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Aline Midlej fala sobre os 25 anos da GloboNews, racismo e casamento inesperado

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Toda sexta-feira, a âncora do “Jornal das Dez” da GloboNews, Aline Midlej, de 38 anos, reflete sobre os acontecimentos mais marcantes dos últimos sete dias, no que batizou de “crônica da semana”. Em uma delas, publicada no seu perfil do Instagram, fala sobre episódios de racismo e violência na fronteira do México com os Estados Unidos e, na sequência, menciona o fato de o Brasil ter virado piada na imprensa internacional (depois da passagem do presidente Jair Bolsonaro pela ONU, em Nova York). Aline fala com o telespectador como se estivesse trocando impressões sobre os fatos com um amigo que precisa de uma boa dose de esperança para não deixar a peteca cair. “Mas a gente segue, sempre buscando sentido e consciência mesmo em notícias tão duras, sem perder a ternura jamais”, diz.

Seu estilo terno e ao mesmo tempo firme reverbera na GloboNews, que comemora 25 anos neste mês. “Minhas colheitas profissionais aconteceram neste momento trágico (de pandemia), mas que também se traduz em humanidade na televisão. Se não consigo, tento muito viver a notícia”, diz Aline, que, em julho, assumiu a apresentação do “J10” e, em setembro, estreou no rodízio do “Jornal Nacional”. “É a seleção brasileira, né?”.

Além de viver a notícia, a apresentadora expressa com elegância suas convicções. No horário noturno, veste branco toda sexta-feira para marcar a fé no candomblé. “É uma coisa pensada”, diz. Também foi diante das câmeras que viu a vida mudar inesperadamente, ao entrevistar o diretor Rodrigo Cebrian. “Terminei meu casamento para me casar com ele.”

A seguir, os melhores trechos da entrevista em que a apresentadora também fala sobre racismo e o desejo de ser mãe em breve.

Como descreve a cobertura de um dos períodos mais dramáticos da nossa história?

Várias cenas me marcaram ao longo destes meses. Foi na “Edição das 10h” que a gente noticiou a primeira morte por Covid-19 no Brasil. Também mostramos as primeiras cenas de cemitérios não dando conta da chegada dos corpos e de famílias carregando cilindros de oxigênio, em hospitais de Manaus, para tentar salvar os seus. Fui quase, de alguma forma, porta-voz de tragédias. Tentei transmitir as notícias com humanidade, força e esperança realista, confiando na ciência e nos exemplos que temos de comprometimento com o interesse público. Como disse, no ano passado, o Adhanom (Tedros Adhanom), diretor da OMS, a pandemia vai mostrar o melhor e o pior de cada um de nós. Continuamos sendo testados nesse sentido.

O que a levou a vestir branco às sextas, na TV?

Sexta-feira é o dia em que seguidores do candomblé usam branco em homenagem a Oxalá. Uso na vida e já tinha adotado na televisão, mas, como dá muito trabalho para produzir, acabei deixando para lá. Ano passado, retomei devido ao momento de intolerância religiosa e pela sua legitimação, muitas vezes, em falas oficiais. Achei importante reafirmar esse lugar e mostrar minha ligação com o candomblé e com religiões de matriz africana. Isso também cria estímulo no mundo da moda. Há cerca de dois meses, o Herchcovitch (Alexandre, estilista) me mandou uma caixa e falou: “Estou incluindo um macacão branco”. Ele quis ser parte disso comigo. É um ato de coragem, mas assumo o risco, e a direção me apoia. É uma mensagem política, estética e de tolerância.

Você é religiosa?

Sou muito espiritualizada, acima de tudo. Acredito em Deus e acho que Ele está presente na natureza. Minha ligação com o candomblé reside, principalmente, na conexão com a minha ancestralidade, nas mulheres que carrego comigo.

De que maneira o racismo se apresentou para você?

Venho de uma família miscigenada. Minha mãe é pernambucana, e o meu pai, baiano de origem libanesa. Nasci em São Luís, no Maranhão, mas ainda criança vim morar em São Paulo. Meu pai, que é engenheiro, e minha mãe, dona de casa, sempre priorizaram a minha educação e a dos meus irmãos. Percebia ser exceção no prédio em que morava, em Perdizes, sempre fui a única negra na escola particular, no clube. Tive poucos namorados negros porque não convivia com eles. A construção do meu eu negro foi um processo. Vivi o racismo, que considero escancarado e não velado, num olhar, numa reticência corporal. Em outras emissoras, nos anos 2000, passei pelo desafio da estética. Certa vez, deixei meu cabelo enrolado e me pediram para mudar o penteado. Fiz uma versão meio enrolada, meio lisa. Hoje, a minha resposta para esse “pedido” estaria na ponta da língua, eu ia rir alto.

Acredita no avanço da sociedade brasileira em relação a esse tema?

A gente está caminhando muito. Tenho convicção de que, se voltasse à minha escola, encontraria meninas como eu em maior quantidade. Acredito que hoje o debate está diferente, que a História do Brasil escravocrata está sendo discutida de outro jeito. A negritude não me define, ela me compõe. Também é um desafio não cair nessa estigmatização. Eu represento muita coisa: a mulher incomodada, filha de nordestinos, comunicadora, mulher negra e por aí vai.

Quais são suas referências no telejornalismo?

O Caco Barcellos, como repórter. Costumo falar que o ar-condicionado do estúdio atrofia e, sempre que dá, faço matérias, gosto de ir para a rua gravar. E ele, para mim, é o maior repórter do Brasil. Na apresentação/reportagem, a Gloria Maria é uma referência, além de ser uma mulher negra foda que abriu portas para todas nós. A Neide Duarte é uma grande repórter, e a Flávia Oliveira concentra qualidades muito importantes numa comentarista de TV.

Em agosto, uma fala sua, “sou idiota com orgulho”, viralizou. Como você interpreta isso?

O ato de ressignificar a palavra idiota é sintomático desse momento. Fiz o comentário quando me vi noticiando a fala do presidente Bolsonaro sobre comprar fuzil no lugar de feijão. Imediatamente me veio o número de 19 milhões de brasileiros em vulnerabilidade alimentar. Está tudo invertido, e a gente tem que redirecionar a ponta do leme do barco que está nos levando para uma tempestade paralela à da pandemia. Devemos ser vigilantes em termos inéditos para redirecionar nosso coração e nossa coragem, inclusive para falar o que precisa ser dito.

Como vocês conheceu o seu marido, o diretor Rodrigo Cebrian?

Estamos juntos há três anos. Conheci o Rodrigo na GloboNews. A gente se apaixonou no ar. Ele foi no meu jornal divulgar o programa “Que mundo é esse?”. Fiz uma pergunta para ele, que não me achava (ele entrou do Rio, e Aline estava em São Paulo), e brinquei: “Estou aqui, a voz do além”. Naquele momento, rolou um lance, senti o clique total. Pensei: ‘Gente, que homem interessante’. Na época, eu estava casada havia quatro anos e tinha acabado de oficializar a união. Sempre fui muito correta. Como toda mulher, tinha questões, mas não olhava para isso, tocava a vida. Começamos, eu e Rodrigo, a falar sobre trabalho e acabei me apaixonando. Terminei meu casamento para me casar com ele. É uma baita história de amor.

Deve ter sido uma decisão bem difícil, né?

Foi um abalo na estrutura de toda a família. A gente tem que seguir a intuição e, na dúvida, vai. Claro que tem dor e processos difíceis. Porém, a minha escolha, que considero corajosa, quebrou padrões e impactou todos à minha volta, fez todo mundo pensar. A vida está aí para a gente se arriscar. Dói, é difícil, mas vale a pena. Fui morar com uma amiga até poder resgatar meu apartamento, que estava alugado em São Paulo, e a gente começou a namorar à distância. Na pandemia, Rodrigo, que é do Rio, veio morar comigo. Graças à confluência de fatores, vim fazer a cobertura de um colega no Rio em julho do ano passado e nunca mais voltei. A gente se casou em dezembro de 2020. Hoje moramos durante a semana num apartamento na Lagoa e, aos fins de semana, em outro na Praia da Macumba, de frente para o mar.

Tem vontade de ter filhos?

Está no front próximo. Ainda não estou tentando porque a pandemia não está ajudando. Porém, a maternidade está me olhando, fazendo perguntas, trocando ideias comigo. Não quero adiar muito em função da minha idade, do meu tesão pela vida e da minha relação com o Rodrigo. Quando me perguntam para que colocar mais uma criança no mundo, respondo: “Se o mundo vai continuar existindo, vamos colaborar e fazer dele um lugar melhor”. Durante muito tempo tive dúvidas. Tinha medo de que virasse meu ponto de realização na vida. Quis primeiro entender quem eu era profissionalmente. Hoje, tenho mais clareza disso, deve ser fantástico e uma vivência que vale a pena como mulher. Quando esse filho vier, estarei mais pronta para ele.

Morar no rio mudou algo em você?

Nunca achei que fosse curtir acordar às oito da manhã. No fim de semana, quando estou na Macumba, dá sete e meia, e eu já levantei. Para uma paulistana que dorme tarde, é quase uma afronta. Mas acordar e ver o mar me dá um lance, me chama para a rua. Me descobri mais solar aqui.

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