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Aliados veem Bolsonaro acuado e com discurso golpista para mobilizar base após aliança com centrão

·4 minuto de leitura
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 30.07.2021 - Presidente Jair Bolsonaro recebe o presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, em visita oficial ao Brasil, no Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 30.07.2021 - Presidente Jair Bolsonaro recebe o presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, em visita oficial ao Brasil, no Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aliados de Jair Bolsonaro avaliam a renovação do discurso golpista do presidente como uma tentativa de manter sua base radical mobilizada diante de uma sucessão de acontecimentos que têm desgastado o governo ou colocado em xeque o discurso com o qual se elegeu em 2018.

Durante visita a Presidente Prudente (SP) neste sábado (31), o mandatário voltou a investir contra o sistema eleitoral do país. De um palanque, ele disse que a democracia só existe com eleições limpas e que não aceitará uma "farsa".

"Queremos eleições, votar, mas não aceitaremos uma farsa como querem nos impor. O soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um covarde. Jamais temerei alguns homens aqui no Brasil que querem impor sua vontade", disse o presidente, após participar de motociata na cidade do interior paulista.

A fala de Bolsonaro ocorre dois dias depois de ele ter promovido o mais duro ataque contra as urnas eletrônicas, numa live de duas horas também veiculada na rede de televisão pública do governo.

Nos bastidores, ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) classificaram como "patética" a live. Na transmissão, o presidente trouxe teorias sobre a vulnerabilidade das urnas que circulam há anos na internet e que já foram desmentidas anteriormente. Ele também admitiu não ter provas de suas acusações.

Após as reações geradas pela live, líderes e dirigentes de partidos do centrão fizeram um apelo para que Bolsonaro moderasse o tom em relação à existência de fraude nas urnas eletrônicas e sua defesa do voto impresso -que ele diz ser "auditável" e "democrático". Eles avaliam que o presidente precisa se afastar da pecha de radical.

O centrão é composto por legendas como PP, PL, PTB, Republicanos e Avante. Juntos, somam cerca de 200 deputados e garantem a sustentação de Bolsonaro no Congresso.

Embora tenha se comprometido, inclusive com o novo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, a baixar a fervura da crise, Bolsonaro manteve o discurso radicalizado neste sábado.

Interlocutores disseram à Folha, sob condição de anonimato, que Bolsonaro não tem condições políticas atualmente de abandonar a pauta do voto impresso e de deixar de levantar suspeitas sobre a eleição do ano que vem.

Isso porque esses temas se converteram, segundo esses interlocutores, no novo combustível para manter a base bolsonarista coesa.

O presidente costuma atuar para preservar seu colchão de apoio na população em momentos de dificuldade.

Auxiliares dizem que o presidente se sente acuado pela perda de popularidade, pelo avanço das investigações da CPI da Covid no Senado e pelas dificuldades de encontrar um partido político para disputar a reeleição em 2022.

Na mais recente pesquisa Datafolha sobre o cenário do ano que vem, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou a vantagem nas intenções de voto e cravou 58% a 31% no segundo turno.

O embarque de Ciro Nogueira, um dos principais líderes do centrão, na Casa Civil traz benefícios e prejuízos para Bolsonaro, segundo aliados.

De um lado, consolida seu apoio político no Congresso e afasta o fantasma de um processo de impeachment. Por outro, corrói o discurso eleitoral contra a velha política que marcou a campanha bolsonarista em 2018.

Neste sábado, 11 partidos protocolaram um requerimento para que o TSE interpele Bolsonaro, conforme antecipou a coluna Mônica Bergamo.

Eles querem que o presidente preste esclarecimentos sobre as acusações que fez na live de quinta contra as urnas eletrônicas.

Os partidos argumentam que "o ato configurou um verdadeiro constrangimento às instituições democráticas e ao Estado de Direito".

O requerimento foi assinado por PT, PSDB, MDB, PDT, PSOL, Rede, Solidariedade, Cidadania, PV, PSTU e PC do B.

Aliados de Bolsonaro também se dizem preocupados com os efeitos da escalada da crise institucional sobre a votação, no Senado, da indicação de André Mendonça para uma vaga no Supremo.

Candidato "terrivelmente evangélico" para um assento na corte, o atual advogado-geral da União já encontra resistências na Casa.

Se Bolsonaro insistir em declarações golpistas, o receio entre assessores é que a oposição a Mendonça aumente entre parlamentares, sob o argumento de que não podem chancelá-lo em meio aos ataques do presidente às instituições democráticas.

O líder do governo no Congresso, senador Eduardo Gomes (MDB-TO), minimiza as declarações de Bolsonaro e afirma que o presidente está apenas defendendo uma pauta legítima.

"Não é uma discussão isolada. Por enquanto o presidente está defendendo um projeto que está em tramitação no Congresso; e isso é legítimo", diz, referindo-se a uma PEC (proposta de emenda à Constituição) sobre o voto impresso que tramita na Câmara dos Deputados.

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