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Alta do dólar após intervenção pressiona ainda mais a gasolina

NICOLA PAMPLONA
·4 minuto de leitura
***FOTO DE ARQUIVO*** CABO FRIO, RJ, BRASIL, 26-09-2012, - Logo da Petrobras. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** CABO FRIO, RJ, BRASIL, 26-09-2012, - Logo da Petrobras. (Foto: Daniel Marenco/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A Petrobras define seus preços usando um conceito conhecido como paridade de importação, que calcula o quanto custaria para vender o combustível importado no país. O cálculo considera as cotações internacionais, a taxa de câmbio e custos logísticos.

O preço do petróleo vem se recuperando no mercado internacional, diante das expectativas de retomada da economia com o avanço da vacinação. Recentemente, ganhou um fator adicional de pressão, com o fechamento de poços e refinarias durante a onda histórica de frio nos EUA.

Na semana passada, a cotação do petróleo tipo Brent, usada como referência pela Petrobras, oscilou em torno dos US$ 60 por barril, recuperando o patamar verificado no início de 2020, antes da pandemia do novo coronavírus.

Naquele momento, porém, o dólar situava-se em torno dos R$ 4,10, bem abaixo do patamar de R$ 5,40 vigente neste início de 2021. No fim de janeiro de 2020, segundo o CBIE, a Petrobras vendia em suas refinarias gasolina por R$ 1,85 por litro. O litro do diesel custava R$ 2,18 (ou R$ 1,93 e R$ 2,28 em valores corrigidos pela inflação).

Agora, após os últimos reajustes anunciados na semana passada, são R$ 2,48 e R$ 2,58, respectivamente. Isto é, com o petróleo em mesmo patamar, a taxa de câmbio inflaciona ainda mais os preços.

Embora as cotações internacionais tenham caído na sexta, com o retorno às operações de algumas instalações de petróleo paralisadas pela onda de frio no Texas, não há muitos sinais de que recuarão fortemente nos próximos meses.

Segundo dados da EIA (a agência americana de informações em energia), o preço médio do diesel na região do golfo do México bateu US$ 2,722 (cerca de R$ 15) por galão, alta de 3,6% em relação à semana anterior.

Para analistas do mercado financeiro, o real também permanecerá desvalorizado, cenário agravado pelas incertezas geradas após as declarações intervencionistas de Bolsonaro. Na sexta, o Itaú disse esperar que a taxa de câmbio feche 2022 em R$ 5 por dólar.

Na manhã desta segunda, ao anunciar revisão de suas expectativas, a Ativa Investimentos disse que "prevê um câmbio e juros mais elevado, uma eventual maior deterioração fiscal e um PIB mais baixo".

Assim, caso a Petrobras mantenha sua política de preços, a expectativa é que novos aumentos serão necessários. A Ativa, por exemplo, vê espaço para alta de até 6%.

"Ainda que Bolsonaro tenha dito que não irá intervir no preço da Petrobras, o discurso dele torna-se populista quando se vale de uma tentativa de colocar o povo como explorado", diz o economista-chefe da Ativa, Étore Sanchez.

Em 2021, a Petrobras já promoveu quatro reajustes no preço da gasolina e três no do diesel, com altas acumuladas de aproximadamente 35% e 28%, respectivamente. Especialistas ainda veem espaço para mais altas.

"Acho que o Brasil não está preparado para manter uma taxa básica de juros de 2%", diz Sérgio Araújo, presidente da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Petróleo). "Isso pressiona o câmbio e prejudica a precificação dos produtos dolarizados."

Araújo questiona a elevação do preço do biodiesel, que tem forte impacto no valor cobrado pelo diesel nos postos, que leva 12% de combustível vegetal na mistura. Entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2021, o litro do biodiesel subiu cerca de 50%, chegando a R$ 4,277, segundo levantamento do consultor Dietmar Schupp.

A alta reflete a disparada da cotação da soja e a desvalorização cambial. Em março, a mistura sobe para 13%, segundo o cronograma original, o que representaria impacto de mais R$ 0,02 por litro no diesel. "O vilão do preço do diesel é o biodiesel", afirma Schupp.

Em suas primeiras declarações após ser indicado à presidência da estatal, o general Joaquim Silva e Luna disse que não poderia interferir na política de preços, que "é responsabilidade da diretoria-executiva" da empresa, mas defendeu que a empresa deve ter consciência de que é parte da sociedade e que seus produtos são voltados a pessoas.

Mudanças no estatuto da companhia feitas no governo Michel Temer (MDB) tornam ainda mais difícil a intervenção, ao determinar que a Petrobras cobre do acionista controlador eventuais perdas em políticas intervencionistas.

O texto determina que políticas de interesse de seu controlador que não respeitem condições semelhantes às da iniciativa privada devem ser tornadas públicas por meio de lei, convênio ou contrato.