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Agitação política na América Latina e no Brasil derrubam Ibovespa

Juliana Machado

Para gestores, o efeito pode até ficar restrito ao curto prazo, mas vai provocar mais nervosismo a depender dos desdobramentos A instabilidade política na América Latina elevou o nível de receio dos investidores globais e a busca por proteção na região derivada desse sentimento acabou atingindo o Brasil, mesmo diante da avaliação de que o país tem fundamentos melhores e uma situação política menos dramática do que os pares. Para gestores, o efeito pode até ficar restrito ao curto prazo, mas vai provocar mais nervosismo a depender dos desdobramentos políticos aqui e em outros países.

Comentários do presidente americano, Donald Trump, sobre o acordo comercial desenhado com a China nesta tarde levaram o Ibovespa a se afastar da mínima, de 106.232 pontos. No entanto, a busca por segurança que fez disparar indicadores de risco, como o dólar e os juros futuros, conduziu o Ibovespa aos 106.751 pontos no fechamento, uma queda de 1,49%. A onda de saques por aqui ficou traduzida também no giro financeiro, de R$ 14,1 bilhões, acima da média diária dos pregões de 2019, de R$ 12,5 bilhões.

Os quatro piores movimentos cambiais hoje ficaram concentrados em América Latina — peso chileno, peso colombiano, peso mexicano e o real brasileiro se desvalorizam ante o dólar. O movimento responde aos acontecimentos na Bolívia, que enfrenta a renúncia de Evo Morales da Presidência, e no Chile, que convive com uma onda de protestos e caminha para propor nova Constituição.

Em Nova York, o maior fundo de índice (ETF) ligado a ações da região, o iShares Latin America, teve queda de 1,95% hoje — o ETF persegue a rentabilidade das 40 maiores companhias latino-americanas. O maior ETF de papéis brasileiros de Wall Street, o iShares MSCI Brazil Capped, ou EWZ, registrou baixa de 1,90%, na contramão dos índices americanos.

Não bastassem os eventos políticos na região latino-americana, o investidor continua dosando a demanda por risco globalmente porque as disputas comerciais entre China e EUA ainda estão em aberto. O aguardado discurso do presidente Trump nesta tarde trouxe alívio para ativos de risco — mas pouco. Trump reiterou que é necessário fechar logo a primeira fase de pacto comercial, mas não entrou em detalhes sobre a revogação ou não de tarifas em vigor contra importações chinesas.

Da frente doméstica, novos receios também derivam da clara disputa política em torno da prisão após condenação em segunda instância, depois do entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada e de declarações do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Depois que o STF decidiu pela ilegalidade da prisão em segunda instância, antes de esgotados todos os recursos, Alcolumbre afirmou nesta tarde que vai consultar líderes do Congresso sobre as possibilidades de alterar a questão via uma nova Constituinte.

“Para quem está investindo de fora, a visão para América Latina como um todo é ruim sim a partir do que ocorre nos vizinhos do Brasil”, afirma Mohamed Mourabet, sócio-fundador e gestor de investimentos da Hogan Investimentos. “A visão negativa é capturada por dois setores muito importantes e movimentados por essa classe, que são os bancos e empresas de commodities, que são também as de grande peso no Ibovespa.”

Segundo Mourabet, do ponto de vista do investidor local, ainda há oportunidades nas ações, considerando os fundamentos do país, mas não há como ficar imune, no curto prazo, ao movimento dos estrangeiros. “O investidor aqui acaba tendo que buscar nichos de valor e está difícil achar potencial de alta, mesmo para empresas que estão entregando resultados.”

Recentemente, o alívio proporcionado pelo avanço das negociações comerciais sino-americanas havia permitido uma mudança de curto prazo no fluxo de estrangeiros para as ações já listadas (mercado secundário) da B3. No ano até o dia 8 de novembro, porém, essa classe de investidor segue com robusta retirada de recursos, já em R$ 32 bilhões.

Segundo Adriano Cantreva, sócio da Portofino Investimentos, Bolívia e Chile são economias pequenas e com mercados financeiros bem menores e, por isso, é possível que qualquer efeito se dissolva, sem grandes impactos significativos ou duradouros. “O possível acordo comercial entre China e EUA, esse sim, é um processo que mantém a atenção dos investidores, sobretudo considerando a proximidade das eleições americanas presidenciais no ano que vem”, diz.

Ralph Orlowski/Bloomberg