Mercado fechado

Alta na confiança de serviços é a mais fraca em 5 meses, diz FGV

Alessandra Saraiva
·3 minutos de leitura

Cenário acende sinal de alerta para a atividade econômica e ao mercado de trabalho A confiança do empresariado de serviços registrou, em setembro, a quinta alta consecutiva — mas foi a menor taxa de elevação em cinco meses. O Índice de Confiança do setor de Serviços (ICS), da Fundação Getulio Vargas (FGV), subiu 2,9 pontos entre agosto e setembro, para 87,9 pontos. Embora o aumento tenha conduzido o indicador ao maior patamar desde fevereiro (94,4 pontos), foi a variação mais fraca do índice desde abril, "auge" do impacto negativo da pandemia na atividade econômica, e que mostrou recuo de 31,7 pontos do ICS ante maio, ressaltou Rodolpho Tobler, economista da FGV. Para ele, a perspectiva de redução no auxílio emergencial, aliada à pouca capacidade de novas vagas no mercado de trabalho, elevou cautela no consumo, com impacto na demanda por serviços. O especialista observou também que o setor ainda tem que lidar com aumento de casos de covid-19, em algumas das principais capitais do país, o que ajuda a diminuir circulação de pessoas, com impacto na atividade de serviços. Na análise de Tobler, o cenário acende sinal de alerta para a atividade econômica, visto que o setor representa mais de 70% do PIB; e para o mercado de trabalho — serviços é o setor que mais emprega na economia, lembrou ele. "Setembro não foi um mês ruim, comparado com abril. Mas podemos ver que a recuperação na confiança de serviços perdeu fôlego no mês", resumiu ele. O menor ritmo da trajetória de expansão da confiança do empresariado do setor é perceptível na evolução dos dois sub-indicadores componentes do ICS. O Índice de Situação Atual (ISA) subiu apenas 0,1 ponto, entre agosto e setembro, para 76,9 pontos; enquanto o Índice de Expectativas (IE) avançou 5,4 pontos, no mesmo período. As duas taxas de variação também foram as mais baixas desde abril, respectivamente de -29,7 pontos, e de -33,5 pontos. "O ISA subindo pouco representa que o empresário já sente essa cautela do consumidor, que sabe sobre menor valor de auxílio emergencial nos próximos meses, e tem dúvidas em relação à capacidade de absorção de trabalhadores no mercado de trabalho", comentou Tobler. "E IE subindo menos, é o empresário sabendo que vai ter auxílio emergencial menor, já preparado para isso, que vai afetar a demanda", acrescentou ele. Esse compasso de espera na demanda, motivado por cautela maior do consumidor, também foi perceptível na evolução do Nível de Utilização de Capacidade Instalada (Nuci) da Sondagem de Serviços - pesquisa do qual o ICS é indicador-síntese. Após dois aumentos consecutivos, o Nuci parou de subir, e manteve-se em 81,8% entre agosto e setembro, alertou o técnico. Na prática, se a demanda para o setor de serviços não se sustentar em trajetória de alta, não há como manter tendência de elevação na confiança do empresariado do setor, pontuou o especialista. Isso pode afetar a capacidade de empregar, da economia de serviços - que representa sozinha mais da metade do mercado formal de trabalho. Tobler lembrou de quesito especial divulgado pela FGV em meados de setembro sobre o tema. No levantamento, 45% das empresas de serviços pesquisadas pela fundação, que aderiram ao programa emergencial do governo de manutenção de emprego, informaram que vão fazer ajustes em quadro de funcionários, após término de vigência de programa. Na sondagem, o indicador de emprego previsto para os próximos meses permaneceu em alta, de 92 pontos para 99,3 pontos entre agosto e setembro. "Mas não deve continuar a subir", admitiu ele. "Serviços mostra um movimento de recuperação mais lento do que outros setores da economia, está mostrando mais dificuldade, sofrendo mais do que os outros [durante a pandemia]", afirmou. Para ele, os sinais de reação na atividade econômica, observados até setembro, estão sendo liderados por outros setores. "Creio que a economia de serviços tem um caminho mais longo de recuperação, em comparação com outras atividades", concluiu o economista. Setor de serviços é um dos principais componentes do PIB Emilio Morenatti/AP