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Ala política avalia usar desoneração para acelerar PEC de corte de gastos

THIAGO RESENDE E JULIA CHAIB
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Para tentar abrir caminho para a votação da proposta que cria o Renda Cidadã e corta despesas em situações de aperto fiscal, interlocutores do governo avaliam incluir no texto o aval à prorrogação da desoneração da folha de pagamentos para os 17 setores beneficiados hoje. O Congresso tende a derrubar um veto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e prorrogar a medida que reduz encargos trabalhistas a setores com mão de obra intensiva (desoneração da folha) até o fim do ano que vem, mas integrantes do Ministério da Economia dizem que isso seria inconstitucional. Diante do cenário de derrota na votação do veto, integrantes da ala política do governo discutem usar a desoneração como moeda de troca. Assim, a PEC (proposta de emenda à Constituição) Emergencial, que cria mecanismos temporários de redução de despesas, como corte de jornada e salário de servidores, também poderá prever um trecho para pacificar a discussão em torno da legalidade ao se prorrogar incentivos fiscais a 17 setores. De um lado, o governo cederia à derrota no caso da desoneração da folha. De outro, aproveitaria a vontade do Congresso em beneficiar as empresas para destravar a PEC, enviada aos parlamentares em novembro do ano passado. A estratégia, porém, ainda enfrenta resistência de membros da equipe econômica. Auxiliares do ministro Paulo Guedes (Economia) afirmam que ampliar os benefícios tributários seria uma medida que fere a Constituição. O argumento é que, desde novembro, quando entrou em vigor a reforma da Previdência, fica proibido conceder novos descontos que reduzem a arrecadação do fundo que banca as aposentadorias do setor privado. A desoneração da folha, adotada no governo petista, permite que empresas possam contribuir com um percentual que varia de 1% a 4,5% sobre o faturamento bruto, em vez de 20% sobre a remuneração dos funcionários para a Previdência Social (contribuição patronal). O benefício acaba em dezembro, e o Congresso aprovou a prorrogação da medida --vetada por Bolsonaro. Hoje, a medida beneficia companhias de call center, o ramo da informática, com desenvolvimento de sistemas, processamento de dados e criação de jogos eletrônicos, além de empresas de comunicação, companhias que atuam no transporte rodoviário coletivo de passageiros e empresas de construção civil e de obras de infraestrutura. Por ano, o Ministério da Economia estima que deixa de arrecadar R$ 10,2 bilhões. A ala política do governo articula, portanto, um dispositivo na PEC Emergencial para evitar disputa judicial em caso de o Congresso derrubar o veto de Bolsonaro e ampliar a desoneração da folha. Empresários desses 17 setores, que reúnem cerca de 6 milhões empregos diretos, dizem que não suportariam esse aumento de custo e que 1 milhão de pessoas poderiam perder os empregos caso o veto seja mantido. A PEC Emergencial tem resistência na Câmara e no Senado por prever medidas impopulares, principalmente em ano eleitoral. Os gatilhos de corte de gastos reduzem benefícios de servidores públicos, cujo lobby é um dos mais influentes no Congresso. O relator da PEC, senador Márcio Bittar (MDB-AC), também quer apresentar uma nova versão do texto, prevendo a criação do Renda Cidadã, programa social que substituiria o Bolsa Família. Apesar de ampliar gastos sociais, o assunto está longe de ser consenso. O governo e o Congresso não conseguem encontrar uma forma de reduzir despesas públicas e usar o resto do dinheiro para bancar o programa. O Palácio do Planalto quer que o novo Bolsa Família entre em vigor já em janeiro, quando está previsto o fim das parcelas do auxílio emergencial. Mas, diante de críticas e reação negativa do mercado financeiro, o governo já começou a rever o plano anunciado na segunda para viabilizar o Renda Cidadã por meio de corte de gasto com precatórios. Mesmo com as divergências sobre o programa social, Guedes quer a aprovação da PEC Emergencial por causa do corte de gastos.