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Ainda é possível controlar mutação do vírus detectada no Reino Unido, diz especialista

Robin MILLARD
·3 minuto de leitura
A nova cepa incorpora uma mutação, chamada "N5017", à proteína da "espícula" do coronavírus, o que lhe permite se enganchar às células humanas para penetrá-las

A Europa ainda pode controlar a expansão da nova cepa do vírus da covid-19 registrada no sul da Inglaterra, a qual levou vários países a fecharem suas fronteiras com o Reino Unido - afirmou a dra. Emma Hodcroft, especialista em mutação de vírus.

Existe, porém, a possibilidade de que a cepa já esteja circulando em outros países e que tenha passado despercebida, afirmou a dra. Emma.

A epidemiologista anglo-americana, que trabalha na Universidade de Berna (Suíça), também pediu o desenvolvimento do sequenciamento das variações do genoma do SARS-CoV-2, vírus responsável pela covid-19, para poder melhor seguir o caminho percorrido por suas inevitáveis mutações. 

A dra. Hodcroft codesenvolveu o projeto Nextstrain, que busca explorar em tempo real as informações sobre agentes patógenos que os dados genéticos podem fornecer.

- É tarde demais para controlar a difusão desta cepa? -

"Em nível europeu, acho que não", afirmou a pesquisadora, embora considere que existe a possibilidade de que "haja mais casos desta variante na Europa do que detectamos até agora".

"Ainda é possível que essa variante possa ser contida em níveis baixos. Se for encontrada em poucas pessoas e essas pessoas fizerem um bom trabalho, cumprindo as medidas, usando máscara, talvez não se expanda mais", disse.

"Nunca podemos evitar a mutação de um vírus, mas podemos melhorar nossas chances, limitando o número de casos", declarou Emma Hodcroft, insistindo na necessidade de se respeitar medidas como o uso de máscara, lavagem das mãos e distâncias. Essas medidas são fundamentais, levando-se em conta que, segundo as autoridades britânicas, a cepa recém-descoberta é muito mais contagiosa.

"Quanto menos o vírus circular, menos chance ele terá de infectar pessoas diferentes, com diferentes sistemas imunológicos, com diferentes históricos de vacinação", explicou. 

"Assim, reduzimos as chances de que acabe em algum lugar favorável para novas mutações" que, talvez, possam ser prejudiciais aos humanos, acrescentou.

O mais difícil será evitar que a variante deixe o Reino Unido, alertou.

"Isso será mais complicado, porque é mais difícil pôr limites" no Reino Unido. 

"A Bélgica pode dizer coisas como: 'Nenhum voo britânico pode pousar aqui', mas no Reino Unido não é possível dizer: 'Todo mundo em Londres, estamos fechando as estradas, não podem sair'", completou.

"Não estou dizendo que não valha a pena tentar, mas será difícil conter [o vírus] no sudeste da Inglaterra, principalmente com o Natal, que está chegando", acrescentou.

- Qual é o impacto da propagação da deformação na viagem?

"Infelizmente, pelo que sabemos, a variante espanhola, por exemplo, que se espalhou durante o verão na Europa, mostrou que viagens e férias podem transmitir o vírus, ou cepas, de forma incrivelmente eficaz", frisou Emma Hodcroft, pouco depois de vários países europeus anunciarem o fechamento de suas fronteiras a pessoas procedentes do Reino Unido. 

"No final das contas, é uma questão de quanto tempo você espera (...), tentando encontrar o equilíbrio entre não agir muito rápido, mas sabendo que, se você esperar muito tempo, pode perder a chance de conter" o vírus, explicou.

A Suíça impôs uma quarentena obrigatória para qualquer pessoa que tenha chegado do Reino Unido, ou da África do Sul, após 14 de dezembro.

- Por que é importante o sequenciamento?

"O método mais seguro de detectar essa cepa é o sequenciamento", afirmou a dra. Hodcroft, o que significa examinar de modo minucioso o código genético da variante para descobrir exatamente onde sofreu mutação. 

"O mais importante é rastrear essas diferentes variantes e tentar identificar se alguma delas mostra algo preocupante, como uma taxa de transmissão mais alta, resistência a uma vacina, ou uma forma mais grave" da doença, acrescentou. 

"Esta não será, certamente, a última variante que nos interessa saber onde está e como se desloca", disse a pesquisadora.

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