.

Na quinta-feira, a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, alertou, sem dar novas estimativas, que a epidemia representa "um grande risco" para países emergentes e pobres, como os da América Latina.

Na semana passada, a CEPAL, órgão da ONU, advertiu que a América Latina enfrenta o início de uma "profunda recessão" devido ao coronavírus, o que levará a uma contração do PIB regional entre 1,8 e 4% em 2020.

"É uma crise de magnitude muito alta", disse à AFP Roberto Sifon, diretor e gerente de análises e finanças públicas internacionais da S&P Global.

A agência de classificação de risco S&P previu que a pandemia de COVID-19 levará a América Latina a uma recessão em 2020, com uma contração de 1,3%.

S&P projetou que a recessão pode ser pior em algumas economias da região do que a crise financeira global da década passada.

Claudio Loser, ex-chefe do Departamento para o Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional, disse à AFP que "a crise enfrentada pela América Latina é, no mínimo, grave, e certamente o impacto será brutal".

"Não podemos saber com certeza a magnitude das consequências", ressaltou Loser.

A consultora de macroeconomia Pantheon resumiu em um relatório publicado no início de abril que o novo coronavírus representa "um estrago brutal" para a economia latino-americana.

- Brasil, uma resposta lenta -

Pantheon Macroeconomics projetou problemas no Brasil pela lentidão na implementação de medidas de contenção do surto.

Na maior economia da região há grande descontentamento pela postura do presidente Jair Bolsonaro contrário às medidas de restrição, por medo do impacto na economia.

"Bolsonaro não está levando a crise a sério, o que provavelmente vai aumentar o dano econômico", segundo Pantheon Macroeconomics.

Em meados de março, o Banco Central reduziu sua taxa básica de juros para 3,75%, um mínimo histórico, pelos riscos de desacelaração econômica provocados pela pandemia.

- México, exposto aos EUA -

Pantheon Macroeconomics destacou que, segundo seus indicadores, o México passava por um momento difícil antes mesmo da pandemia.

Um ponto fundamental é a sua exportação para os Estados Unidos.

"A última vez que os Estados Unidos estiveram em recessão, em uma grande recessão -durante a crise financeira global- o PIB do México contraiu significativamente", indicou Sifon.

- Argentina e Equador: recessão e dívida -

Segundo Pantheon Macroeconomics, a crise da COVID-19 vai prejudicar ainda mais uma situação econômica e financeira frágil na Argentina, que vem de dois anos consecutivos de recessão.

A consultora enfatizou que isso vai complicar a reestruturação da dívida no país, no momento em que o governo está tendo dificuldades para pagar.

Sifon citou entre os países menos preparados o Equador, que também fechou 2019 em contração e está sob um programa do FMI, com dificuldade em cumprir seus compromissos.

- Chile, melhor apesar dos protestos -

O Chile, que enfrenta uma agitação social desde outubro de 2019, cresceu 1,1% em 2019, seu pior desempenho em 10 anos.

Mas, para Sifón, é um dos países em melhor situação nessa crise, pois, apesar dos protestos, possui um amortecedor com um volume mais significativo do que outros países.

A Colômbia, uma economia com um ritmo invejável na região, com uma expansão esperada de 3,4% antes da crise sanitária "também não está imune", segundo a Pantheon.

Mas o governo tem sido muito proativo na tentativa de conter o surto, observa a consultora.

- Inverno -

O analista da S&P espera uma normalização no final de maio ou junho no hemisfério norte, mas alertou que a América do Sul estará entrando no inverno nesse momento, um período favorável para infecções respiratórias.

"Não sabemos se isso tornará a recuperação um pouco mais longa ou não", disse Sifon.

"Esperamos que, como para o resto do mundo, até o último trimestre do ano, começemos a ver alguma normalização", concluiu.

Para Loser, existem dois fatores que podem atenuar o golpe: políticas de estímulo em países avançados e ajuda da China para a região.