Mercado fechado

Afinal, a Grande Mancha Vermelha de Júpiter vai desaparecer ou não?

Patrícia Gnipper

A Grande Mancha Vermelha é uma das características mais distintas de Júpiter, o gigante gasoso que é o maior planeta do Sistema Solar. A mancha, na verdade, é uma tempestade gigantesca na atmosfera joviana que tem forma oval e coloração avermelhada, e é a maior tempestade existente em nosso sistema estelar. Estudos vêm prevendo nos últimos anos que a Grande Mancha Vermelha estaria com os dias contados — mais ou menos duas décadas, na verdade —, só que outros cientistas refutam essa ideia, e apresentam seus argumentos.

Essa tempestade já foi muito maior, é verdade. Ela já foi grande o suficiente para abrigar mais de duas vezes o diâmetro da Terra. No entanto, com o passar do tempo seu tamanho foi reduzido e, em 2014, imagens do telescópio espacial Hubble mostraram que sua largura já havia sido reduzida o suficiente a ponto de caber apenas uma vez o tamanho da Terra ali.

Bela foto de Júpiter tirada pela sonda Juno, da NASA, mostra a Grande Mancha Vermelha ali no cantinho direito (Foto: NASA)

Mas então ela está encolhendo e vai acabar desaparecendo, certo? A resposta não é tão simples quanto parece. Philip Marcus, professor de engenharia mecânica na Universidade da Califórnia, levantou dados que contradizem a suspeita de que a Grande Mancha Vermelha de Júpiter estaria desaparecendo. "Acredito que a mancha não corre o risco de desaparecer", afirma.

Ele analisou imagens da tempestade com modelos de computador que incorporam a física de como os fluidos se movem, e seu grupo de pesquisa em Berkeley determinou a área do local. "Descobrimos que a área das nuvens é maior do que o vórtice subjacente, o gás que a define. A questão então é: uma diminuição na área das nuvens significa que o próprio vórtice estaria encolhendo?", questiona.

Essa resposta também não é fácil de ser elaborada. Ele explica que "é difícil determinar a relação entre o tamanho das nuvens e o tamanho do vórtice, ou até como as nuvens jovianas se formam e dissipam". Por isso, para entender a "saúde" da Grande Mancha Vermelha, cientistas planetários precisam estudar seu vórtice, e não suas nuvens — "o encolhimento da nuvem não é um prenúncio de sua morte", garante, afirmando ainda que suas pesquisas não encontraram evidências de que o vórtice esteja sofrendo alterações em tamanho ou intensidade.

As imagens capturam a "descamação" de nuvens vermelhas da Grande Mancha em um período de 2019. Na imagem mais antiga, de 25 de maio, a descamação é predominante no lado leste do vórtice gigante, mas um novo "floco" começa a de destacar nas imagens mais recentes (Imagem: Chris Go)

Entendendo o que são ciclones e anticiclones

Para entender um pouco melhor como funcionam essas tempestades, é preciso explicar o que são ciclones e anticiclones, e como eles interagem na atmosfera. Marcus explica que "a atmosfera de Júpiter contém vórtices além da Grande Mancha Vermelha; alguns, como este local, são anticiclones que giram na direção oposta à rotação do planeta, enquanto outros são ciclones que giram na mesma direção dele". Anticiclones surgem com nuvens brilhantes e são facilmente observáveis, enquanto os ciclones (exceto nos polos) costumam ter nuvens mais filamentosas, ou até mesmo nenhuma nuvem, sendo mais difíceis de detectar.

E como saber da existência de um ciclone quando não há nuvens visíveis? "Por mais de um século, astrônomos documentaram movimentos dos anticiclones cobertos de nuvens enquanto vagavam lentamente por Júpiter. As mudanças de velocidade eram muitas vezes abruptas e pareciam ocorrer sem motivo. No entanto, assumindo que esses vórtices observáveis ​​interajam com ciclones sem nuvens (e não observáveis), podemos explicar essas mudanças abruptas", explica Marcus.

É que os anticiclones se fundem, mas eles também repelem ciclones. Em maio de 2019, quando foi observada a "descamação" da Grande Mancha Vermelha em Júpiter, a tempestade também se fundiu com outras nuvens pequenas, que provavelmente seriam pequenos anticiclones. Quando isso acontece, "caroços" são produzidos no local onde houve a "refeição", e eles migram lentamente para o centro da tempestade.

Marcus opina: "Acredito que o derramamento de nuvens do local observado em 2019 ocorreu devido a dois eventos simultâneos: pedaços não digeridos de anticiclones mesclados viajando ao longo da fronteira do local, e um encontro próximo com um ou mais ciclones não observáveis". Ele explica que, quando um anticiclone muito grande e um ciclone menor se aproximam, antes de serem repelidos, eles criam um ponto onde ventos mudam abruptamente de direção — o que pode explicar a alteração no tamanho da Grande Mancha Vermelha.

Mas e aí: a mancha vai sumir ou não?

Seria uma pena se essa bela mancha que se destaca na atmosfera joviana desaparecesse (Foto: NASA)

A resposta é: ainda não se sabe. Argumentos válidos vêm sendo disseminados dos dois lados do ringue — do lado dos cientistas que concluem que a Grande Mancha Vermelha está, sim, desaparecendo, e do lado de quem afirma que esse efeito é temporário e não há motivo para pânico.

No entanto, Marcus é firme ao dizer que os cálculos de seu grupo de pesquisa mostram que "as recentes observações sobre o derramamento de nuvens podem ser explicadas pela colisão de nuvens não digeridas na borda da Grande Mancha Vermelha com pontos de estagnação produzidos durante um encontro com um ciclone". Ele encerra sua declaração dizendo que "acredito que [a tempestade] sobreviverá por muitos anos".

Contudo, se Marcus está certo em sua análise, ou não, ainda é cedo para concluir — e provavelmente só o tempo dirá.

Fonte: Canaltech

Trending no Canaltech: