Mercado fechado
  • BOVESPA

    114.647,99
    +1.462,52 (+1,29%)
     
  • MERVAL

    38.390,84
    +233,89 (+0,61%)
     
  • MXX

    52.798,38
    +658,14 (+1,26%)
     
  • PETROLEO CRU

    82,66
    +1,35 (+1,66%)
     
  • OURO

    1.768,10
    -29,80 (-1,66%)
     
  • BTC-USD

    61.494,46
    +2.588,93 (+4,40%)
     
  • CMC Crypto 200

    1.464,06
    +57,32 (+4,07%)
     
  • S&P500

    4.471,37
    +33,11 (+0,75%)
     
  • DOW JONES

    35.294,76
    +382,20 (+1,09%)
     
  • FTSE

    7.234,03
    +26,32 (+0,37%)
     
  • HANG SENG

    25.330,96
    +368,37 (+1,48%)
     
  • NIKKEI

    29.068,63
    +517,70 (+1,81%)
     
  • NASDAQ

    15.144,25
    +107,00 (+0,71%)
     
  • BATS 1000 Index

    0,0000
    0,0000 (0,00%)
     
  • EURO/R$

    6,3297
    -0,0741 (-1,16%)
     

Aldir Blanc renasce por inteiro em disco feito com esmero e sintonia por velhos e novos parceiros

·4 minuto de leitura

RIO - A pena-bisturi da capa que Elifas Andreato criou para “Aldir Blanc inédito”, lançado esta sexta-feira, busca uma síntese possível – mas a verdade é que o legado do letrista falecido ano passado, de Covid-19, vai muito além da contundência das palavras. O universo carioca e suburbano pelo qual as criações de Aldir trafegam, no que ele tem de trágico e de cômico, de brutal e de romântico, não cabe nos limites temáticos, geográficos e temporais que se queira estabelecer. É um manancial de poesia, que transborda até mesmo num disco de inéditas costurado sem a presença do artista.

A reunião de parceiros e intérpretes que a homenagem motivou já justificaria as apostas em “Aldir Blanc inédito” como um dos grandes discos do ano da MPB. Mas foi a sintonia deles com o letrista, mais o trabalho de seleção da viúva May Sá Freire, os arranjos do pianista Cristóvão Bastos e a produção do baixista Jorge Helder que confirmaram a profecia: está aí um disco que encantaria o público em qualquer época, de trevas ou de sol, nos quais a filosofia e a psicologia de Aldir (que são do botequim, mas também dos livros) fossem convocadas para dar uma resposta ao Brasil.

Para as grandes vozes, não faltaram grandes canções. Maria Bethânia dá sólida concretude ao “Palácio de lágrimas” de Aldir Blanc e Moacyr Luz, um monumento de romantismo torturado em versos inspirados (e inconfundíveis) como “não tem fim esse querer / de saudade, areia e sal / com lágrimas, ergo a você / um outro Taj Mahal”. Já Dori Caymmi reveste de classe o “Provavelmente em Búzios” (de Aldir e Cristóvão Bastos), uma ode à resiliência (que pode ser amorosa ou não), coisa de quem não dá a mão ao desgosto e volta das cinzas com um sorriso no rosto.

“Voo cego” (parceria com o pianista Leandro Braga), por sua vez, entrega a Chico Buarque uma cena teatral pronta: a do surdo cataclismo que a perda do desejo provoca na vida de um casal, do ponto de vista de uma mulher, com o fogo do corpo virando a bruma consentida enquanto um bando de pombas neuróticas se ergue (e o piano derramado de Cristóvão Bastos sublinha de forma exemplar a dramaticidade das imagens). E súbito, da dor da gente que não sai nos jornais, o disco passa então à dor de milhões: a absurda violência da escravização, que Aldir traduz, com o violão e a voz de Guinga (parceiro da canção), em “Navio negreiro”: um abismo de beleza que suga toda a luz do ambiente, em dueto do violonista com Leila Pinheiro.

Mas “Aldir Blanc inédito” tem lá o seu lado solar, com mesa de bar e trombone de gafieira, em “Agora eu sou diretoria”: o quinhão da parceria com João Bosco, interpretada pelo próprio, com alegria e atenção à poesia da loura sambando na mesa “entre a coxinha e o camarão”. Carioquices mil pulam também do “Baião da Muda” (com Moyseis Marques e Nei Lopes e cantado por Moyseis). Já na “Mulher lunar” (com Luiz Carlos da Vila e Moacyr Luz), o amor dá as caras, sorrateiro, em versos aldirianos interpretados por Moacyr: “eu nem cantava e você já sorria / eu nem sonhava e você já sabia / que viria a ser minha inspiração”.

E o universo do disco abarca ainda um bom pedaço de feminino, seja no bolero do cansaço profundo “Acalento” (composto com João Bosco e Moacyr Luz e adequadamente cantado por Ana de Hollanda), em “Aqui, daqui” (parceria com Joyce, na qual a própria singra com graça pelas sinuosidades dos versos) e em “Outro último desejo”, musicada por Clarisse Grova e interpretada pela própria: um divertido exercício de trocar o que foi dito no clássico samba canção de Noel Rosa (“aos canalhas que eu odeio / diga a eles que fui teu esteio / que pensa em voltar pra mim”).

Histórica parceria de Aldir Blanc, Sueli Costa recupera uma antiga canção, “Ator de pantomima”, dos tempos da ditadura, sobre um personagem que “ridiculariza a morte em cada ato que o rei real reliza” e “se nega a beber na mesa dos mosqueteiros do rei”. Não por acaso, é a penúltima faixa, abrindo a cortina para o ato final, de “Virulência”, a mais recente composição do disco, que o ator Alexandre Nero e o pianista Antonio Saraiva montaram a partir de trechos de e-mails que Nero trocou com Aldir, pouco antes da sua morte, acerca de um musical que pensava em produzir.

Belo e cortante (como o bisturi da capa), o tango moderno interpretado com brilho pelo ator dá a dimensão do horror do Brasil de 2021, de um vírus “que nos virou do avesso” e de “crianças baleadas que, brincando, tombam na sala / quilombolas, guajajaras machucadas nas florestas / e favelas por um fio / equilibristas no nada”. É a constatação de que, depois de Aldir, continua sendo necessário – agora mais do que nunca – inventar um lado de fora.

Cotação: Ótimo

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos