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Alta de suicídios no Japão revela impacto emocional da Covid-19

Ayai Tomisawa e Marika Katanuma
·3 minutos de leitura
Foto: Getty Images
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O número de suicídios subiu no Japão em agosto porque mais mulheres e crianças em idade escolar tiraram a própria vida. Os dados são uma indicação das consequências do estresse causado pela Covid-19 ao redor do mundo.

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O país tem um problema social persistente com suicídios e é um dos poucos que divulga números atualizados sobre o fenômeno. Os dados sinalizam o que pode estar acontecendo em outras partes do planeta, que também lutam contra o desemprego em massa e o isolamento social, que afetam alguns grupos demográficos de forma mais intensa.

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Há muito tempo os sociólogos já alertavam que profundas mudanças econômicas e sociais decorrentes das medidas para conter o coronavírus poderiam causar mais mortes do que a doença em si. No Japão, a taxa de suicídio tem caído, mas continua sendo uma das principais causas de morte prematura no país. Este ano, mais de 13.000 vidas terminaram dessa forma, enquanto o total de óbitos provocados pela Covid-19 não passa de 2.000.

De acordo com estatísticas oficiais, o número total de suicídios aumentou 15,4% em relação a agosto de 2019 para 1.854, sendo que os casos entre as mulheres subiram cerca de 40% e, entre alunos do ensino fundamental ao médio, os casos mais que dobraram para 59.

O impacto na saúde mental pode ser um dos menos visíveis da pandemia, considerando a dificuldade para perceber ou mensurar sua extensão antes que seja tarde demais. EUA e China, por exemplo, demoram anos para divulgar dados oficiais sobre suicídios. No entanto, os especialistas previram uma onda de óbitos dessa maneira e há evidências cada vez maiores do fenômeno nas redes sociais.

Um estudo divulgado em maio projeta até 75.000 mortes adicionais nos EUA na próxima década associadas ao “desespero” provocado pela crise do coronavírus. O termo se refere a suicídios e mortes relacionadas ao abuso de drogas e medicamentos.

O coronavírus não apenas elevou o desemprego em todo o mundo, como também alterou normas sociais e interrompeu interações comunitárias, o que reconhecidamente agrava o desgaste emocional.

A tendência no Japão revela que a pandemia trouxe fatores adicionais de estresse. Com as famílias confinadas em casa, os pedidos de ajuda em casos de violência doméstica aumentaram. As mulheres foram desproporcionalmente mais afetadas economicamente, por trabalharem mais frequentemente de forma irregular no varejo e no setor de serviços. Quase 66% dos empregos eliminados recentemente no Japão eram ocupados por mulheres.

Na vizinha Coreia do Sul, que tem a maior taxa de suicídio entre os países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), também houve disparada no número de mulheres que tiraram a própria vida em abril, março e junho, embora o número total de suicídios entre janeiro e julho tenha diminuído na comparação anual.

A depressão é mais comum entre as mulheres e o vício é mais comum entre os homens, por isso o prolongamento da pandemia pode ter contribuído para a elevação da taxa de suicídio das mulheres, explicou Paik Jong-woo, responsável pelo Centro de Prevenção de Suicídios do país.

O quadro para as crianças é ainda mais complexo. No Japão, as escolas reabriram em junho, após ficarem três meses fechadas. “As crianças se sentem ainda mais pressionadas a acompanhar o aprendizado”, disse Hiroyuki Nishino, responsável pela Tamariba, uma organização sem fins lucrativos para a infância. “Ouvimos crianças de apenas cinco anos falando que querem morrer ou desaparecer”, alertou.

De acordo com a Lifelink, organização sem fins lucrativos com sede em Tóquio que opera uma linha de prevenção ao suicídio, cerca de 20% das chamadas recebidas entre maio e agosto vieram de alunos do ensino fundamental ao médio. Aplicativos de mensagens têm sido eficazes para viabilizar esses pedidos de ajuda, pois algumas crianças conseguem usá-los sem o conhecimento dos pais, disse Yasuyuki Shimizu, que dirige a entidade. Isso é especialmente importante quando existe violência doméstica.

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