Mercado fechado
  • BOVESPA

    101.259,75
    -657,98 (-0,65%)
     
  • MERVAL

    38.390,84
    +233,89 (+0,61%)
     
  • MXX

    38.707,72
    +55,53 (+0,14%)
     
  • PETROLEO CRU

    39,78
    -0,86 (-2,12%)
     
  • OURO

    1.903,40
    -1,20 (-0,06%)
     
  • BTC-USD

    12.927,05
    +30,46 (+0,24%)
     
  • CMC Crypto 200

    260,05
    -1,40 (-0,54%)
     
  • S&P500

    3.465,39
    +11,90 (+0,34%)
     
  • DOW JONES

    28.335,57
    -28,09 (-0,10%)
     
  • FTSE

    5.860,28
    +74,63 (+1,29%)
     
  • HANG SENG

    24.918,78
    +132,65 (+0,54%)
     
  • NIKKEI

    23.516,59
    +42,32 (+0,18%)
     
  • NASDAQ

    11.669,25
    +19,50 (+0,17%)
     
  • BATS 1000 Index

    0,0000
    0,0000 (0,00%)
     
  • EURO/R$

    6,6639
    +0,0538 (+0,81%)
     

Alberto Manguel doa biblioteca com 40 mil livros para Lisboa

Felipe Sánchez, do "El País"
·4 minutos de leitura

LISBOA — O tesouro bibliográfico do escritor argentino Alberto Manguel, composto por cerca de 40 mil volumes, estava há cinco anos trancado em caixas em um depósito de Montreal, no Canadá. Após sua repentina saída da França, o escritor recebeu várias ofertas para hospedar a coleção, mas menhum projeto foi tão longe ou lhe agradou tanto quanto o formulado no início deste ano pelo prefeito de Lisboa, o socialista Fernando Medina.

A proposta incluía a criação do Centro de Estudos da História da Leitura, com base no acervo, a ser instalado no palácio do Marquês de Pombal, um edifício do século XIX de arquitetura barroca tardia e neoclássica que se encontrava vazio. A necessária restauração do prédio também será custeada com recursos municipais.

Além de pagar os salários de quatro bibliotecários, a Câmara Municipal de Lisboa ofereceu ao próprio Manguel a direção do futuro centro. “Não pude acreditar que eles estavam realmente me fazendo a oferta”, disse o escritor ao EL PAÍS por e-mail.

Em troca, ele doará à cidade o acervo bibliográfico, que possui exemplares valiosos, como uma Bíblia do século XIII e uma história da literatura onde Borges esboçou seu conto "A Busca de Averróis", publicado no livro "O Aleph".

“Depois de sepultar meus livros quando deixei meu paraíso na França, não sonhei com nada além de sua ressurreição”, diz Manguel. Até 2015, o escritor viveu em um antigo presbitério no Vale do Loire, em cujo celeiro instalou sua biblioteca. Ele atribui a suas opiniões contra o presidente conservador Nicolas Sarkozy (2007-2012) a perseguição burocrática da qual passou a ser vítima — exigiam dele comprovantes da compra de cada volume —, o que o obrigou a partir para Nova York. Entre 2016 e 2018, Manguel esteve na Argentina, onde foi o responsável pela direção da Biblioteca Nacional, durante o governo Macri.

Desinteresse espanhol

"Houve muitas tentativas de trazer meus livros de volta à vida", continua Manguel eletronicamente. “Uma fundação foi criada em Nova York para trazê-los para Manhattan, mas os organizadores não conseguiram convencer os proprietários a doar um prédio para abrigá-los; depois, houve planos para instalar a biblioteca em Montreal e na cidade de Quebec, que também falharam. As cidades do México, Istambul e uma aldeia perto de Nápoles também foram propostas".

Para a surpresa do escritor, nenhuma das ofertas veio da Espanha. “Achei que talvez a Casa do Leitor em Madrid ou uma universidade amigável como Salamanca ou Granada se interessasse pelo projeto, mas para minha grande pena não houve oferta”, diz ele.

“Nenhuma biblioteca é neutra”, diz o prefeito de Lisboa, Fernando Medina. “Isso vai ser um símbolo de abertura, muito necessário para os tempos sombrios em que vivemos”.

Medina estima que a instituição esteja em pleno funcionamento dentro de dois anos, embora a ideia seja abri-la aos poucos. O centro também contará com um conselho honorário do qual participarão escritores como Margaret Atwood e Salman Rushdie.

“Lisboa tem um excelente sistema de bibliotecas, mas todas em português”, afirma Manguel, vencedor do prêmio Formentor em 2017. “A minha biblioteca representa várias outras línguas europeias, bem como um bom material de pesquisa sobre a história da leitura (o meu tema, claro)”, especifica.

Presente de Borges

Em "Embalando a minha biblioteca" (Tinta da China Edições, 2018), a elegia que escreveu sobre as dezenas de milhares de volumes que enviou a Montreal depois de ser forçado a deixar sua casa na França, Manguel lista alguns dos membros mais queridos de seu santuário: uma antologia de bolso de Alfred Tennyson que sublinhou quando era criança; uma cópia do "De rerum natura", de Lucrécio, que o escritor usava nas aulas de latim; uma edição espanhola do tratado "Da guerra", de Clausewitz, que pertenceu a seu pai; um "Dom Quixote" cuja editora foi fechada pelos militares na Argentina e cujo editor, Isaías Lerner, teve de se exilar; um livro de Kipling, "Stalky & Co.", lido por Jorge Luis Borges em sua adolescência na Suíça por ele dado em 1969 ao jovem Manguel, que, mais tarde, ajudava o amigo a ler quando ele perdeu a visão.

Manguel diz que até considera manter alguns volumes, mas já bateu o martelo quanto a doar vários de seus favoritos, como uma Bíblia manuscrita, produzida no século 13 em um scriptorium alemão, e uma história da literatura árabe-andaluza, de Gonzáles Palencia, assinada por Borges em 1934, com o esboço detalhado do que seria, anos depois, seu conto "A busca de Averróis".

"Este foi o último livro que encontrei por acaso em Buenos Aires na véspera de partir (em 1969, para morar na Europa), como mais um presente de Borges ou de seu fantasma", conta Manguel.

“Ao longo desses cinco anos”, lembra o escritor, “visitei meus livros em seu depósito em Montreal, como quem visita seus defuntos queridos no cemitério, e abri algumas caixas para ter novamente em minhas mãos alguns dos livros, ao menos por alguns minutos. Agora, felizmente, estão todos embarcados rumo a Lisboa ”.

O escritor e tradutor sente-se ligado por alguns fios à capital portuguesa, onde apresentará oficialmente a doação no próximo sábado, durante uma sessão de autógrafos na Feira.

“Lisboa me escolheu. Mas eu a teria escolhido por seu charme tranquilo e cultura. E lembremo-nos de que os antepassados de Jorge Luís Borges eram portugueses”, conclui.